2021-02-17 14:45:50 -0200 2021-02-17 14:45:50 -0200
felipe_turesso Felipe Turesso

Analisando os mistérios de Journey

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Certamente Journey é um jogo lindo, simples, cheio de emoções e interpretações. Conforme o game avança, o jogador descobre cada vez mais coisas que são a principal fonte de conhecimentos sobre este mundo aparentemente pós-apocalíptico. Estas coisas são “visões” que o jogador obtém ao completar as fases do jogo, sendo necessário interpretá-las para encontrar uma possível conclusão. Dito isto, pensamentos e conclusões divergentes claramente podem existir.

Primeiramente, percebe-se que ocorreu alguma coisa neste mundo que ocasionou no fim de uma civilização, haja vista os inúmeros edifícios parcialmente destruídos e outros locais abandonados. Além disto, existem pedras no chão nas quais contêm símbolos, podendo ser interpretadas como lápides. Sendo assim, muitas pessoas foram mortas por alguém ou morrerem por causas naturais? Difícil afirmar em um primeiro momento. Ressalta-se a existência de panos vermelhos que possuem uma espécie de magia ou energia capaz de levitar o personagem e fazer outras coisas. Por alguma razão, estes panos ou tecidos executam suas ações com os sons emitidos pelo personagem, aliás, muitas coisas reagem aos sons ou pela fala do personagem do game

O protagonista explorará diversos locais em que esta civilização existiu, sendo possível deduzir como viviam, as finalidades das construções e descobrir desenhos que explicam outras questões.

Identifica-se que, ao final de cada fase, existe uma espécie de altar e pedras que reagem aos sons emitidos pelo protagonista. Estas pedras possuem runas nas quais contêm uma energia que dá acesso às visões que o jogador assiste para desvendar os mistérios deste mundo. Nestas visões, percebe-se que há uma pessoa ou um ser que efetivamente transfere ao protagonista as visões ou ensinamentos.

Ante a primeira visão, interpreta-se que no início de tudo já existia a montanha na qual é o objetivo final do jogo. Ela possui uma espécie de energia que deu gênese aos animais, as plantas, as árvores, o ar, as almas, as pessoas e os tecidos vermelhos. Por alguma razão, as pessoas que viviam neste mundo usavam vestes brancas.

A segunda visão demonstra que as pessoas começaram a construir edifícios e passaram a utilizar os tecidos vermelhos para gerar energia como uma espécie de recurso natural. A civilização destas pessoas cresceu cada vez mais e, aparentemente, tornou-se próspera.

Por alguma razão, os tecidos vermelhos desapareceram e se tornaram escassos. Isto gerou conflitos e guerra entre as pessoas e provavelmente foi neste momento que iniciou a destruição gradativa desta civilização. A quarta visão apresenta que várias pessoas morreram devido a guerra e, aos poucos, as areias do deserto enterraram os edifícios desta sociedade.

Depois de um tempo, uma pessoa com vestes vermelhas surge. Obviamente ela é o protagonista do game. Não existem esclarecimentos sobre a razão de seu surgimento. Neste momento ocorre uma “cisão” no enredo, pois toda a estória por trás deste mundo pós-apocalíptico está esclarecida, contudo, resta saber qual a missão do protagonista.

Seu surgimento seria uma espécie de profecia? Alguém que virá para libertar os tecidos vermelhos que estão aprisionados em alguns locais e aprender mais sobre este mundo? E os jogadores que eventualmente são encontrados? Trata-se apenas de uma questão de jogabilidade ou vários seres foram criados para libertar os tecidos vermelhos? Será que é preciso que os tecidos retornem para a montanha? Qual o motivo? Existe uma imagem que pode ser encontrada durante o jogo que demonstra as pessoas com vestes brancas retornando à montanha.

Além do fato do ser que sempre aparece para o protagonista ao final de cada fase utilizar vestes brancas, no final do game também surgem mais seres com as mesmas roupas. Sendo assim, esta imagem representa os seres que sobreviveram ao caos da guerra e decidiram retornar para seu criador, portanto, a montanha? Seria a montanha uma espécie de divindade? A montanha seria uma força metafísica que deu gênese a este mundo? Tantas perguntas sem resposta.

O protagonista deve enfrentar o desafio final ao subir a montanha. Parece que seu destino já estava definido. Toda a sua jornada aparenta ser uma profecia, mas sem uma resposta clara. De qualquer forma, o final de sua jornada é tão intenso que ele acaba falecendo, porém os seres com roupas brancas o ajudam. Depois de uma longa jornada com altos e baixos, sua recompensa é enfim concedida, ou seja, o protagonista está em uma espécie de paraíso. A música do momento e as cores vivas demonstram uma alegria tão intensa e sensação de conforto nas quais são indescritíveis. É um local com tanta harmonia e paz. Realmente aparenta ser um paraíso.

