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manoelnsn Manoel Nogueira

O evil adult dos RPGs


about 3 years ago 2018-08-17

Octopath Traveler

Bravely Default foi um jogo pro 3DS lançado em 2012 e foi um retumbante sucesso, alcançando mais de um milhão de unidades vendidas, mesmo sendo exclusivo de um portátil da Nintendo. O retorno de elementos clássicos da era de ouro dos RPGs japoneses atingiu em cheio a nostalgia de muitos, mas também despertou o interesse de outros, especialmente num estilo que sofre de uma pobreza criativa, como é o caso dos RPGs japoneses. E assim muitos outros jogos foram lançados com essa mesma pegada mais oldschool, como I am Setsuna, Lost Sphear e até mesmo Bravely Second, sua continuação. Contudo, nenhum deles alcançou o mesmo sucesso e destaque que Bravely Default, fazendo muitos pensarem se lançar RPGs assim realmente era o certo a se fazer...

                    Tiz, de Bravely Default, apontando o caminho pra Olberic e Primrose...

Nesse cenário, Octopath Traveler é lançado(pelos mesmos criadores de Bravely Default e Second), e alcança a marca de vendas de seu antecessor em menos de um mês após seu lançamento, surpreendendo e muito as expectativas de todos(inclusive da própria Square Enix, produtora do mesmo). Vale ressaltar que um número de vendas não é diretamente proporcional à qualidade do jogo em si(já que Bravely Second e Lost Sphear são muito bons, e muita coisa que vendeu pra caramba é extremamente questionável em muitos aspectos), porém dá uma boa noção da aceitação que o game teve por parte do público, mesmo sendo chamado de "jogo indie" por alguns...

Arte comemorativa do 1 milhão de unidades vendidas. E o formato da Airy que os personagens estão fazendo não é ao acaso

Com o passar das gerações de videogames e o advento de novas tecnologias que proporcionavam gráficos cada vez mais realistas a criatividade que os desenvolvedores tinham que utilizar para compensar as limitações de hardware dos 8/16 bits foi sendo deixada de lado e hoje temos no mercado vários RPGs japoneses idênticos entre si, seja pela reutilização de elementos narrativos(ambiente escolar, crianças salvando o mundo), elencos previsíveis(garotinhas de olhos enormes com feições infantis, personagens sem atitude, vilões genéricos) ou mesmo gameplays sem identidade própria(com praticamente todos sendo actions RPGs, e o sistema de turnos sendo cada vez mais raro). Octopath traveler então aparece, trazendo não somente um gameplay que traz aquele feeling da era de ouro dos RPGs, como também características bem peculiares pros dias de hoje, que podem não ser suficientes para que os JRPGs alcancem um público alvo maior, mas o suficiente para inovar e trazer algo diferente em um gênero tão saturado nos dias de hoje.

A história do jogo... Ou melhor, AS histórias

Os 8 personagens que o jogador poderá escolher para começar sua aventura

Octopath Traveler dá ao jogador a opção de iniciar a história com qualquer um dos 8 personagens disponíveis, sendo cada um com eventos, personalidade e habilidades distintas dos demais.

Ophilia é a clériga, a unidade especialista em cura que praticamente todo RPG possui(e que quase sempre é a primeira a morrer). Contudo ela também possui a habilidade de "guiar" os NPCs(para quem não sabe, os personagens não jogáveis, e que não são seus inimigos, do jogo), fazendo-os te seguirem e te auxiliarem em combate(com isso sendo muito útil no começo do game, apesar de que o NPC só poderá ser recrutado se seu nível for maior que o dele). Sua jornada tem início com o adoecimento de seu pai adotivo, um Sacerdote de uma igreja(igreja essa de uma religião que adora uma espécie de chama sagrada), o que faz Ophilia sair em uma peregrinação pelo mundo(para levar a chama nos templos em que ela está se esvaindo), para assim libertar sua irmã adotiva, Lianna(esta sim, filha biológica do Sacerdote) dessa responsabilidade, fazendo assim que a mesma possa ficar com o seu pai em sua convalescência.

