2020-07-23 20:42:56 -0300 2020-07-23 20:42:56 -0300
seufi Marcio Garcia Seufitele Pinto

Sobre a escrita e o escrever (OFF-TOPIC)

Recentemente, marquei minha professora de Literatura numa postagem relembrando uma frase dela (não dela na verdade, mas...), que dizia que a boa literatura é a que te mantém desperto, e não a que te faz dormir... Pois bem... Ela resgatou o texto original da frase, e acaba que se trata de um texto de Eduardo Galeano, que ela postou e me marcou, conforme abaixo:

Marco aqui @thecriticgames @fonsaca, os escritores que conheço, e tomo a liberdade de marcar @onai_onai @supernova @carlosneto que interagiram e parecem curtir um pouco leitura. Recomendo a quem goste de ler e escrever...

 @seufi ao me marcar em sua publicação, você lembrou da nossa primeira aula na graduação em Letras. Fui retornar o texto do Galeano. Obrigada pela maravilhosa lembrança. Por mais alunos e amigos assim. Eis o texto: 

Em defesa da palavra

Nas longas noites de insônia e nos dias de desânimo, aparece uma mosca que fica zumbindo dentro da cabeça da gente: "vale a pena escrever? Será que as palavras sobreviverão em meio aos adeuses e aos crimes? Tem sentido este ofício que a gente escolheu - ou pelo qual a gente foi escolhido?"

As pessoas escrevem a partir de uma necessidade de comunicação e de comunhão com os outros, para denunciar aquilo que machuca e compartilhar o que traz alegria. As pessoas escrevem contra a sua própria solidão e a solidão dos demais porque supõem que a literatura transmite conhecimentos, age sobre a linguagem e a conduta de quem a recebe, e nos ajuda a nos conhecermos melhor, para nos salvarmos juntos. Em realidade, a gente escreve para as pessoas com cuja sorte ou má sorte se sente identificado: os que comem mal, os que dormem pouco, os rebeldes e humilhados desta terra: que em geral nem sabem ler. Dentre a maioria alfabetizada, quantos dispõem de dinheiro para comprar livros?

Que bela tarefa de anunciar o mundo dos justos e dos livres! Que função mais digna esta, esta de dizer não ao sistema da fome e das cadeias - visíveis ou invisíveis! Mas os limites estão a quantos metros de nós? Até onde os donos do poder nos dão permissão par ir?

A gente escreve para despistar a morte e destruir os fantasmas que nos afligem, por dentro; mas aquilo que a gente escreve só pode ser útil quando coincide de alguma maneira com a necessidade coletiva de conquista da identidade. Ao dizer "sou assim" e assim me oferecer, acho que eu gostaria de, como escritor, poder ajudar muitas pessoas a tomar consciência do que são. Enquanto instrumento de revelação da identidade coletiva, a arte deveria ser considerada matéria de primeira necessidade e não artigo de luxo. Entretanto, na América Latina, o acesso aos produtos de arte e cultura está vedado à imensa maioria das pessoas.

A obra nasce da consciência ferida do escritor e se projeta ao mundo. Então, o ato de criação é um ato de solidariedade.

Acredito no meu ofício; creio no meu instrumento. Nunca pude entender por que escrevem esses escritores que vivem dizendo, tão cheios de si, que escrever não tem sentido num mundo onde as pessoas morrem de fome. Também jamais consegui entender os que convertem a palavra em alvo de fúrias ou um objeto de fetichismo. A palavra é uma arma que pode ser bem ou mal usada: a culpa do crime nunca é da faca.

Creio que uma função primordial da literatura latina-americana atual consiste em resgatar a palavra, que foi usada e abusada com impunidade e freqüência, para impedir ou atraiçoar a comunicação. "Liberdade" é , no meu país, o nome de uma cadeia para presos políticos; "Democracia" a vários regimes de terror, a palavra "amor" define a relação do homem com seu automóvel; por "revolução" entende-se aquilo que um novo detergente pode fazer em sua cozinha; "glória" é o que um sabonete de certa marca produz; "felicidade" é a sensação que se tem ao comer salsichas. "País em paz" significa, em muitos lugares da América Latina, "cemitério em ordem"; e onde se diz "homem são" deveria se ler muitas vezes "homem impotente"

Ao se escrever, é possível oferecer o testemunho de nosso tempo e de nossa gente, para agora e para depois, apesar da perseguição e da censura. Pode-se escrever como que dizendo, de certa maneira: "Estamos aqui, aqui estivemos: somos assim, assim fomos". Na América Latina, lentamente vai tomando força e forma uma literatura que não ajuda os demais dormir; antes, tira-lhes o sono; que não se propõe a enterrar os mortos; antes; quer perpetuá-los; que se nega a limpar as cinzas mas, em troca, procura acender o fogo.