Eventualmente o jogador adentra na luz da montanha. Seria um encontro com a divindade que criou este mundo? O que é esta luz? Qual o propósito de se juntar à esta luz? De qualquer maneira, o protagonista se transforma em uma espécie de estrela cadente e retorna para o início do jogo para começar uma nova jornada, mas... Por quê?

Certamente Journey é um game com várias interpretações que podem ser desmistificadas de várias formas, todavia por meio da religiosidade é uma forma extremamente interessante.

Analisando o espiritismo, existem conceitos e questões sobre o espírito, reencarnação, Deus, a origem do universo, dentre outras coisas.

O objetivo de uma pessoa é a busca pela constante evolução, portanto, “a ampliação de sua consciência através da aquisição de conhecimentos”. Com isto e ao longo de sua vida, a pessoa amplia sua “percepção e compreensão da natureza, das coisas, das pessoas, de si mesmo, do Cosmo, da estruturação inteligente do Universo e, em consequência, o seu entendimento de Deus”.

Sob esta perspectiva, o protagonista de Journey surge neste mundo para aprender tudo que aconteceu, portanto, sobre a origem deste universo, o nascimento desta civilização, o quanto prosperaram, seus conflitos e sua inevitável autodestruição. O personagem adquire conhecimento sobre as coisas, pessoas e o local por meio dos glifos, visões dos seres com vestes brancas e a exploração do ambiente.

Sendo assim, o protagonista obtém este conhecimento e evolui, tornar-se um ser cada vez mais elevado, um ser mais compreensivo, um ser cada vez mais evoluído. Isto é muito interessante, pois além dos glifos que contêm a estória deste lugar, existem símbolos luminosos que funcionam como os coletáveis do game. Além disto, conforme o jogador joga várias vezes o game, detalhes na roupa do protagonista surgem.

É como se o personagem estivesse várias vezes aprendendo cada vez mais sobre o mundo ao jogar novamente e coletar os símbolos luminosos que, após obter todos, lhe concederão vestes brancas similares ao do ser que aparece nas visões no qual pode ser uma espécie de espírito que guia o protagonista. Aliás, depois de pegar todos os referidos símbolos, o jogador desbloqueia um troféu com o título “Transcendência”. De outro modo, o protagonista se torna algo superior, algo que ultrapassa o comum, ele se eleva.

A resposta para o jogador retornar ao início do jogo após concretizá-lo pode ser a ideia de reencarnação no espiritismo:

"Reencarnação é o processo pelo qual o espírito, estruturando um corpo físico, retorna, periodicamente, ao polissistema material. Esse processo tem como objetivo, ao propiciar vivência de conhecimentos, auxiliar o espírito reencarnante a evoluir".

Dito isto, depois que o protagonista finaliza sua jornada, ele desencarna e se une à montanha para reencarnar para que possa continuar a evoluir. É possível observar que outras estrelas cadentes surgem no céu durante a jornada. Seriam espíritos que reencarnaram? Realmente é algo lógico, afinal a montanha pode ser definida como Deus, porém o que é Deus para o espiritismo?

Allan Kardec, o codificador do espiritismo, estabelece no Livro dos Espíritos que “Deus é a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas”. Ainda, para o espiritismo:

"Deus não se relaciona ao mágico, ao místico, ao divinal, ao sacro, ao infinito, ao absoluto. Deus não é matéria, nem energia. Ele não tem uma forma definida. Deus não está restrito a uma pessoa, por mais evoluída que seja, como Jesus. Deus não está no céu. Ele está nos seres mas não se confunde com eles; está nas coisas mas não se confunde com elas".

Outrossim, a montanha dá gênese a tudo que existe neste mundo. Allan Kardec dita que Deus criou o universo por sua vontade. A melhor representação disto está na Bíblia Sagrada, mais precisamente no livro gênesis: “E disse Deus: Haja a luz; e houve luz”. No game, mostra-se a montanha criando animais, plantas e os seres. Antes disto, possivelmente a montanha criou o universo e o planeta. Tudo que existe neste mundo do Journey é oriundo da vontade da montanha, ou seja, de sua fala.

Allan Kardec esclarece que no começo tudo era caótico, pois os elementos estavam em confusão. Aos poucos as coisas foram se organizando para que seres vivos pudessem viver no planeta Terra.

Talvez o glifo que contém a imagem dos seres com vestes brancas retornando para a montanha demonstre que eles evoluíram a tal ponto que não reencarnam mais. Reencarnaram tantas vezes e aprenderam tanto que agora são seres evoluídos. Aparentemente as vestes brancas representam a evolução máxima que alguém pode alcançar, embora estes seres tenham surgido no início do mundo com roupas brancas e, obviamente, aniquilaram-se. Talvez estivessem muito próximos de alcançar a perfeição, quem sabe.

