2016-12-01 11:03:07 -0200 2016-12-01 11:03:07 -0200
marcusmatheus Marcus Vinicius de Paula Matheus

E a tal da tecnologia....

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Um medo muito comum das pessoas que trabalham com mídias antigas ou que se apegaram demais a elas é que a WEB e a tecnologia digital ameacem os modelos de negócios e diversões existentes. Este medo é razoável e justificável até certo ponto, afinal somos basicamente seres humanos e é da natureza humana tratar o passado recente como a forma “natural” das coisas; somando à isso temores e incertezas de mudanças futuras.

Mas como se sabe, e foi muito bem escrito por Maquiavel há 500 anos (esse sim era um visionário, kkkk), não há questão mais delicada de conduzir, nem mais amedrontadora, do que implementar uma mudança. Pois de uma forma geral, todo aquele que inova ou que se apega à inovações terá automaticamente como opositores todos aqueles que estão estabilizados na vida, sob a velha ordem das coisas.

Entretanto é irônico quando vemos a forma como muitos de nós encaram as mudanças, porque isso é algo que enfrentamos constantemente; embora, sem dúvidas, nunca antes numa taxa tão rápida! Mas se pararmos um momento e olharmos para trás, a fim de buscar uma perspectiva sobre o que esta à frente, podemos observar alguns pontos interessantes: 

A visão do passado nos lembra o quão comum são as grandes mudanças e o quanto estão enraizadas na nossa história cultural – e que quase sempre ajudam a desenvolver e facilitar o cotidiano. O vislumbre do passado também nos lembra que a forma como as coisas tem mudado ao longo de nossas vidas e carreiras certamente não são mais “naturais” do que as mudanças que estão acontecendo agora!

- Do rádio para a tv em preto e branco foram pouco mais de 20 anos

- Da tv em preto e branco para a tv à cores foram exatos 19 anos

- Do videocassete ao DVD player foram 27 anos (esse demorou pra sair heim!,kkkk)

- Dos Arcades para os Vídeo Games caseiros foram míseros 10 anos!

- Dos cartuchos para as mídias digitais foram menos de 15 anos!

- Do celular para o Smartphone foram 10 anos

Quando olhamos a tecnologia por esse ângulo (mais “de cima”) ficamos com a dúvida: Afinal, o que é “natural” ?!

Pois fica muito óbvia a resposta: Natural é mudar! A tecnologia se torna obsoleta hoje em dia, assim como se tornava obsoleta no passado. Cada período de transição entre o antigo e o novo gerou desconforto, desconfiança, apego, protestos, mas no fim as mudanças vieram, estabeleceram seu lugar e as pessoas logo se adaptaram à elas.

Vamos à um exemplo? Que tal falarmos de livros!

O livro é um tipo de mídia que provoca grande apego, e não são poucas as pessoas hoje em dia – inclusive jovens! – que torcem o nariz para o e-book. Mas os livros são uma tecnologia como qualquer outra; eles são dispositivos sujeitos a inovação. Livros não são mais naturais que computadores ou smatphones, por exemplo. Todos foram criados pelo homem, distribuídos e comercializados pelo homem, etc... Não há nada de natural em um livro de papel (nem mesmo o papel é natural!).

Hoje em dia eu não leio quase nada mais em papel! No meu celular eu tenho livros em PDF (muitos deles!), apostilas da faculdade, revistas científicas (sou assinante de algumas delas) e jornais (tenho vários aplicativos de jornais diferentes onde leio as principais noticias do dia). Tudo isso dentro daquele pequeno aparelho. Pra mim a comodidade de carregar isso tudo, sem precisar de uma mochila extra ou uma sacola plástica enorme, não tem preço. “Mas o cheiro das páginas de um livro...” uma vez me disseram isso...

Sério?! Vou comprar um livro em papel e carregar o seu peso na mochila por causa do cheiro do papel? Por causa da sensação de tocar nas folhas? Simplesmente por poder deixar o livro na estante e mostrar para as pessoas que eu tenho o livro? Sorry! O que eu quero mesmo é, pura e simplesmente, ler! ^_^

Não é difícil ouvir pessoas usando o termo “tecnologia” como uma força intrusiva, estrangeira e perigosa, como se lápis, papéis, máquinas de escrever e impressoras fossem, de alguma forma, algo natural! Pois são tudo tecnologia! A diferença é que as tecnologias antigas vão sendo substituídas com o passar do tempo – a história já nos mostrou isso e não é algo que possamos evitar – embora se possa “retardar”...

