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A nuance reconfortante de Celeste...

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Olá povo, Lukenakama aqui, e bem, faz anos que eu não faço um artigo, então decidi voltar,  dessa vez, com o tema de um dos pouquíssimos jogos que zerei esse ano, Celeste.

Eu venho aqui pra dissecar o jogo e mostrar como Celeste é genuinamente competente como uma narrativa.

Não estou aqui pra analisar o jogo em si, jogabilidade, gráficos, trilha sonora, não, pra mim são todos incríveis mas isso não é algo que eu consigo analisar de uma forma técnica, afinal, tudo isso é relativo, eu amei a arte de Celeste, outros podem não gostar, e não tem como eu explicar o porque é boa, eu só gostei, diferente de quesitos técnicos que eu consigo fazer uma analise das qualidades e defeitos objetivos do jogo.

Bem, já deixo avisado que irão ter Spoilers aqui, então cuidado.

Em Celeste, você controla uma garota chamada Madeline, que tem como objetivo chegar ao cume da Montanha Celeste, pra mostrar a si mesma que ela é capaz disso.

No caminho, ela encontra várias pessoas nessa montanha, a Vovó, uma velha que aparente ser louca e que vive na montanha, o Theo, um entusiasta por redes sociais e que rapidamente faz amizade com Madeline, o Sr. Oshiro, um fantasma carente por pessoas que elogiem sua dedicação para com o Hotel, e todos eles de certa forma querem que a Madeline consiga chegar ao cume da Montanha.

Bem, conforme o jogo avança, você descobre que sua personagem sofre de ansiedade e depressão, e isso cada vez mais parece que vai explodir, como uma bomba-relógio.

Ao longo do jogo, os personagens te dão conselhos para superar isso, em especial o Theo que até ensina técnicas pra Madeline acalmar em momentos críticos, mas quem está disposto a todo custo a te fazer sentir pior, é o lado mau da Madeline, a Badeline.

Badeline é a junção de todas as emoções negativas de qualquer ser humano, o egoísmo, o pessimismo, a presunção, etc.

Ela se materializa logo no início do jogo e começa a importunar a protagonista, seja de maneira tangível, tentando machuca-la fisicamente, ou de maneira psicológica, tentando-a fazer desistir de escalar a Montanha Celeste.

E apesar do senso comum dizer que Badeline é a verdadeira vilão do jogo, será que isso é de fato!? Será que mesmo antes de se aliar a protagonista, ela era apenas isso!? Uma vilã que queria impedir a protagonista, apenas porque ela era uma vilã!?

Aí, é onde entra o desenvolvimento sensível da protagonista, nós começamos a entender o lado dela, e percebemos que apesar de parecer que toda a parte maldosa dela se foi depois que Badeline se manifestou, isso não é verídico.

Ao longo do jogo, Madeline age de forma totalmente egoísta, e culpa os outros pelos seus fracassos...

Por exemplo, ela culpa o Theo pelo episódio do teleférico, sendo que ele não tinha culpa nenhuma do que aconteceu.

Ela tenta ajudar o Sr. Oshiro, não falando o quanto ela acha ele estranho, apenas pra não magoa-lo, mas isso não é bondade, é uma máscara.

Como Badeline já falou no jogo, Madeline finge ser boazinha, apenas para esconder todo o vazio que ela sente, e no fundo, ela culpa os outros por seus fracassos, e ela tenta mostrar que é totalmente diferente da Badeline, mas no fundo, ela é igual, ou até mesmo, pior que ela.

Depressão é uma doença maldita e traiçoeira, e eu duvido que exista alguém que não vai sofrer dela em algum momento na vida, eu mesmo ainda sofro, e consigo entender a mente de Madeline.

Enquanto ela não pega atalhos na Montanha Celeste e a escala da maneira mais difícil e natural, na vida real, ela prefere ir pelo caminho mais fácil e culpar os outros ao invés de aceitar que errou, eu mesmo, já vi isso, já fiz isso, e é uma das coisas mais prejudiciais que uma pessoa pode fazer com sua própria saúde mental, mas nós fazemos de qualquer forma, porque somos seres humanos e temos tendência ao egoísmo.

Quando Madeline aceita que ela não é uma pessoa altruísta e sim uma ignorante, ela começa a entender seu lado maligno, e se alia a ela pra subir a Montanha Celeste.

Badeline não é má, ela não quer o mal a nossa protagonista, ela apenas quer que ela seja realista, faze-la perceber que não há problemas em desistir... e como um jogo, isso é PERFEITO; Celeste está aí pra todo o tipo de Madeline, apenas depende da vontade da pessoa que a controla.

Você jogou Celeste mas desistiu antes de chegar ao cume!? E daí!? Qual o problema nisso!? E daí desistir!? Mas se você foi até o fim, melhor ainda, porque você conseguiu realizar o desejo da Madeline, e de certa forma, esse desejo também se torna seu, já que chegar ao cume representa a finalização do game, e quem não gosta de zerar um jogo!? Então chegar ao topo da Montanha Celeste, se torna o MacGuffin não só da protagonista, como também, o nosso próprio.