E quanto aos outros jogadores que eventualmente são encontrados ao longo da jornada? Possivelmente são pessoas, portanto, espíritos, que possuem o mesmo propósito: evoluir. Allan Kardec afirma que a criação dos espíritos é permanente, ou seja, Deus não parou de criá-los. Os espíritos surgem da vontade de Deus, afinal ele os cria tal qual cria outras criaturas. Apesar disto, a origem dos espíritos é um mistério.

Deste modo, o aparecimento do protagonista não é resultado de uma profecia, como se ele fosse um messias. Aparentemente a montanha cria estes seres para que possam evoluir até que se tornem tão evoluídos e não precisem mais reencarnar.

E quanto aos panos vermelhos? Seriam eles uma espécie de espírito? É possível. Talvez espíritos que deveriam guiar os seres. Vislumbra-se que os panos vermelhos possuem uma inteligência e foram usados para coisas boas e coisas ruins. Possivelmente foram embora, pois perceberam que sua presença acarretaria em mais caos do que harmonia. Provavelmente sua intenção inicial era ajudar ou guiar os seres para que conhecessem a existência da montanha.

Além disto, suas habilidades de levitar e realizar outras coisas são executadas por sons, portanto, será que os panos possuem uma habilidade similar à montanha? Os panos executam suas habilidades por sua vontade? Seriam orações ou preces? Allan Kardec afirma que a prece é um ato de adoração e aproxima a pessoa de Deus. É possível propor três coisas em uma prece: louvar, pedir e agradecer.

Os sons emitidos seriam preces pedindo ajuda? As runas que estão escritas nos tecidos, lápides e altares são uma personificação ou extensão da vontade da montanha? Se as palavras que estão escritas forem proferidas, elas simplesmente executam o que está escrito? Certamente é algo lógico, posto que que os sons ou falas do personagem são necessários para se comunicar e executar as habilidades dos tecidos vermelhos.

De qualquer forma, além do enredo do jogo e as interpretações aqui realizadas, vislumbra-se que Journey é uma metáfora da jornada da vida e os desafios que precisam ser superados. Enfrentar as adversidades que existem ao longo de nossa vida, nossa jornada. Assim que uma jornada é concluída, outra se inicia, afinal nossa vida é composta por diversas jornadas com desafios cada vez mais complexos.

Talvez não existam respostas objetivas para Journey. Trata-se de um jogo que possui tantos sentimentos e interpretações tão diversas e ambíguas que resultam em conclusões subjetivas. De qualquer forma, esta é a graça. Isto é o que torna este jogo tão incrível e deslumbrante.

Com base nas interpretações envolvendo o espiritismo, o que realmente importa é o que aprendemos e como evoluímos para nos tornarmos cada vez melhores. Talvez uma forma de compreender melhor isto é por meio das palavras do sr. Data, personagem da série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração no episódio 16, “Descendência”, da 3ª Temporada desta série: “O esforço em si é mais importante. Nós devemos nos esforçar para sermos mais do que somos. Não importa que não atinjamos nossa maior meta. O esforço gera sua própria recompensa”.

Por fim, existe uma frase que é atribuída ao Allan Kardec, mas aparentemente não é de sua autoria, e que possivelmente esclarece a ideia por trás da jogabilidade e o enredo de Journey: “Nascer, viver, morrer, renascer de novo e progredir continuamente até que se tenha chegado aos limites da perfeição”.

Referências:

Dicionário Priberam. Transcender. Visto em 05/02/2021. Disponível em <https://dicionario.priberam.org/transcender>.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 46ª edição, São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 1989. - p. 45, 56, 57, 71 e 268.

Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas. Deus. Visto em 04/02/2021. Disponível em <https://www.sbee.org.br/ceag/deus/>.

Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas. Reencarnação. Visto em 04/02/2021. Disponível em <https://www.sbee.org.br/reencarnacao/>.

Journey

Platform: Playstation 4
965 Players
102 Check-ins

26
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    hyuga · 5 months ago · 2 pontos

    marcado para ler depois

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    lordsearj · 5 months ago · 2 pontos

    Eu achei esse jogo sensacional.

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    bobramber · 5 months ago · 2 pontos

    Rapaz, esse analisou profundamente (não cheguei a ler), mas me emocionei jogando Journey.

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    andre_andricopoulos · 5 months ago · 2 pontos

    Muito bom. Até republiquei ❤️

    Foi exatamente esse meu pensamento ao jogar JOURNEY e, por isso, gostei tanto do game. Não tem ação, não tem longevidade ou algo replay...mas me fez refletir. Então realmente vejo JOURNEY assim:

    "vislumbra-se que Journey é uma metáfora da jornada da vida e os desafios que precisam ser superados. "👌🏻👏🏻💪🏻❤️🤗

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