Cyrus é um estudioso, que usa magias ofensivas em batalha. Também possui a habilidade de ver um ponto fraco do inimigo instantaneamente, além de escrutinar(examinar com precisão) os NPCs, adquirindo informações que podem ajudar em alguma quest, conseguir descontos em dormitórios, ter acesso a novos equipamentos nas lojas ou mesmo localizar itens escondidos(apesar dessa habilidade poder falhar, e se isso acontecer sua reputação na cidade poderá cair). Sua história começa com sua curiosidade acadêmica por certo livro da biblioteca da cidade, livro este que se encontrava desaparecido há anos, e devido a um mal entendido com o seu relacionamento com a princesa(a qual era apenas sua aluna), ele se viu obrigado a sair em jornada, o que lhe ajudou a procurar mais sobre o estranho documento perdido.

Therion é um ladrão e ele possui a habilidade de roubar os NPCs(sendo eles tanto velhos quanto crianças), além de abrir determinados báus que aparecem nos mapas/dungeons. Sua epopeia começa com seu ímpeto de assaltar uma mansão que muitos dizem ser impenetrável, e ao adentrar na mesma se vê encurralado por um hábil mordomo, que coloca em seu pulso um bracelete escrito "fool"(que significa idiota, tolo), e diz que só irá tirá-lo se Therion roubar para sua patroa, uma garota chamada Cordelia, os tesouros da sua família a muito perdidos, as Dragonstones. Para manter sua honra, o ladrão aceita o serviço e parte à procura das pedras e assim fazer o que sabe fazer de melhor.

Olberic é um cavaleiro, e além de ter a habilidade de aumentar sua defesa quando estiver defendendo seus aliados, também pode desafiar NPCs pro combate, ganhando XP com isso. Seu conto é sobre sua jornada à procura de uma razão para utilizar sua espada, já que seu rei, àquele quem jurou proteger, foi assassinado pelo seu melhor amigo e companheiro de batalha. E além disso,decide sair à procura do traidor, após anos de reclusão em uma cidadezinha nas montanhas.

Primrose é uma dançarina, que possui a habilidade de seduzir NPCs e fazê-los lutar ao seu lado(basicamente a mesma da Ophilia, com a diferença de que a dela pode falhar, e fazer a sua reputação na cidade cair, mas possui a vantagem de não ter as limitações de nívelque a clériga possui). Seu conto é o mais trágico de todos(além de ser um dos melhores do game), já que ela teve seu pai assassinado em sua frente quando era criança por um trio de homens mascarados com tatuagens de corvo, fazendo a jovem Primrose jurar vingança, mesmo que isso significasse que ela virasse uma dançarina do ventre para conseguir alcançar seus objetivos.

Alfyn é o apotecário(tipo um farmacêutico antigo), e possui a habilidade única de misturar itens para causar grandes efeitos(a mesma função que a job Save Maker tinha em Bravely Default/Second), além de poder investigar os NPCs, da mesma maneira que Cyrus pode(com a diferença que possui 100% de sucesso, mas tal como Ophilia tem limitações de nível pra isso). Sua história é basicamente uma jornada para sair pelo mundo ajudando o máximo de pessoas que puder, assim como um apotecário desconhecido que salvou sua vida quando era criança. Seu conto acaba sendo um dos mais fracos do game, justamente por ele não ter um objetivo mais direto como a maioria dos personagens.

Tressa é uma mercante, e tal como o nome diz, pode comprar itens únicos de NPCs(tal como Therion pode roubá-los), e além disso pode achar dinheiro no chão a cada nova localidade visitada, sendo bem versátil durante todo o game. Sua história é disparada a pior do jogo, já que é basicamente ela saindo no mundo para comprar/vender o máximo que puder, e com isso conhecer novas pessoas e poder registrar tudo que encontrou no diário de um desconhecido...

E por último temos H'aanit, a caçadora, que além de poder provocar NPCs pra lutar com eles(o mesmo que Olberic, mas que se ela perder, sua reputação poderá cair), também pode capturar monstros e usá-los em batalha por certo número de vezes, sendo uma das personagens mais versáteis do jogo. Sua jornada se inicia quando a caçadora sai de sua pacata cidade no meio da floresta(onde vive com sua tigresa Linde) à procura de seu mestre, que desapareceu quando estava caçando uma fera terrível chamada Redeye.

Primrose, mandando seu mestre, a pessoa para qual ela trabalhava como dançarina ir... Bem, interprete como quiser, hehe

A história de cada personagem é dividida em 4 capítulos, e cada um deles ocorre em uma cidade diferente do mapa. Após escolher seu protagonista, a escolha de ver ou não a história dos outros 7 personagens, tal como de recrutá-los pra sua equipe, fica única e exclusivamente por conta do jogador.