Madeline faz as pazes com todos os aliados que ela machucou de alguma forma, e eles a apoiam e querem que ambos ela e a Badeline subam a Montanha.

Mesmo após todo o seu esforço ter sido em vão (Após acabar voltado pro começo da Montanha Celeste) aliando-se a Badeline e aceitando os seus defeitos, Madeline consegue ver o topo de novo.

A imagem de quando você alcança seu objetivo, é o verdadeiro epítome da filosofia de Celeste...

Você está sozinho, apenas você, seu lado "maligno" e seu objetivo, e........ qual o problema nisso!?

Na vida você vai conhecer dezenas de pessoas que fariam tudo pra te apoiar, mas no fim, é VOCÊ que precisa concluir sua missão, então se esforce e não dependa a todo momento das outras pessoas, porque nem sempre elas vão estar lá pra te ajudar, o capítulo 9 mesmo é a mais pura demonstração disso.

Você tem ansiedade e depressão!? Não tem problema nisso...

Madeline, uma menina ansiosa, reclusa, amarga e imperfeita, conseguiu escalar uma montanha de mais de 2000 metros, apenas aceitando que ela erra a todo momento, e não há problemas nisso.

Celeste é com certeza uma joia lapidada no quesito narrativo, mesmo quando é apenas a nossa protagonista, sozinha, você se sente calmo, porque no fim, todos estamos sozinhos, e ainda que o Theo ou outro personagem apareça pra apoiar ela, bem, cada um sobe a sua própria montanha, e no fim, a pessoa mais capaz de apoiar a Madeline, é ela mesmo.

Celeste resumidamente é uma nuance frágil, porém, linda.

Não há problemas em errar, não há problemas em falhar, não há problemas em perder... Você vai morrer 1, 2, 5, 10, 100, 1000 ou 10000 vezes em Celeste, mas o jogo nunca vai te punir por isso, afinal, subir uma montanha não é fácil, mas também não precisa ser torturante ou impiedoso.

Somos pessoas, com defeitos e qualidades, dispostos a fazer o bem ou o mal aos nossos semelhantes, todos temos nossa própria escalada a Montanha Celeste na vida real , e por mais que nossas lutas pareçam difíceis ou repetitivas, no fim, tudo acaba fazendo sentido.

Por isso, Celeste na minha visão é um game perfeito no quesito narrativo, tem um ou dois defeitos na história do jogo, mas isso não suja essa linda medalha de prata, sim, Celeste pra mim se equipara a uma medalha de prata, não uma medalha de ouro ou de bronze, mas de prata, só que qual o problema em ser "apenas" prata!? Na minha visão, isso é uma conquista e tanto, assim como a escalada de Madeline não foi perfeita e ela chegou até a cair da Montanha, no fim, ela conseguiu por esforço próprio, e é isso que importa.

Muito obrigado a quem leu até aqui, e espero que meu texto tenha chegado ao seu coração, de uma forma ou outra.

Até meu próximo artigo :)

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    arthurdias25 · 21 days ago · 3 pontos

    Eu reclamo de diversas coisas em Celeste, mas uma coisa que eu jamais vou é a Narrativa e Filosofia do Jogo, a personagem é muito bem construída e os diálogos são muito bem feitos, passando tudo isso.
    Apesar de eu não ter visto a conclusão de todo esse desenvolvimento no Capitulo 8 e 9 pra poupar minha sanidade mental, mas como vc mesmo disse, e dai? que mal há nisso?

    10 replies
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    santz · 20 days ago · 3 pontos

    Caraca mano, ótimo texto. Quando joguei Celeste, caguei grandão para a história. Odeio filosofia e metáforas e não consegui ver o tocante da narrativa durante a gameplay. O que mais me conquistou mesmo nesse jogo foi a jogabilidade.

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    kess · 19 days ago · 3 pontos

    Eu conhecia o apelo de Celeste ser díficil, mas pelo jeito a dificuldade também está no psicológico que o jogo aborda, e não somente na sua jogabilidade,

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    artigos · 17 days ago · 2 pontos

    Parabéns! Seu artigo virou destaque!

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    edbrazl · 16 days ago · 2 pontos

    Parabéns @lukenakama, você compreende mais do que ninguém os anseios de Madeleine e as dificuldades que ela tem que estão ausentes em outros jogadores. A montanha é uma metafora, pode ser transformada para qualquer coisa ou objetivo que uma pessoa ansiosa esta buscando, seja um emprego, um relacionamento ou um simples viver o dia que começou. A parte mais emblemática pra mim é a do teleférico, aonde mostra tb uma metáfora do que é o ansioso "paralisar" no momento da sua "subida", tendo sintomas psicologicos e até físicos(batimento cardiaco forte, suando, tremendo). E a "saída" do teleférico(paralisação na vida real) pela retomada do caminho através do controle da respiração, que é brilhantemente mostrada no gameplay com o controle da pena. Tive ataques de panicos recentes, deu pra notar?! rsrs Tb senti o mesmo que vc jogando o jogo, controlando essa Madeleine forte e fragil ao mesmo tempo.

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