2017-11-08 17:01:05 -0200 2017-11-08 17:01:05 -0200
harpuia Éverton Castro Featured

Microtransações e Loot Boxes em Videogames

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Eu já queria deixar claro antes de começar que o artigo tenderá contra as microtransações em games e será extenso. Se você, caro leitor, não gosta de ler opiniões contrárias (apesar de eu achar que deveria ler opiniões diferentes), talvez eu possa evitar que você perca um pouco do seu tempo.

CONTEXTUALIZAÇÃO
O quê é microtransação em jogos? O quê é Loot Box?

- A microtransação em um videogame consiste no jogador comprar conteúdo do jogo com uma moeda virtual que aquele jogo utiliza. O conteúdo varia desde itens cosméticos como skins, emotes e poses de vitória, até habilidades e certas vantagens que podem garantir mais facilidade em atingir objetivos no jogo. Essa moeda virtual pode ser ganha conforme você joga e completa missões ou objetivos.
A microtransação, em si, passa a existir quando o jogo permite que o jogador gaste dinheiro real para adquirir a moeda virtual. No final das contas, o jogador paga por aquele conteúdo, a diferença é que o caminho até ele se torna um pouco maior.
- Loot Box é um item que o jogador pode adquirir e que dá a ele outros itens, sendo estes aleatórios. O conteúdo e quantidade de itens que pode vir em uma Loot Box varia de jogo para jogo, alguns dão apenas itens cosméticos, outros dão itens que trazem vantagens reais ao jogador. Ela pode ser adquirida jogando-se o game ou recorrendo a uma microtransação, na qual o jogador compra uma ou mais Loot Boxes.

O PROBLEMA COM AS MICROTRANSAÇÕES E LOOT BOXES

O ano de 2017 foi marcado pela implementação desses sistemas em diversos jogos considerados "AAA" (jogos com altíssimo custo de produção e que custam 60 dólares, o maior valor cobrado por jogos nos EUA nos consoles), como: Forza Motorsport 7, Call of Duty WWII, Assassin's Creed: Origins, NBA 2k18Middle-earth: Shadow of War e o iminente Star Wars: Battlefront II. Outros jogos AAA já adotavam esse sistema nos anos anteriores, como jogos da série FIFA e o vencedor de melhor jogo do ano em 2016, Overwatch.

 As microtransações estão fortemente presentes em jogos do mundo mobile (jogos para smartphone) há anos, pois a grande maioria é gratuito para ser baixado e jogado. Assim, os produtores do jogo garantem certo retorno financeiro pelo custo de produção do jogo. No entanto, essa prática é especialmente escolhida para esses jogos pois o retorno financeiro é muito maior do que se ela não existisse e o jogo fosse vendido a um preço fixo, pois as pessoas que aceitam esse tipo de prática tendem a gastar muito mais em microtransações do que seria o preço sugerido pelo jogo, e essas pessoas representam uma fatia gigantesca do bolo de jogadores.

A prática de microtransações começa a ter sua imagem manchada quando é introduzida em jogos que já possuem um preço fixo e alto, no caso, jogos AAA. A empresa estaria buscando o máximo lucro sobre seu produto, além de garantir que o jogador volte muito mais para o jogo ao dispor esse conteúdo extra e o mantenha jogando até o lançamento do próximo título.

Infelizmente isso acaba interferindo na experiência geral do game, por vezes até impedindo que ele veja a luz do dia como foi o caso do jogo singleplayer de Star Wars que estava sendo desenvolvido pela Visceral Games. O estúdio foi fechado e o jogo sofreu uma mudança radical no seu desenvolvimento pois claramente não possibilitaria esse modelo de vendas, acabando com as esperanças de um título novo de Star Wars focado no singleplayer. Outros casos são o novo título da renomada série Forza Motorsport, que contava com a possibilidade de ativar ou desativar livremente as assistências de direção e agora as esconde em Loot Boxes, e Shadow of War, que possui um "final verdadeiro" que só pode ser acessado após o jogador vencer as batalhas do modo Shadow Wars. No entanto, o jogador precisa de Orcs Lendários em seu exército para ter uma chance contra os exércitos inimigos, isso pode ser adquirido após diversas horas de grind para conseguir os Orcs no jogo ou gastando dinheiro em Loot Boxes, que podem conter esses Orcs.

 Muitos concordam que microtransações meramente cosméticas não afetam a experiência de um jogo, seja ele singleplayer ou multiplayer, mas a aceitação massiva e a passividade com esta prática abriu o caminho para que as produtoras se tornassem mais predatórias se tratando desse modelo de negócio. A indústria não pode implementar práticas agressivas no mercado de uma vez, mas ao ir "preparando o terreno" ela garante que a rejeição seja consideravelmente menor.

PRÁTICAS SOMBRIAS RELACIONADAS A MICROTRANSAÇÕES

Recentemente foi revelada uma patente registrada pela Activision em 2015 e garantida à empresa este ano que consiste em um sistema de organização de jogadores em partidas online. O sistema colocaria um jogador iniciante junto com um jogador experiente e que possui itens adquiridos por meio de microtransações, como por exemplo uma arma com atributos bons. A ideia é que o jogador iniciante seja massacrado e se sinta frustrado, ficando mais suscetível a comprar aquele determinado item para "jogar melhor". Se a compra for realizada, este jogador seria então colocado em partidas com jogadores mais fracos e em um mapa que garanta as vantagens daquele item para que o jogador sinta que a compra valeu a pena e tenda a comprar mais. Caso a compra não seja feita, o sistema marca que ele não efetuou a compra, provavelmente colocando-o neste ciclo novamente.