Querem ouvir uma história interessante?

Quando eu tinha 15 anos de idade e fazia um curso no SENAI de Mecânico de Manutenção Industrial, meu professor me informou que já existiam vários projetos de carros movidos à energia solar, desenvolvidos e testados. E ele também me explicou o motivo de, até hoje, não vermos nenhum destes carros circulando por ai: “Grande parte da tecnologia de veículos automotores atual é inteiramente dependente do petróleo e de seus derivados, bem como as principais indústrias que movimentam o mercado financeiro. Lançar algo assim hoje seria um suicídio financeiro.”

Ele me contou de alguns casos que conheceu enquanto frequentava fóruns e reuniões pelo país, e disse também que, na grande maioria das vezes, quando o projeto é válido e tem viabilidade cientifica para fabricação em larga escala, os próprios gigantes do petróleo compram a patente desse projeto! E num futuro distante, quando a crise do petróleo se agravar e utiliza-lo como combustível for quase inviável, as grandes empresas vão tirar estes projetos de suas gavetas e comercializa-los.

A tecnologia digital pode ser nova, mas sua área de atuação tem permeado toda a cultura conhecida desde os primórdios da história humana. Os livros de papel, por exemplo, no inicio de suas vidas, eram encarados com ceticismo e desprezo por muitos que preferiam o cuidado e a “qualidade” expressa nos manuscritos que compõe as bibliotecas medievais. Mas é obvio que a produção em massa habilitada pela imprensa expandiu enormemente o acesso à informação, além do alcance limitado do manuscrito copiado à mão. E se formos críticos e refletirmos iremos notar que é exatamente a mesma coisa que a internet esta fazendo atualmente. 

Através de dispositivos móveis a internet esta se tornando o “sistema de comunicação” necessário para realmente conectar o mundo inteiro. Dois terços da população do globo agora usam telefones celulares, com o crescimento mais forte nos países em desenvolvimento. A dimensão desse mercado combinado com o baixo custo de distribuição global imediata significa maiores oportunidades para todos os tipos de mídia.

Ainda falando de livros, quando um amigo me diz que meus livros digitais podem ser perdidos para sempre, caso o dispositivo onde esta armazenado seja corrompido E o site onde comprei o dito cujo não tiver mais o material disponível para download, sim, eu entendo seus argumentos; mas também entendo seus medos e percebo que estes o impedem de ver que, o livro em papel, também não irá durar pra sempre e também corre o risco de "desaparecer"! Sou obrigado a lembra-lo que cupins podem estragar o livro, que um acidente pode acontecer e ele pode ser queimado/molhado etc.. . Ele pode ser roubado (kkkkk, quem ai nunca emprestou um livro e jamais o viu novamente!?), seu cachorro pode devora-lo e por ai vai!

O único modo de fazer com que objetos físicos durem “para sempre”, é não utilizando eles - e além disso, ter atenção semanal com a manutenção das peças. É preciso guarda-los com o máximo de cuidado,  e expostos como peças de museu numa estante. Guardar em uma caixa encima de algum armário ou dentro de gavetas também é válido, mas não garante uma boa preservação (sinto muito, assim não vai durar para sempre, kkkk).

Quer saber como se conserva um livro? Clique aqui !

Mas a transição é assim mesmo: É sempre um período conturbado onde existe uma divisão de ideologias, onde cada lado irá destacar aquilo que quiser destacar para justificar sua aceitação ou sua rejeição. Entretanto, excluindo-se alguns casos isolados, o novo sempre conquista o seu espaço. Hoje em dia é quase impossível achar fitas de vídeocassete por exemplo; filmes nem mais são lançados neste tipo de mídia. Eu ainda tenho um MP4, mas quem ai utiliza um dispositivo assim para ouvir músicas? Locadora de filmes, quem ainda frequenta?

Sempre que eu toco nesse assunto eu me lembro de uma frase do Chico Buarque que combina demais comigo, e é justamente com esta frase que concluo o meu pensamento:

“A pessoas têm medo das mudanças. Eu tenho medo que as coisas não mudem...”

Um abraço!