No mapa do jogo ficam exibidas as cidades onde os capítulos da história de cada personagem se localizam, tal como um nível recomendado para passar a mesma sem maiores dificuldades(esse nível recomendado será comentado mais tarde na review)

Square Enix já tinha certa experiência com RPGs com esse tipo de dinâmica, de vários personagens com histórias diferentes se unindo, como foi com Dragon Quest IV, Final Fantasy IV After Years ou Live a Live, por exemplo. Contudo, ao contrário destes, em Octopath, os personagens não interagem entre si diretamente. E por mais que, à primeira vista isso não pareça ser um problema(afinal, a proposta do jogo desde o começo era essa, de 8 histórias diferentes), conforme a jornada vai se desenrolando algo começa a causar certa estranheza pro jogador...

Vilão principal da história da Primrose, o real assassino de seu pai. Se isso não foi uma referência à Kefka de Final Fantasy VI não sei mais o que seria...

Por exemplo, esta cena do final da história da Primrose. A essa altura do campeonato o jogador muito provavelmente terá uma party de 4 personagens(a menos que tenha preferido jogar com um único personagem, o que não é muito aconselhável), porém durante essa cena apenas a Primrose irá aparecer. E isso se repete nos eventos de todos os personagens, onde quando acontece algo relacionado à história de alguém, toda o resto da party some. 

Therion, assim que você chega na cidade onde ele se encontra(caso não tenha escolhido o mesmo no começo do jogo). 

Poder escolher e formar a sua equipe com quem você quiser é muito legal, especialmente tendo à disposição 8 personagens tão distintos. Contudo se não ocorre nenhuma interação direta entre eles isso te dá uma sensação estranha, como se no fim das contas, cada um deles estivesse sozinho enfrentando seus problemas e não se ajudando como um time.

Uma mercante que não conhece a profissão mais antiga do mundo? Que vergonha, Tressa!

Até existem cenas no estilo dos skits de Tales of, onde os personagens interagem e conversam entre si, mas além dos sprites de todos que aparecem nelas ficarem estáticos, elas são... Facultativas. E você pode perdê-las facilmente, se não tiver os personagens certos na party no momento da ativação da mesma(quase sempre no meio da história de alguém). Encaixar esses skits no meio da história seria algo simples, se não fosse por um único problema... O público.

Therion, roubando a roupa de alguém pra se disfarçar. Isso te lembra certo ladr, digo, caçador de tesouros, de certo jogo do SNES?

Um ano antes do seu lançamento, os desenvolvedores de Octopath lançaram uma demo do game e pediram pros jogadores opinarem no que gostariam de ver no jogo final. Isso é uma grande ideia, mas nem sempre o público tem consciência daquilo que quer, e uma das exigências dos jogadores acabou atrapalhando ainda mais a interação entre os personagens, que foi a de pular as cenas das histórias, através de uma opção de skip. Isso funciona em um jogo de polígonos, onde os models dos personagens são renderizados em tempo real facilmente, mas isso não acontece com sprites. Para fazer isso acontecer tiveram que transformar todos os eventos em vídeos, no estilo das CGs famosas na era Playstation. Daí ou era fazer um vídeo pra cada combinação de party possível ou apenas um único onde apenas o protagonista da trama em questão aparecesse. 

H'aanit e seu mestre. O inglês que a caçadora e seu tutor usam pra falar é bem arcaico, o que pode ser difícil para alguns entenderem o que ela está dizendo

Não necessariamente teria de haver um inimigo em comum, mas sim um personagem interferindo, opinando e ajudando diretamente no desenrolar da história do outro. Em The Legend of Heroes Trails in the Sky 3rd acontece algo parecido: no jogo você pode montar a equipe que quiser, contudo em alguns eventos certos personagens são obrigatórios, mas quase sempre seus outros personagens da party opinam e interagem com o que está acontecendo. E isso em um jogo de 2007! Como você não percebeu isso, Square?

E no fim das contas, como se saem as histórias de cada um? Bem...