Essa literatura continua e enriquece uma formidável tradição de palavras que lutam. Se é melhor - como cremos - a esperança à nostalgia, talvez essa literatura nascente possa chegar a merecer toda a beleza das forças sociais que mudarão radicalmente o curso de nossa história - mais cedo ou mais tarde, por bem ou por mal. E quem sabe ajude a guardar, para os jovens que virão, "o verdadeiro nome de cada coisa" - como dizia o poeta.

Eduardo Galeano

Doki Doki Literature Club!

Platform: PC
357 Players
61 Check-ins

35
  • Micro picture
    seufi · 10 months ago · 4 pontos

    Exatamente @fonseca...escrever é o chamado, é urgente, e precisamos atender.
    @onai_onai, eu tinha um amigo no 2o grau Extremamente talentoso nos desenhos. Ele desenhava tribais como ninguém... Quanto mais puto, mais chateado, ou mais decepcionado, melhor e mais rebuscado ficava o tribal... Só que ele desenhava, e depois amasava e jogava fora... Colocando pra fora as coisas mesmo...
    @thecriticgames não parece, mas temos mt em comum com Galeano... Aliás com todos os escritores... As palavras têm, poder, tem fome de sair, sede de viver, e se não saem, acabam nos consumindo... Como diria Drummond: "penetra surdamente no reino das palavras... Lá estão os pormas que esperam ser escritos..."
    @fonsaca

    2 replies
  • Micro picture
    thecriticgames · 10 months ago · 3 pontos

    Caraca posso citar vários pontos deste texto pelo qual bate com reflexões minhas.
    "aparece uma mosca que fica zumbindo dentro da cabeça da gente: "vale a pena escrever?"
    Volte e meia bate um desanimo e penso isso, sera que vale a pena investir na escrita, sera que eu, que a gente que escreve em meio a tanta gente ja nesse mercado ja nesse meio vai encontrar seu lugar? Tipo, eu vou encontrar as satisfações pessoas, profissionais e financeiras? Ou irei ser mais uma pessoa a escrever histórias geniais para mim mas desinteressantes e não lidas por outros..

    "A gente escreve para despistar a morte e destruir os fantasmas que nos afligem, por dentro" No meu caso minha vontade de ser ouvido, de ser lembrado e como falei a minha psicologa de deixar um legado, um bom a ser lembrado, e nisso literalmente de despistar a morte, de talvez permanecer vivo neste mundo depois que eu me ir tal qual Tolkien ou Azimov entre tantos nomes fizeram..

    "a arte deveria ser considerada matéria de primeira necessidade e não artigo de luxo. Entretanto, na América Latina, o acesso aos produtos de arte e cultura está vedado à imensa maioria das pessoas." Eu sempre compreendi o ponto do problema existente da arte custar algo e ser paga, mas como bom capitalista que sou sempre compreendi tb um valor monetario na arte, mas é um assunto delicado..

    "A palavra é uma arma que pode ser bem ou mal usada: a culpa do crime nunca é da faca"
    Palavras tem poder, este é meu mantra desde que me aventurei no mundo da escrita tal qual palavras de um mago numa fantasia medieval para invocar magias..

    "Ao se escrever, é possível oferecer o testemunho de nosso tempo e de nossa gente"
    apaixonado por história igualmente como sou por literatura tenho que marcar essa citação, estudando sobre o Japão parei pra ler pedaços de um dos primeiros trabalhos de literatura da história do mundo o "Makamura no Soshi/Livro do Travesseiro" que são relatos da autora na corte ali antes do ano 1000, da pra raciocinar que temos um relato dos dias a dias, o testemunho de mais de 1000 anos atrás de outras pessoas e outra cultura escrita por uma mulher que era gente como a gente, os hábitos daquela época em nossos dedos assim como a água que hoje corre no nosso suor e sangue um dia correu no organismo de outras pessoas e até de dinossauros.

  • Micro picture
    fonsaca · 10 months ago · 2 pontos

    Poxa, valeu por marcar e lembrar!
    Belas palavras do Galeano. Com uma precisão cirúrgica, mas sendo "poético" exemplifica o ostracismo literário da América Latina. Ótimo o chamado dele e, realmente, temos superado um pouco isso graças a bom escritores como o Gabriel García Márquez. A pira é a galera que se interessa por escrever não desanimar do "chamado".

  • Micro picture
    carlosneto · 10 months ago · 2 pontos

    Muito obrigado por me marcar.
    Valeu demais a pena em ter lido.

  • Micro picture
    onai_onai · 10 months ago · 1 ponto

    Obrigado por me marcar, ótimo texto. Eu escrevo vez ou outra mas acabo cedo ou tarde destruindo minhas criações. Um dos objetivos da minha vida é viver da arte, seja da literatura ou do desenho...

    2 replies
Keep reading → Collapse ←
Loading...