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hdpatrick Patrick Diego Featured

Manifesto a favor do esquecimento

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Às vezes, se você busca manter a diversão viva, é preciso que se esqueça de tudo. Esqueça mesmo. Tudo. Finja que nunca existiu, que é um novato na área e que está pronto pra recomeçar a vida do zero. Seja um total forasteiro. Force-se: atue, se for preciso; seja digno de um Oscar.

Jogue, jogue e jogue: esqueça; mande a expertise para a puta que pariu. Reaprenda a andar. Engatinhe. Imagine-se dando a sua primeira volta com a sua bicicleta sem rodinhas. Jogue, mas sinta, de verdade, como se estivesse beijando alguém pela primeira vez. Restaure aquele nervosismo vital ou, de outra maneira, descambe para a banalidade.

Seja uma nova pessoa em um novo jogo, mesmo que você seja velho e o jogo seja aquele seu jogo de infância que você já não aguenta olhar na cara. Reinvente-o e se reinvente.

Erre de propósito. Perca por bobeira. Lembre-se: você não sabe como que se resolve esse puzzle. Muito menos como se derrota aquele inimigo. Seu hímen gamístico regenerou-se — um verdadeiro milagre da natureza — e o jogo está pronto para lhe tirar a virgindade. De novo.

E você gosta disso. Porque, sabe, é preciso se esquecer de que certas coisas já aconteceram. Senão a magia acaba.

É importante — preciso — que se esqueça.

Vista o esquecimento como quem veste uma bijuteria: para o embelezamento. Ou, como na poesia de Pessoa: dispa-se do que já aprendeu, raspe a tinta com a qual lhe pintaram os sentidos. Desencaixote as suas emoções verdadeiras. Nietzsche era categórico: apenas no esquecimento, no a-histórico, o ser humano pode ser feliz. Ou, em outras palavras, viva fora da história, sem o referencial de um antes e de um depois. Como uma ovelha no pasto: apenas no presente. Esqueça que você tem uma história. Viva o agora. Viva o jogo.

Feito isso: pronto. Relaxe, que naturalmente acontece.

Esqueça para dar espaço ao novo, mesmo que o novo seja velho — sobretudo se for velho. Porque aí, no fundo, você volta a ser criança ou, no mínimo, vive uma experiência nova. E isso vale muito. E depois, quando chegar a hora, quando for preciso, você (re)esquece tudo outra vez. É isso aí: recomeçar do zero.

Um novo começo para a sua raça humana.

(Espero que vocês entendam o que eu estou tentando dizer).

Imagem:

Ilustração de Gustave Doré para “A Divina Comédia”. Mergulho no rio Lete. Na mitologia grega, Lete é o rio do submundo no qual todo espírito deve mergulhar para que se esqueça de sua existência anterior e ficar, assim, pronto para renascer em um novo corpo.

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    zefie · about 2 years ago · 2 pontos

    Ser noob é a melhor fase em qualquer jogo (exceto competitivo ahahahhha)

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    artigos · almost 2 years ago · 2 pontos

    Parabéns! Seu artigo virou destaque!

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    marcusmatheus · almost 2 years ago · 2 pontos

    Ótima reflexão sobre sensação de "encarar um desafio pela primeira vez".
    Quem dera eu tivesse essa capacidade. ^_^

    A grande maioria dos jogos perde totalmente a graça depois do primeiro gameplay - principalmente jogos de terror.

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    kess · about 1 year ago · 2 pontos

    Uau. Chega a ser uma poesia.
    Primeira vez que vejo algo assim relacionado à games.
    Está de parabéns!

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    brunothebigboss · almost 2 years ago · 1 ponto

    Você fez esse artigo depois que fiz o meu sobre o esquecimento como uma coisa ruim?
    Vamos lá, sei que não admitir, mas você quis fazer isso depois de ler meu artigo sobre o tema.
    Apesar de ser um artigo que gosto muito, preciso ajustar umas coisas nele...

    2 replies
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