Ophilia, após a morte do seu pai adotivo, é traída por sua irmã Lianna que rouba a chama sagrada que ela carregava na peregrinação na esperança de trazer o seu progenitor de volta a vida, pois havia sido enganada por um herege da igreja. No fim Ophilia mostra pra Lianna que tentar reviver os mortos é impossível(yeah, sem ressurreições mágicas convenientes pro plot!), botando juízo na cabeça da moleca e tudo terminando bem. Sua história poderia ter sido melhor explorada, mas até que não ficou das piores.

Cyrus descobre que o livro que investigava tinha artes ocultas que usavam sangue humano e transformavam pessoas em monstros deformados poderosos, então após muitos percalços consegue recuperar o livro e decide deixá-lo aberto ao público mesmo assim para que seu conhecimento possa ser usado em prol das gerações futuras... Além de continuar um tapado que não percebe que uma de suas alunas está cheia de amor pra dar pra ele. Sua história sempre manteve o ar investigativo, encaixando bem com o personagem.

Therion, na sua busca pelas Dragonstones, reencontra um antigo companheiro de roubo que lhe traiu no passado e o fez deixar de confiar nas pessoas. Mas dá uns catiripapos nele, devolve as pedras pra Cordelia, que por ter uma alta confiança nele, o faz repensar em acreditar nas pessoas. Seu rival/antigo amigo era só um idiota e foi meio escroto ele ficar emburrado todo esse tempo só por causa disso, mas ok.

Olberic encontra o traidor que matou seu Rei, mas vê que o cara tinha N motivos pra fazê-lo, além de ter um enorme remorso desde então e estar passando a vida ajudando alguma cidade que precise. Com isso o cavaleiro perdoa o cara, mas como a história dele não podia ficar sem um embate final, parte pra quebrar a cara daquele que arquitetou tudo aquilo e usou seu amigo pra seus objetivos. E após chutar o traseiro do caboclo, volta pra vila que estava no começo do jogo. Apesar do boss final ser quase um Necron, a história dele até que terminou bem.

Primrose acha cada um que matou seu pai, mas o último era na verdade o rapaz que ela gostava quando pequena. Mas mesmo assim ela mata o cara, e finalmente parte pra visitar o túmulo de seu pai, e mesmo não tendo mais nenhum objetivo na vida agora, diz pra si mesma que seguirá dançando até encontrar algo. Esse mastermind da história da Prim era outro maluco, mas ao menos ela completou sua vingança, fazendo sua história ainda ser a melhor do jogo.

Alfyn em sua jornada curando as pessoas por onde passava se depara com um apotecário que se recusa a curar assassinos, incluindo ele próprio(já que ele matou sem dó o assassino de sua própria esposa que ele mesmo tinha curado antes), o que faz Alfyn repensar nos seus conceitos(especialmente quando o mesmo cura um assassino que quase mata uma criança da vila onde estava)... Mas no fim acaba salvando o colega de profissão, dizendo que "apotecários não são deuses pra decidir quem vai morrer ou não". Alfyn tem a segunda pior história do jogo, já que ela nunca teve um objetivo em mente, sempre foi muito vaga e no fim ele não aprendeu praticamente nada de novo...

Tressa... Bem... Saiu pelo mundo pra conhecer pessoas e fazer dinheiro, além de escrever em um diário de outra pessoa todas as suas aventuras... E no fim detona uma mulher que rouba seu diário e depois vende o mesmo pra uma moleca rica que não pode viajar porque é fraca de saúde. Sério. Ela fica o raio da história inteira babando ovo pro diário de algum maluco e depois dá ele pra uma morimbunda qualquer e ainda NEM ACEITA A FORTUNA QUE O PAI DA MESMA QUERIA LHE DAR, QUE MERCANTE É VOCÊ, TRESSA? Esse desenrolar vergonhoso, e o fato dela agir e ter a aparência de criança mesmo tendo 18 anos, fazem desta a pior história do game. E da Tressa a pior personagem do mesmo.

E H'aanit, que encontrar seu mestre petrificado pela besta que estava caçando e depois de muito vagar, descobre que a única maneira de fazê-lo voltar ao normal é derrotando o monstro que derrotou seu mestre, a besta Redeye. Portando umas poções feitas por uma velha louca que impediam petrificação, a caçadora derrota a criatura, recupera seu mestre e tudo termina ok.

