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Fantasia Definitiva

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'What if everything you see is more than what you see — the person next to you is a warrior and the space that appears empty is a secret door to another world? What if something appears that shouldn't? You either dismiss it, or you accept that there is much more to the world than you think. Perhaps it is really a doorway, and if you choose to go inside, you'll find many unexpected things'.

'E se há algo mais em tudo que você vê - a pessoa ao seu lado é uma guerreira e um espaço aparentemente vazio é uma porta para outro mundo? E se você vê algo quando não deveria? Você pode ignorar isso, ou aceitar que que há muito mais coisas no mundo do que você imagina. Talvez essa porta realmente exista, e se você optar por adentrá-la, irá encontrar muitas coisas inesperadas' (Tradução livre)


Essa citação, proferida originalmente pelo lendário Shigeru Miyamoto, serviu de epígrafe em meu trabalho de conclusão de curso. Não, a faculdade que fiz não têm relação alguma com jogos ou tecnologia; muito pelo contrário, visto que optei por estudar Letras. Ainda assim, frente alguns olhares de desaprovação (e, felizmente, outros de incentivo), homenageei, nesta última etapa do curso, a longínqua paixão que tenho por videogames.

Hoje, quando retomo a ideia, acredito que não poderia ser diferente. Afinal, há mais de 20 anos, esta arte, mídia, hobby, máquina de criação de assassinos em massa ou o que quer que você, leitor, considere os videogames, faz parte do meu cotidiano. Segundo os princípios da grande mente por trás da Nintendo, já lutei ao lado de muitos guerreiros - alguns nobres e bravos, outros nem tanto; já adentrei muitas portas secretas e explorei mundos outrora inimagináveis; acima de tudo, eu aceitei. Aceitei que, combatendo a banalidade dos dias, algumas pessoas tentam nos apresentar o inesperado. É claro que tal feito não é exclusividade dos games - muito antes de sua existência, a literatura, o cinema e demais artes já transportavam milhões de curiosos a outros mundos. Porém, o tempo, abstrato ou não, segue impiedoso, e nos força a fazer algumas escolhas. Por isso, hoje escrevo sobre os games, não sobre cinema - que me encanta com igual intensidade. Mas, afinal, por que os videogames?

Mil novecentos e noventa e nove. Esse é o ano em que Final Fantasy VIII foi lançado. Antes de 1999, o gênero RPG definitivamente não era o meu favorito; antes disso, o legal mesmo era fazer disputas em jogos de luta, futebol e corrida. Não era por falta de incentivo, afinal muitos me falavam o quanto esses jogos esquisitos e com um quê de sonífero eram interessantes. Mentira, eu dizia: nada acontece, como pode ser divertido?

Os tempos eram outros, aprender inglês era algo que ainda não me despertava muito interesse. Assim, resolvi encarar o tal Final Fantasy VIII em japonês mesmo. Já que é pra não entender muita coisa, que diferença faz? E fui. Oitenta horas, quatro trocas de discos e algumas espiadas em um guia daquelas antigas revistas depois, missão cumprida: fechei meu primeiro RPG.

O objetivo aqui não é descrever e avaliar mecânicas de jogo, desenvolvimento de personagens e da narrativa, e demais elementos que compõem FFVIII. A questão, de fato, é abordar a experiência como um todo. Assim, mesmo que soe genérico, digo apenas que a saga de Squall em sua luta contra o mal iminente foi algo que me proporcionou, em primeiro lugar, um sentimento de descoberta, fruto da imensa quantidade de informações, habilidades, personagens e inimigos que o jogo me apresentava; após a descoberta, veio a relação de imersão com tudo aquilo. Depois de um tempo, era como se eu fizesse parte do mundo - havia um pouco de mim nos heróis, e um tanto deles em mim. Nos entremeios disso, o fantástico se tornava palpável, e discutir com amigos o quanto era frustrante não conseguir derrotar um cacto gigante no deserto me empolgava de tal maneira que parecia natural. Qualquer um que não fosse adepto dos games e escutasse uma dessas conversas, certamente, me taxaria de esquisito, e vi alguns olhares caírem sobre mim com um misto de pena e desprezo. Se ainda hoje, nos tempos em que heróis, bruxos e outros seres fantásticos dominam parte da cultura mundial, há um certo preconceito contra os gamers, posso lhe garantir que, há 15 anos, era muito pior. Todavia, nada disso me importava; em Final Fantasy VIII, eu havia encontrado algo que nem sabia estar buscando, e um pouco de mim mesmo passava a fazer mais sentido.

