2019-03-07 11:54:31 -0300 2019-03-07 11:54:31 -0300
jonomaia João Gabriel Maia

Incompleto, Inacabado, Inexplicável.

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[Não se trata necessariamente de jogos, mas pode servir também. me peguei pensando a respeito disso no psicólogo e tivemos um papo interessante lá. Talvez alguém se identifique.]

A maldita tradição ocidental de explicar, definir e conceituar tudo que há de vivo ou inerte no universo fruto da mentalidade científica moderna nos atingiu com seu charme de Espiã(o) britânic@ e nos impediu de apreciar a graça do incompleto, a complexidade do vago e inacabado e o sentido do inexplicável.

Sensacionalismos a parte, não me leve a mal. A ciência é essencial para nossa vida, nossa saúde, sobrevivência e transformação enquanto espécie e eu não poderia ser mais grato por todas as mentes brilhantes das mais diversas áreas do conhecimento que se esforçam para explicar e discutir o mundo físico e metafísico. Caso contrário não estaria escrevendo artigos ou muito menos me formado.

Mas o que quero dizer é: o que aconteceu com a nossa capacidade de admirar as “coisas pela metade”? Será que realmente precisamos que os filmes nos esclareçam cada pequeno detalhe da trama, que a letra da música exponha cada nuance da história e o argumento do Didi Braguinha seja totalmente preservado nos vídeos do MRG?

Para mim, o símbolo maior do impacto desta mentalidade na arte continua sendo A Força em Star Wars e a forma decepcionante de como George Lucas decidiu teorizar sobre um elemento transcendental que unia toda a existência da galáxia de forma brilhante sem nem mesmo gastar mais de mais de uma sentença para estabelecê-la.

"an energy field created by all living things. It surrounds us, penetrates us, and binds the galaxy together.

O mais triste ainda é o fato de que muitas vezes perdemos até mesmo a capacidade poética de explicar as coisas para além das palavras. “Show, don’t tell!”. E por alguma razão, nos sentimos “culpados” por interromper a leitura de um livro no meio do caminho ou simplesmente abandonar um filme ruim demais antes do final.

Esse desejo de conclusão das coisas atravessa nossa vida e nos consome, perturba nossa mente. Nunca publicar um texto ou uma canção por não conseguir concluí-la ou esconder nossa voz, nossa cara, nossa ideia e nossa arte pelo medo da repercussão, pelo receito de revisitá-la uma semana depois e detestá-la totalmente.

A arte nunca é finalizada, apenas abandonada, como dizia o mestre. A todo momento reverenciamos obras, discursos e ideias de indivíduos que provavelmente as odeiam tanto quanto nós odiamos as coisas que rasgamos e atiramos na fogueira do ostracismo do esquecimento. O triste é o fato de que, quando o fazemos, perdemos a oportunidade de aprender e rememorar nosso passado, testemunhar nossa transformação e sermos nosso próprio objeto de análise, de autoconhecimento. Impedimos de existir algo que poderia inspirar o próximo e dar as primeiras gotas de vida a uma nova ideia.

A cada sentença que ganha forma nesse texto, três foram desintegradas. A cada desenho que finalizo, abandono dez rascunhos e outros dois que deixei de gostar no meio da confecção e por mais que me esforce para não repetir tal façanha, sei que provavelmente se repetirá.

Porquê sentimos tanta necessidade de compreender o inexplicado e o inexplicável, o inacabado e o inacabável? Que diferença faz saber a razão do símbolo do Linux ser um pinguim ou assistir a décima temporada de uma série que deixou de ser boa na terceira?

Talvez um dia aprendamos a aceitar algumas coisas como elas realmente são, constantemente inconstantes e eternamente insuficientes. E para combinar com a temática, finalizarei esse texto com a única conclusão possível:

João Maia



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