As histórias dos personagens são bem diferentes, e algumas são obviamente bem superiores à de outros. Isso poderia ter sido balanceado se eles interagissem melhor entre si(Por exemplo o Therion ou a Primrose na história da Tressa não deixariam ela tão boring quanto é), mas infelizmente não foi o caso e o storytelling de Octopath acaba não aproveitando o potencial que tem, mas felizmente o jogo tem algo que compense esse problema de certa forma. O gameplay.

E falando em gameplay...

O sistema de batalha que parece ser antigo, mas não é tanto assim...

Octopath é um RPG de turnos clássico, cuja ordem dos ataques é definida pela velocidade. Mas o classicismo do sistema de combate dele para por aí, já que o resto da mecânica funciona de modo bem similar ao que era em Bravely Default/Second, com o uso de BPs(Battle points). Porém aqui não é necessário defender pra poder acumulá-los, pois a cada turno que você não os usa(mesmo se fizer uma ação normalmente), ganhará 1 BP extra. Caso o jogador defenda ele irá ter sua ação no próximo turno adiantada(e a ordem do turno seguinte pode ser vista no canto superior central da tela).

Aqui, os BPs só te fazem ter mais de uma ação no turno se você usá-los no comando attack(que é o ataque normal). Em alguma skill diferente eles aumentam o dano do golpe consideravelmente, e como os inimigos do jogo tendem a ter uma boa quantidade de HP desde o começo, isso é essencial pra ser bem sucedido no game.

Mas não para por aí. Para conseguir triunfar em Octopath Traveler, além de fazer um bom uso do sistema de BPs, o jogador precisará quebrar as defesas do seu oponente para conseguir causar um dano considerável. Cada inimigo do jogo tem um certo número de fraquezas(que podem ser ataques de determinada arma ou alguma magia) e apenas atingindo o mesmo nelas que o escudo deste será quebrado. Inimigos normais tendem a ter um escudo pequeno(variando de 1 a 5 hits pra quebrar), enquanto bosses possuem bem mais do que isso, podendo chegar a 10 ou mais!

Com as defesas quebradas, o inimigo não irá atacar no próximo turno e isso te permitirá causar um alto dano nele. Lembrando que isso por si só não quebra o jogo, já que, como já foi dito, os adversários tendem a ter alto HP(justamente pelo sistema de batalha ser feito dessa forma), fazendo as batalhas serem relativamente demoradas, especialmente contra bosses.

Um detalhe interessante das jobs é que o sprite do personagem muda e fica com a aparência relativa à sua personalidade. Primrose por exemplo, sempre fica com roupas mais à vontade, enquanto Ophilia sempre está vestida até o pescoço, hauhua

Cada personagem possui uma job(ou classe) fixa e nada pode mudá-la. Porém, além desta, também podem ser equipados em cada um uma job secundária. Existem 8 jobs normais(Dancer, Cleric,Scholar, Warrior, Merchant, Apothecary, Thief e Hunter) sendo as jobs padrão de cada um dos personagens) e 4 secretas(Warmaster, Sorcerer, Starseer e Runelord), totalizando 12, menos da metade que as disponíveis em Bravely Second, por exemplo. 

Porém, apesar do sistema de jobs móveis sempre transformar personagens em máquinas de matar sem identidade própria, Octopath traveler consegue controlar isso limitando esse sistema, já que cada job só poderá ser usada por um personagem a cada vez(por exemplo, se Cyrus estiver com a job cleric Tressa não poderá usá-la), e além disso cada um dos 8 aventureiros ainda mantêm a sua individualidade.

Com o sistema de jobs secundárias, qualquer um poderá ser um Apothecary, mas apenas Alfyn poderá usar a habilidade Conoct, que o permite misturar itens pra poder curar ou atacar os inimigos. Cada personagem possui uma habilidade única, chamada de Talent

Além disso também existem as Support Skills, e essas sim, podem ser usadas por qualquer um, tal como eram nos Bravelys. Cada personagem poderá equipar 4 delas e cada job dará acesso a habilidades diferentes, e várias combinações, cada uma mais específica pra determinado tipo de estratégia.

Cada job exigirá um certo número de Job points, para que as habilidades(tanto de batalha quanto de suporte) sejam usadas e estes pontos são ganhos juntamente com o XP e dinheiro no final de cada batalha. Normalmente maximizar jobs é uma tarefa monótona e demorada, mas em Octopath ela é relativamente rápida, já que uma boa quantidade de JP é adquirida no final de cada batalha.

