2018-09-04 20:56:23 -0300 2018-09-04 20:56:23 -0300
jonomaia João Gabriel Maia

DOOM: ETERNAL - A Crítica mal compreendida

Single 3667958 featured image

Recentemente, com a revelação do trailer e gameplay da futura sequência da consagrada série desenvolvida pela ID Software, DOOM ETERNAL, um tópico parecia vir a tona em alguns cantos da internet.

De acordo com algumas críticas feitas ao jogo e aos desenvolvedores, o trailer exibia mensagens/piadas vistas como racistas, xenofóbicas e "desnecessárias". Para ser mais direto, estas são as frases proferidas na demonstração que pareceram desencadear a reação:

1 - “Earth is the melting pot of the universe,”

Em uma tradução direta, algo como "A terra é o grande caldeirão do universo"

2 - “let’s make our friends feel welcome in their new home,”

em português: "Vamos fazer nossos amigos [referenciando os demônios] se sentirem bem vindos em seu novo lar"

 “Remember, ‘demon’ can be an offensive term, refer to them as ‘mortally challenged.’”

"Lembre-se, demônio pode ser um termo ofensivo, refira-se a eles como Mortalmente desafiado/desabilitado" algo semelhante à ideia de "deficiente auditivo X portador de necessidades especiais".

Toda a controvérsia pode ser vista aqui:

https://www.gamerevolution.com/features/418045-do...

[ps: mais recentemente ainda, algumas notícias apontam à uma alimentação proposital da controvérsia como estratégia de divulgação do jogo. também não nos diz respeito neste momento]

Segundo tais críticas, as frases fazem alusão à formas contemporâneas de se trabalhar a questão de preconceito e enfrentar problemas como racismo e a resistência e ódio à imigrantes. Essas novas expressões são geralmente atribuídas aos esforços da parcela militante comumente associada às políticas de esquerda e movimentos sociais.

Não me darei o trabalho de tentar ridicularizar um ou outro envolvido na questão ou fazer uso da famosa expressão que repete a sílaba "mi" três vezes, pois ainda que acredite e critique tranquilamente a quantidade de excessos que tais sujeitos cometem e a desproporção de suas ações e reações a certos fatos, é preciso lembrar que, ao menos:

1 - estes ainda não são a maioria

2 - excessos e absurdos não são exclusividade destes

3 - ao menos, a preocupação final diz respeito a um problema real, como foi dito sobre o racismo e xenofobia

Porém o que me faz escrever este artigo é justamente o fato de que, ao levar em consideração ambos os jogos e toda a narrativa construída até o momento neste novo quadro da série, o que ficara mais claro é a força da internet de promover a todos a possibilidade de falar absolutamente qualquer coisa sobre tudo que sabemos ou não, especialmente aquilo que somos totalmente ignorantes sobre.

No caso específico de tal crítica, esta erra ainda mais feio por não ter gastado tempo o suficiente para ENTENDER DEVIDAMENTE a construção do jogo, pois, como veremos, O PRÓPRIO JOGO realiza uma explícita crítica a certas apropriações destas expressões representadas. ENTÃO VAMOS AOS FATOS:

Para entender o emprego das frases na demonstração, é preciso retornarmos ao jogo anterior. Doom (2016), um sucesso de vendas e de críticas foi tido como um retorno à forma dos FPS originais de anos atrás. variedade de armas e inimigos, velocidade exorbitante, sem a vida regenerável, projéteis ao invés do hitscan, muito espaço para o "mastering" das mecânicas do jogo e uma história que é possivelmente "deixada de segundo plano" - não por ser mal desenvolvida, mas pelo jogo permitir sem punições a total desatenção à mesma.

[links para as fotos em maior resolução ao final. vejam, vale a pena :)]

Porém, por mais que não fosse o tópico principal do jogo, a história ainda estava lá e nesta, uma das temáticas abordadas é o corporativismo, ou seja: Doom (2016) realiza uma sátira da linguagem corporativa a todo momento ao tentar "justificar absurdos" durante o jogo. Computadores Pré-programados para alertar sobre invasões demoníacas como algo normal, hologramas justificando os grandes feitos da extração de energia do inferno e como a exploração desta era uma grande prioridade, muitas vezes até maior que a própria vida dos trabalhadores da UAC - empresa representada no jogo como extratora da energia - e o próprio Samuel Hayden, antagonista calmamente referindo à catástrofe diabólica que dizimara toda vida na estação espacial em que o jogo se passa como um "RISCO QUE VALIA CORRER" mas que "PARECIA TER FUGIDO DO CONTROLE".

O que se vê a todo momento é justamente a crítica dos desenvolvedores de como grandes corporações criam termos que camuflam verdades, escondem genocídios, catástrofes e atrocidades e desumanizam por completo todas as relações envolvidas.

O desdobramento disso vem portanto na sequência do jogo anunciada EXPLORANDO AINDA MAIS A CRÍTICA. No trailer exibido, ao levar em consideração o CONTEXTO da obra citada aqui, o que se entende é portanto uma crítica à forma com que as mesmas corporações se apropriam das expressões de movimentos sociais e buscam capitalizar sob as mesmas, transformando questões de Luta social em material publicitário, midiático e comercial. 

Assim como uma emissora de TV como a Globo consegue fornecer conteúdo que agrade públicos das esquerdas e direitas simultaneamente, pois se apropria do material que possui visibilidade para cada setor e produz algo específico para cada um LUCRANDO DE AMBOS, A UAC nada mais é que uma empresa "multiplanetária" que incorpora expressões cunhadas pelas mesmas lutas para JUSTIFICAR suas ações insanas ou deploráveis. A crítica é ainda mais óbvia por ser feita com expressões contemporâneas parcialmente modificadas para satirizar o presente em tal leitura de futuro feita pelo jogo.

A mensagem que fica é: A incompetência e má vontade de OBSERVAR O CONTEXTO e ter a noção de um quadro um pouco maior que os poucos minutos apresentados são, geralmente, os verdadeiros culpados por reações confusas, exageradas ou desconexas, pois neste caso, é como "Criticar alguém que concorda com você por concordar com você". 

Ainda que, compreendendo todo o contexto e discordando da validade do emprego das expressões, há mais uma coisa a se lembrar: obras fictícias tem o direito criativo de se apropriar da realidade, criticá-la, parodiá-la. Especialmente em casos como tal, em que nada ilegal ou moralmente errado tenha sido cometido - independente do que isso venha a significar, já que, assim como os sujeitos, ética e moral são coisas inconstantes - nosso papel como consumidores é, NO MAXIMO, discutir e NUNCA CENSURAR, PROIBIR. A discordância é um direito de todos assim como a liberdade criativa - quando dentro das leis - também é, ambas precisam coexistir e se respeitarem. 

https://i.ytimg.com/vi/DLgNSXXfY4A/maxresdefault.j...
https://i.ytimg.com/vi/uIp_wh7d_oY/maxresdefault.j...
https://i.ytimg.com/vi/_DcjiStB8Ao/maxresdefault.j...
https://i.ytimg.com/vi/s9ziMwv-zYo/maxresdefault.j...
https://doomwiki.org/w/images/thumb/4/41/UAC_Spokesperson.jpg/1500px-UAC_Spokesperson.jpg

Doom

Plataforma: PC
4837 Jogadores
76 Check-ins

14
Continuar lendo → Reduzir ←
Carregando...