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    megaxbr · over 2 years ago · 3 pontos

    Gosto de livros e revistas físicas, meios digitais oferecem distrações demais e isso incentiva a proscrastinação.

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    herics · over 2 years ago · 2 pontos

    Ótimo Artigo, Parabéns

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    willguigo · over 2 years ago · 2 pontos

    Parabéns, show de bola.

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    jorgegt · over 2 years ago · 2 pontos

    Comentando pra ler em casa.

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    cptguapo · over 2 years ago · 2 pontos

    Postagem interessante pelo que pude ler de relance. Depois mais leio toda e comento.

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    santz · over 2 years ago · 2 pontos

    Black Mirror é um tapa na cara para quem curte tecnologias, como eu :(

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    cptguapo · over 2 years ago · 1 ponto

    Muito bom o texto. Mas acho que o pega mesmo, além dos resistentes às mudanças, é o ritmo delas. Esse é o meu caso. Por exemplo: celulares. Por que as grandes empresas insistem em lançar atualizações de um aparelho quase que anualmente? Percebe-se que nesse afã de "Vou ser pioneiro! Vou ser o primeiro!" eles esquecem de testar devidamente o produto e acontecem merdas com o "Galaxy Bomba" recente. O que custa manter uma janela de lançamento razoável de uns três, quatro anos e liberar-nos um produto mais confiável?

    Outra área que era assim mas que perdeu um pouco a sua força nessa corrida inútil foi a área de processadores pra PCs, devido ao limite da tecnologia para a manipulação dos núcleos, que já está chegando na escala quântica. Porém nada impede que essa pressa exagerada volte a ocorrer quando as ferramentas necessárias pra lidar com essa área apareçam.

    Outro ponto é que consigo conciliar essa tua visão com o saudosismo, fazendo com que seja bom pra ambos os lados. Pegando esse teu exemplo dos livros: É inegável a praticidade dos e-books, e considerando a portabilidade é uma mão na roda, mas ainda esbarra em várias falhas como tempo de bateria, qualidade da tela, recursos... E isso falando de leitores de e-books, que fique claro, pois tem mecanismos que emulam a página de papel. Ler no celular ou no computador é horrível, considerando-se textos médios e longos. Eu não consigo e não tenho problema de vista nem uso óculos. Agora, óbvio que está tendo uma evolução na tecnologia e um dia eles devem dominar sim, contudo, será que os livros vão desaparecer mesmo?

    Aí é que entra o poder dos saudosistas, que é criar NICHOS. Taí os discos de vinil/LPs que não me deixam mentir, inclusive com produção em andamento. Acho que no caso dos livros, caso os leitores de e-books se confirmem como a nova onda, a saída também é essa. Tipo, lançar edições limitadas ou de colecionador em papel, ou variadas em algum conteúdo. Garanto que vai vender! Nos jogos também acho que esse é um futuro. O que deve dominar (e já está de fato dominando) são as lojas digitais, como GOG e Steam, mas edições físicas especiais, como as lançadas pelo pessoal do IndieBox criam um nicho pra quem quer cópias físicas, com um algo mais.

    O lance da indústria petrolífera que você falou é coerente e pertinente e cria até certos ares de teoria da conspiração como visto no filme "Chain Reaction" ("Reação em Cadeia" aqui no Brasil), com Keanu Reeves e Morgan Freeman. Ainda que não haja agências que controlam especificamente esse tipo de situação como exposto no filme, os lobbies, a pressão mercadológica e a influência fazem esse papel no mundo real, e é difícil você desmontar certos paradigmas quando a estrutura por trás deles é imensa. Isso o filme fez bem em atiçar, pra quem viu além e pôde tirar lições dele.

    E não sei se seria uma boa ideia, deveria haver uma espécie de conselho, instituição ou algo que o valha pra conter esses "abusos de mudança", como em casos do "Galaxy Bomba", porém pra implementá-lo seria foda... Imagino algo como sendo formado por especialistas em tecnologia e mercado e futurólogos, a princípio. E ainda considere que cria um consumismo desenfreado, outro ponto a se destacar, que nos afeta econômica e ecologicamente. Exagero? Bom, as pessoas às vezes querem liberdade mas criam certos monstros...

    Finalmente, mudanças são boas e inevitáveis, todavia se há certas distorções e efeitos indesejáveis/colaterais, precisa-se de um olhar mais crítico sobre elas.

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