         Winnehild, defensora da job Warmaster. Esses braços dela não são apenas enfeite...

As jobs estão localizadas em shrines espalhados pelo mapa, e basta entrar neles e pegar a job... Exceto quando o assunto são as jobs secretas(Warmaster, Starseer e Runelord), já que elas estão guardadas por bosses com toneladas de HP(em torno de 170000), e que após determinado número de turnos, começam a atacar várias vezes e te derrotam miseravelmente. Todo esse empecilho tem uma razão: as secret jobs são extremamente quebradas! Todas elas possuem habilidades bem poderosas(tanto de ataque quanto de suporte) e após conseguí-las, o jogo fica bem mais fácil. E esse é o único problema real de Octopath, já que mesmo os final bosses de cada capítulo, não aguentam o tranco proporcionado por essas jobs por muito tempo...

Redeye, final boss da história da H'aanit. Esse mal tem tempo de te fazer alguma coisa, ainda mais por ter bem menos HP do que os guaridões das secret jobs...

Hoje em dia não seria difícil fazer um sistema no estilo de FF8, onde os inimigos subissem de nível à medida que você conseguisse mais jobs. Entendo que não fizeram isso pra não assustar algum jogador novo(já que mesmo com a baixa dificuldade de Octopath, ainda tiveram muitos que reclamaram de grind aqui), mas ao menos um modo de dificuldade no começo não seria nada mal... O sistema de jobs secundárias acaba não sendo algo tão desregrado como era com os Bravelys por exemplo, mas se ele não existisse e o jogador só tivesse que montar suas estratégias com as classes fixas de cada personagem(tendo no máximo alguma promoção) seria bem melhor.

Cada personagem possui uma Path Action, uma habilidade que fará o mesmo interagir com NPCs e obter alguma coisa deles. Dos 8 personagens, 4 deles possuem habilidades que são 100% precisas, mas possuem limitações(Ophilia, Olberic, Alfyn e Tressa) e os outros 4 têm habilidades que podem falhar, mas que não possuem limitações(Primrose, H'aanit, Cyrus e Therion), e quando estas falham várias vezes, a reputação da cidade cai e uma boa quantia de dinheiro precisará ser gasta pra voltá-la ao normal, caso contrário não será mais possível interagir com os NPCs daquele lugar.

Além dos path actions, os NPCs também poderão te dar sidequests. Muitas vezes, pra se conseguir completá-la o personagem precisará usar determinada habilidade do personagem pra conseguir um item ou derrotar outro NPC, ou mesmo completar alguma dungeon. Após se terminar as 8 histórias dos personagens, algumas sidequests extras vão aparecendo no mapa e após completar algumas delas, uma nova dungeon é liberada, Gate of Finis, e nela o jogador pode enfrentar um boss rush de 8 bosses anteriormente enfrentados no game(só que com mais HP) e um boss gigantesco de duas partes, onde cada uma delas precisará ser enfrentada com uma equipe diferente: Galdera!

Galdera e Gate of Finis são mencionados durante todo o jogo. E no decorrer da dungeon vários textos podem ser lidos, mostrando o relato de vários personagens relacionados nas histórias dos protagonistas. Por exemplo, Redeye, a besta caçada por H'aanit, é na verdade o apotecário que salvou a vida de Alfyn quando ele era pequeno, além de ser ele o dono do diário que Tressa escreve.

Contudo, não se engane: Galdera não é a fusão da história dos 8 personagens e um vilão em comum. Ele é apenas um boss extra, que possui algumas curiosidades e ligações indiretas com cada um dos personagens, tanto que na sua dungeon não existe nem ao menos uma interação entre os personagens, nem mesmo àquelas na forma de diálogos separados a la Tales of. Cada um dos 8 viajantes possui objetivos bem específicos em suas jornadas, e nenhum deles tinha a motivação de salvar o mundo de algum capetão aprisionado em um portal. Galdera termina sendo mais um desafio extra(assim como era com Adventurer nos Bravelys) do que sendo um perigo que interligue todo o cast.

