2014-07-21 12:38:10 -0300 2014-07-21 12:38:10 -0300
massahiro Felipe Massahiro

A comunidade brasileira nos jogos online

Esse assunto não é qualquer novidade. Jogo jogos online há muitos anos, nasci no servidor da Mystara de Ultima Online, ingressei no Ragnarok Online ainda em alpha no servidor internacional e, durante esse tempo, experimentei uma série de MMOs e atualmente, jogo League of Legends.

Uma coisa que reparei durante todo esse tempo é a evolução – ou degradação – da comunidade brasileira dentro de jogos online. A fama não é uma surpresa para os jogadores que já estiverem em diversos servidores estrangeiros com uma quantidade significante de brasileiros. O famoso “hu3hu3hu3” não é algo exclusivo de League of Legends. Os trolls como são conhecidos, não são exceção para nós, tornando os bons jogadores – e não me refiro a jogadores bons no jogo, mas sim educados – uma exceção a regra.

Escrevo esse artigo não como uma reclamação, mas como uma forma de reflexão a entender o motivo por esse avanço negativo na cultura brasileira de jogos online.

Quando iniciei em Ultima Online, que devo ter jogado por mais de 200 horas na época, não haviam muitos trolls, mesmo porque a mecânica do jogo trazia uma liberdade muito interessante. Ou você podia matar outros players (PKs), defender os players (APKs) ou simplesmente viver a sua vida como quisesse. Isso possibilitou a criação de inúmeros grupos que hora se ajudavam, hora se matavam. Uma guild PK poderia dominar uma cidade com diversos players iniciantes, matando-os e roubando-os constantemente, até que uma guild APK viesse para trazer justiça e libertar a cidade.

Mesmo com uma mecânica livre, a ausência de muitos trolls também pode ser atribuída a outro fator: na década de 90 jogos online não eram uma “febre” como é hoje em dia. O acesso a esses jogos era muito restrito e quem podia ter uma internet conectada a maior parte do tempo por um modem 14k ou 56k era bastante difícil. Não creio que muitos entrariam em jogos hoje para “trollar” sabendo que a conta de telefone chegaria em torno dos 300 reais. E acreditem, na época tive discussões feias com a minha família por causa do uso da linha telefônica.

Já no Ragnarok Online, os brasileiros formaram uma comunidade híbrida. Haviam aqueles que se ajudavam e, inclusive, estrangeiros que pertenciam a grupos de brasileiros que procuravam auxiliar com tudo que podiam. Nesse período eu conheci muitas pessoas que, inclusive, migraram para o servidor nacional quando lançou.

Lembrar desse período é estranho hoje, especialmente quando a fama dos brasileiros mudou tanto. Hoje participo de diversas comunidades estrangeiras de gamers e notei como vem sendo difícil, dentro de jogos MMOs, para um brasileiro ser reconhecido como exceção à regra da falta de respeito tão característico.

Não é de hoje que constantemente me pergunto o motivo para tamanha falta de respeito com outros jogadores. Pensei em diversos motivos, mas alguns deles me chamaram a atenção e todos, ou pelo menos a grande maioria, acaba se voltando ao ambiente externo da realidade brasileira.

O primeiro motivo vejo como a falta de impunidade. Não é uma questão da falta de impunidade interna a um jogo que pode muito bem existir, mas me refiro ao ambiente externo. Vivemos a princípio em um país onde a impunidade é uma realidade constante e não uma exceção a falha de um sistema judiciário.

Intolerância e falta de opinião seriam outros bons motivos para tamanha falta de educação. É simples, se você é comandado por líderes que estão, em sua maioria, indiferentes com a condição dos liderados, porque você deveria se importar com os outros? Se você não consegue o que quer, é melhor literalmente ferrar com a diversão de todos os outros. Esse comportamento prejudica muitos jogos que necessitam de equipe. Vide League of Legends e Dota 2.

Brasileiro busca diversão para si e não diversão para todos. Some aos três motivos anteriores e essa é um excelente novo tópico. Se eu não posso me divertir, ninguém mais pode. É simples, “eu quero prejudicar os outros porque é legal e aqui ninguém pode me prejudicar, qualquer coisa eu crio outro conta.” Não há o sentimento de solidariedade, de conseguir se divertir com os outros. Lembram-se disso aqui: “A bola é minha e se eu tiver que ficar no gol levo ela embora”? Isso expressa bem o que é a comunidade brasileira nos jogos online hoje em dia.

