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mscampos MSCampos

A fábula de Allejo

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Texto escrito originalmente em 2014

Atenção: Qualquer semelhança com os fatos ocorridos recentemente é mera coincidência. Afinal, meu trauma pessoal com uma seleção alemã já tem mais 15 anos.

Sempre que possível, gosto de dizer que sou um realista, do tipo que não acredita em filosofias positivistas e tenta sempre estar preparado para que algo dê errado. Porém, há uma certa tendência nos outros em confundir isso com pessimismo.

Tenho convicção de que ser pessimista ou realista sejam ideologias deveras distintas. Nunca desejo fracassar ou torcer pelo infortúnio próprio - apenas não descarto a possibilidade de que a vida nem sempre está a meu favor. Até compreendo que os mais otimistas considerem tal perspectiva um tanto quanto negativa, mas, para mim, há uma diferença muito grande.

Independentemente dos ismos que lhe agradem, vamos a um fato: se você teve um Super Nintendo em algum momento de sua vida, é muito provável que o nome International Superstar Soccer lhe traga algumas lembranças. Com uma jogabilidade ímpar, gráficos de primeira e uma boa dose de lances absurdos (e sensacionais), o título da Konami virou uma verdadeira febre entre jogadores de todas as idades, fãs de futebol ou não. Não à toa, seu legado permanece até hoje, e a internet segue imortalizando seu maior representante, o mito Allejo, das mais variadas e criativas formas.

É fato também que todo jogo de videogame possui seus macetes, manhas e os mais diversos tipos de apelações. A crescente repercussão de grupos especializados em zerar jogos no menor intervalo de tempo possível é uma prova disso. Em International Superstar Soccer, jogar com o time de Allejo era, por si só, uma apelação - termo que, em seu mais puro significado gamístico, remete às formas mais baixas e desonrosas de se vencer um adversário.

Mas, quando se trata de um campeonato de videogame, a honra sempre fica em terceiro plano. Ainda moleque, frequentador assíduo das quase extintas locadoras que disponibilizam o acesso aos mais variados consoles por uma quantia modesta, aderi à febre. Mesmo tendo um SNES em casa, jogar contra a máquina (ou computador, como preferir) nunca era a mesma coisa. Não tenho intenção de discutir se é algo saudável ou não, mas definitivamente há um estranho prazer em vencer oponentes reais em uma partida de videogame. É um misto de euforia, alívio e completude, normalmente extravasado em forma de humilhação pública do adversário derrotado - exatamente como deve ser em uma atividade realizada entre amigos.

Pois bem, ao campeonato. O dono da locadora em que eu passava boa parte do meu tempo resolveu organizar um torneio de International Superstar Soccer, o qual atraiu rapidamente um grande número de participantes. Não lembro qual era o prêmio; lembro apenas que a vontade de ganhar era grande. Assim, passei a gastar horas dos meus despreocupados dias me preparando para a disputa, treinando e tentando aprender todas as melhores táticas possíveis no jogo.

Nisso tudo, surgiram inúmeros gols de bicicleta, ou então com bolas que passavam magicamente entre as mãos do goleiro; tinha também os dribles que desafiavam as leis da física, assim como os hilários chutes que faziam curvas milagrosas. De qualquer forma, eu sentia que, cada vez mais, estava preparado para o tal campeonato. Quanto mais a data se aproximava, mais confiante eu estava - mesmo que não vencesse, ao menos daria trabalho para muita gente.

Chegado o dia, encontrei a locadora cheia como nunca antes. Diversos jogadores conversando empolgadamente sobre o evento, boa parte deles figuras conhecidas do local, outros nem tanto. Logo começaram os boatos e discussões sobre os favoritos, e o ambiente já tinha um ar completamente novo, repleto de nervosismo e expectativa. Pouco depois, iniciaram-se as partidas. Alguns começaram a confirmar seu favoritismo, mas uma surpresa ou outra ocorria ocasionalmente. Quanto a mim, mantive-me confiante ao assistir aos outros jogos, principalmente porque controlaria o Brasil, e venci com certa facilidade minha primeira partida. O placar exato ficou para trás, mas, definitivamente, foi um boa vitória.

Seguem os jogos, até que meu próximo desafio estava prestes a se iniciar. Para meu pesar, encontrei logo no segundo jogo um dos favoritos; cumprimentei-o com um sorriso nervoso, e ele, com uma calma irritante, fez o mesmo. A partida começou equilibrada, mas isso logo mudou. Mais do que eu, meu adversário mostrou a que veio. Em poucos minutos, Allejo e companhia perderam toda a sua glória. A Alemanha, com seu maldito meio-campista que insistia em fazer gols lá do meio do campo, venceu o Brasil por 17 a 4.

Sim, 17 a 4. Tanto preparo para nada. Tanto treino para nada. Logo no segundo desafio, não fui apenas derrotado, mas devidamente humilhado. Me consolei um pouco ao ver que o jogador responsável por minha eliminação ficou em segundo lugar, fazendo uma final disputadíssima com o campeão (que, não por acaso, era seu irmão). Mas, ainda assim, fiquei um pouco decepcionado comigo mesmo.

Certamente seria exagero dizer que o evento na locadora local fora o responsável pela maneira como penso hoje; não foi. Isso, contudo, não reduz sua importância. Ali, no final da minha infância, com um pé na adolescência, aquela foi uma derrota importante. Me ajudou perceber, junto com outras vivências de períodos passados e futuros, que o otimismo só leva à frustração. Hoje, minhas expectativas sempre começam baixas, e cada conquista vem acompanhada de um leve sabor de surpresa. Não pretendo tentar lhe convencer a pensar ou viver como eu, pois cada um é dono da verdade que mais lhe satisfaz. Eu, porém, jamais esquecerei do dia em que Allejo, o mito, foi massacrado pelo meio-campista alemão.

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