Graficamente, Octopath é lindo. Tudo no jogo é feito de sprites(exceto por alguns efeitos, como magias e água) e os cenários parecem dioramas, com sprites se sobrepondo, isso com efeitos de luz e sombra. Infelizmente não existem ciclos de dia e noite aqui como tinham nos Bravelys, seria muito interessante ver esse tipo de coisa no game... Tanto nas cidades quanto nas dungeons existe um minimap no canto inferior direito da tela, e nele podem ser localizadas coisas como save points(também tem a opção de autosave, que ocorre após o jogador alcançar novas áreas), cidades, objetivos de quests/sidequests e por aí vai.

Não existe airship também, tal como não é possível navegar. Portanto a única maneira de viajar entre uma cidade e outra é a pé ou através do teletransporte instantâneo que pode ser feito abrindo o mapa e escolhendo uma localidade que você já tenha visitado anteriormente, o que é uma pena. Também não existe overworld naquele estilo clássico de mapa aberto extremamente comum nos 16 bits

Apesar de muito bonitas, as dungeons são basicamente corredores lineares, com um save e um boss no final. Os Bravelys sofriam do mesmo problema, infelizmente.

As batalhas são randômicas, mas possuem uma taxa de encontros relativamente baixa(é possível correr segurando o botão B, mas com isso as batalhas serão travadas com mais frequência). A cada área ou dungeon alcançada, existe um nível recomendado de exploração(que serve pra ajudar aos jogadores mais iniciantes, dizendo que ir por ali pode e vai significar um game over se você estiver muito abaixo do recomendado), e o mesmo vale pros capítulos dos personagens. 

Aao chegar na cidade de determinado capítulo ele não começa de imediato e você pode completá-lo na hora que quiser

Um detalhe interessante é que os capítulos de todos possuem um nível recomendado parecido, fazendo ser mais fácil terminar os capítulos de todos em sequência do que seguir a história de um sozinho(como se o jogo estivesse dizendo: "pode viajar sozinho se quiser, mas será bem mais fácil se tiver companhia").

Os sprites dos inimigos e dos bosses são bem maiores que os dos personagens, dando uma sensação de desafio ainda maior, tal como era nos final fantasy clásssicos. Um detalhe ausente no game que teria sido interessante se tivesse sido adicionado(tal como o sistema de dia e noite) seriam alguns movimentos que os sprites dos bosses poderiam fazer, quando fossem executar algum movimento especial(como o Odin fazia nos remakes de FFIV pra PSP).

Tal como os gráficos, a trilha sonora é espetacular. Se Bravely Default já tinha músicas com níveis de grandeza(os quais infelizmente Bravely Second não seguiu), Octopath Traveler é quase uma sinfonia dos deuses. Todas as músicas são orquestradas e existem vários temas diferentes(como 3 temas de batalhas comuns, um tema próprio pra cada personagem, temas pras batalhas dos bosses e por aí vai), compondo uma obra não só prazerosa de se ver, como também de se ouvir. E falando em ouvir, os personagens também possuem voice action, que é excelente no original japonês, e um tanto estranho no americano.

Conclusão...

Se Final Fantasy VII não tivesse sido o sucesso que foi e os JRPGs tivessem continuado o caminho dos sprites sem dúvidas o resultado, mais cedo ou mais tarde, seria Octopath Traveler. Com a facilidade e praticidade dos models em 3 dimensões, uma obra como esta que foi produzida por uma empresa grande, tendo todo um trabalho de arte próprio e uma boa recepção por parte do público era uma variável um tanto improvável de acontecer... 

Mas graças ao caminho traçado por Bravely Default e seus "derivados" essa improbabilidade se tornou realidade, fazendo Octopath Traveler acontecer. Claro que o jogo está longe de ser perfeito e de abordar tudo de melhor que o gênero JRPG tinha nos 16 bits, contudo é um excelente começo... E só nos resta esperar que jogos ainda melhores que este venham e quem sabe, um dia, os role playing games nipônicos deixem de ser motivo de piada e voltem a ter a criatividade e o diferencial de outrora.

7.0 7.0 10
Overall
9.0 Gameplay
7.0 Story
10 Music
10 Graphics
Histórias não-lineares
Personagens jogáveis bem característicos e variados
Trilha sonora e gráficos em pixel art espetaculares
Sistema de combate melhorado de Bravely Default/Second
Boss extra desafiador
Após se adquirir as jobs secretas, tudo no jogo se torna seu saco de pancadas, praticamente
Dungeons lineares
Interação quase inexistente entre os personagens
Overworld inexistente

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