O ambiente externo, ou seja, um ambiente em que a intolerância e realidade, a impunidade um fato constante e os líderes, irresponsáveis pelo bem estar de outros, faz com que o comportamento dentro de um jogo online, onde a princípio é algo livre de qualquer regra, lei ou liderança, o próprio jogador possa fazer aquilo que não consegue em seu cotidiano: ser como seus líderes.

Muitos estudos apontam para os jogos como uma forma de relaxamento, uma fuga da realidade que permite liberdades impossíveis no mundo real. Nada mais verdade, no entanto quando colocamos o universo online as regras sofrem algumas mudanças que não foram acompanhadas por muitos jogadores.

Alguém se lembra do “quem perder passa o controle e quem ganhar mais de 3 vezes seguida também”? Essa regra criada por necessidade gerava conflitos, mas na grande maioria, os amigos se revezavam tranquilamente e se divertiam. Estavam lá, lado a lado para se divertir juntos. A impessoalidade, proporcionada pela internet com estranhos distanciou essas regras “da casa”. Hoje em dia o controle é meu e faço com ele o que quiser (olha a bola aí!).

Eu vejo os jogos online como uma maneira nova de se estudar o crescimento de comunidade. O universo online (sejam em jogos ou mesmo em redes sociais) proporcionam a comunicação e relacionamento entre pessoas de todo o mundo, não apenas no Brasil. E é justamente essa liberdade que acarreta problemas.

O brasileiro não sabe lidar com a liberdade. Não somos uma cultura – aliás, não existe cultura puramente brasileira e isso é muito bom, somos uma miscigenação que aprendeu a conviver uns com os outros em certa escala – com tradição de liberdade. Ainda estamos aprendendo. Perguntem para qualquer especialista de história ou política, o Brasil é um país que ainda engatinha. Por quê? Simples, acabamos de sair de uma ditadura. Mais de 25 anos pode parecer muito tempo, mas não é. Tente mudar a cultura de uma nação tão misturada quanto é o Brasil, e verá que é um processo bastante dispendioso.

A tendência para o amanhã é piorar e muito, até melhorar. Vejam o nosso governo, vejam os nossos chefes, vejam os nossos colegas de serviço. Sempre existirá aquele que se aproveita além da liberdade dada para prejudicar os outros. SEMPRE, mas até que o geral se torne exceção, cabe aos poucos jogadores brasileiros educados a tolerar essa transição que, muito provavelmente, não veremos tão cedo.

Além de tudo, vejo um outro problema, o brasileiro em geral enxerga os jogos apenas como um jogo. Isso é em qualquer lugar do mundo, no entanto quando voltamos o olhar para o mercado de jogos, em especial os jogos online, em muitos países é visto como um esporte não diferente de futebol.

Os eSports estão entrando no Brasil e, nesses últimos anos, vimos essa profissão se consolidando, apesar de grandes preconceitos e falta de incentivo, como o é com qualquer outro esporte tradicional em território nacional. A cultura está mudando a passos rastejantes, mas em direção a uma visão mais séria dessa modalidade. Ao passo que as novas gerações aprendem a lidar com a liberdade, também aprenderão – assim espero – a lidar com a diversão de todos, de que o que é bom para um em um jogo online talvez não seja tanto assim.

Aprender a aceitar os outros em um universo livre, a respeitar e ser o minimamente educado, ainda é uma arte que, apesar de demorar, não é impossível. A chegada dos eSports no Brasil que antes era muito restrito e hoje até a ESPN transmite esses campeonatos, prova que caminhamos para uma direção promissora.

Lentamente, mas estamos aí.

Trolls sempre irão existir, sejam nas fábulas (Hu3Hu3Hu3) ou nos jogos, isso é universal, mas quando eles se tornarem minoria, jogar ao lado de compatriotas em jogos online, será um prazer inestimável e poderemos, aqueles poucos respeitosos, lembrar-nos de uma época onde era enervante jogar em servidores com brasileiros.

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