Antecipo: é inútil dizer que FFVII é muito melhor, pois não o joguei. Tentei, mas por algum motivo, não consegui seguir em frente. Há uma auto-decepção nisso, junto com as outras omissões em minha trajetória gamer; todavia, deixemos isso para outro momento. Por enquanto afirmo, sem medo, que FFVIII é o meu favorito da série.

Algum tempo depois, terminei novamente a saga de Squall, desta vez aproveitando para tentar aprender e fixar o pouco que sabia de inglês. Nessa nova investida, que durou 120 horas, o objetivo era completar 100% do game, algo que não repeti em nenhum outro. 

Nada contra os complecionistas mas, por minhas mãos, somente FFVIII teve tal honra.

Hoje, depois de tantos anos, lembro nitidamente do teste da SeeD no início no jogo, das lutas contra Ifrit e Ultima Weapon, das animações dos GFs, da música sensacional tocada nas lutas contra os chefes. Uma memória particularmente agradável refere-se ao glorioso Triple Triad, também conhecido como o melhor minigame de todos os tempos. Aquilo me fascinava, e sair mundo afora procurando pessoas com cartas raras me traz uma sensação que até hoje não se repetiu em outro jogo.

Recordo-me também do final, do embaralho de cenas, Rinoa convidando Squall para dançar; Laguna, a festa, e a música ao fundo. Confesso que não lembro praticamente nada da história, mas isso é um ponto positivo. Explico: mesmo sem lembrar do enredo, me emocionei ao rever tal cena conforme escrevia este texto. Mesmo sem saber direito o porquê, o encontro final dos protagonistas permanece até hoje em minha memória. Passei tanto tempo naquele mundo que, talvez, tenha criado uma lembrança fantasiosa de tudo aquilo, que hoje se manifesta de maneira quase inconsciente, em um misto de imagens e sensações.

Depois de FFVIII, tudo mudou. Vieram então Xenogears, Valkyrie Profile, Star Ocean 2, Final Fantasy Tactics. Recuperei alguns clássicos perdidos, como Chrono Trigger e Final Fantasy VI. Com eles, uma crescente paixão pelo gênero, que por sua vez me levou a conhecer os RPGs de mesa. Hoje, Dungeons e Dragons, em sua imensa complexidade e completude, é o meu mundo fantástico favorito.

Mais do que oferecer horas de diversão, todas essas experiências ajudaram a definir os rumos de minha vida. Muitos podem considerar isso um exagero, mas, caso o façam, desculpem-me: vocês estão equivocados. Já não falo de videogames, de RPGs, ou qualquer outra forma de entretenimento. Falo agora de como a fantasia contribuiu para a formação de meu caráter e personalidade, de como alguns amigos que fiz e as consequências intrínsecas a qualquer amizade foram pautadas nessa paixão. Outros optaram por perceber as portas secretas à sua volta, e eu resolvi me aliar a eles.

 As quase duzentas horas gastas em FFVIII me moldaram. Não ouso dizer que ele é o melhor jogo já feito, ou que conte uma história sem precedentes. Eu tenho certeza que não. Ainda assim, é o meu jogo. Faz parte da minha vida. Final Fantasy VIII me mostrou o caminho da fantasia - da necessária fantasia. E, a ele, serei sempre grato.

Texto escrito originalmente em 2014. 

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    mastershadow · 20 days ago · 3 pontos

    FFVIII é meu segundo favorito da série, pra min ele só perde pra FFVI.FFVIII é um jogoe fantástico, vc se envolve com o mundo e os personagens de maneira muito legal,zerei esse ano ainda novamente, pois comprei a versão original do PS1 pra coleção, algo que eu queria a muitos anos.

    1 reply
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    andre_andricopoulos · 19 days ago · 2 pontos

    Adoro o FFVII.😍
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    Bela intro (seu post) e bela representação acerca seu amor pelo VIII.💪🏻
    ...

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    artigos · 20 days ago · 1 ponto

    Parabéns! Seu artigo virou destaque!

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