Outra patente registrada pela mesma Activision atua em replays e streams de partidas. O sistema criaria um log de dados e geraria uma espécie de replay dinâmico, onde o espectador pode mudar, por exemplo, o ângulo da câmera, andar livremente pelo mapa, etc. Algo muito similar aos replays da série Halo. Mas o ponto chave desse sistema é que, ao passar com a câmera por um determinado jogador, o sistema mostra itens do mesmo e sugere a compra ao espectador. Isso é algo extremamente invasivo e muito parecido com propagandas que pulam em sites e nos vídeos do Youtube que assistimos.

O mais novo título da série Call of Duty, World War II, possibilita que Loot Boxes sejam abertas em um lobby social onde vários jogadores se concentram para interagir e permite que os outros jogadores vejam os itens que você ganhou em sua Loot Box. Mas algo chama a atenção: o jogo recompensa jogadores com pontos sociais por assistir outros abrirem essas caixas com itens, atuando no psicológico de quem está assistindo e se aproveitando da necessidade que algumas pessoas têm em parecer "bem vestidas" e "legais" como outras, similar ao que ocorre no mundo real.

EXISTE ALGUMA CHANCE DE ISSO ACABAR?

A prática predatória relacionada a microtransações parece estar se estabelecendo cada vez mais nos jogos AAA, para a infelicidade deste que vos escreve. É possível que esta tendência traga um período obscuro aos jogadores que são contra os "jogos em formato de serviço", que possuem microtransações e Loot Boxes. No entanto, grande parte dos jogadores sequer estão inseridos neste debate e vêem isso como algo normal, e existe uma parcela que até incentiva tal prática. As produtoras estão lucrando valores astronômicos com microtransações em seus jogos AAA, mas isso pode ser algo bastante prejudicial à indústria dos videogames daqui a alguns anos. Muitos já especulam um segundo "crash" no mercado de jogos, o que pode parecer improvável no momento, afinal, previsões econômicas são extremamente complexas.

Outra possibilidade, e essa sim me deixa com os dois pés e os dois braços atrás, é a regulamentação dessa prática de Loot Boxes nos jogos eletrônicos, pois a mesma é vista como jogo de azar e apela para o vício do jogador. No momento em que o Estado começar a por seus tentáculos nessa questão, o modo como os jogos são concebidos poderá mudar radicalmente. Se tratando do Brasil, onde os jogos de videogame já são classificados como jogos de azar, a carga tributária sobre eles poderia sofrer uma mutação assustadora.

Enfim, gostaria de concluir o artigo apenas pedindo para que o leitor pense sobre o assunto. Diversas pessoas me dizem que isto está prosperando e que vai continuar e está tudo bem com o mercado, mas poucos pensam no panorama geral e no futuro. Eu tento evitar jogos com esse perfil mais "monetizado"  e absolutamente fujo de qualquer compra de itens, sejam eles quais forem. Se isso vai adiantar algo, bem, só saberemos daqui a alguns anos.

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    diegolvf · almost 2 years ago · 5 pontos

    Belíssimo artigo cara. Eu particularmente não conhecia muito bem os conceitos de microtrasanções e loot boxes. Na verdade eu sabia mais ou menos o que era, mas nunca tinha parado pra estudar a mecânica por trás dos termos. Eu sou radicalmente contra esse tipo de prática e pra ser sincero acho que eu nunca cai nesse "bait" das empresas. Já joguei alguns jogos com microtransações e loot boxes em celulares e consoles ou plataformas, mas nunca comprei nada que me desse alguma vantagem ou melhoria estética em qualquer jogo. Eu costumo adotar uma filosofia meio burra em relação a isso, mas que surpreendentemente acaba dando certo. Eu não compro nenhum item ou habilidade que me garanta alguma vantagem, porque eu tenho desprezo em conseguir qualquer coisa que não exija o meu esforço, ou seja, quanto mais difícil pra mim conseguir determinada habilidade, vantagem ou item, mais gratificante é pra mim. Acho isso é uma espécie de legado deixado pelo Dark Souls na minha vida. Já imaginou onde isso pode parar, tipo vc compra um jogo de RPG e através de microtransações vc upa seu personagem instantaneamente pros lvs mais altos ou compra um jogo de corrida e através de microtransações consegue o melhor carro logo no começo do jogo...
    Se depender de mim as empresas não terão lucro através desse tipo de "serviço".

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    leafargs · almost 2 years ago · 5 pontos

    o fato de vc poder pagar para ter vantagens no jogo é a mesma coisa que trapacear, vc não é bom! não se esforça para aprender a jogar bem, então qual a solução? compre isso ou aquilo e ganhe do cara que treinou para jogar!

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    waterstill · almost 2 years ago · 4 pontos

    "Muitos concordam que microtransações meramente cosméticas não afetam a experiência de um jogo, seja ele singleplayer ou multiplayer, mas a aceitação massiva e a passividade com esta prática abriu o caminho para que as produtoras se tornassem mais predatórias se tratando desse modelo de negócio"

    Microtransação cosmética é dos males o menor, mas não deixa de ser mal também. Triste é ver gente defendendo isso.

    "EXISTE ALGUMA CHANCE DE ISSO ACABAR?"

    Como o post mais cedo mostra, as developers e publishers continuam fazendo isso porque dá muito lucro. Vai acabar quando gamer deixar de ser trouxa e bancar empresas que fazem isso. Não paguem por microtransação e lootbox. Se a DLC for abusiva, não compre. E se possível, não compre nem o jogo.

    E quem compra merece o modo como as empresas tratam o jogador mesmo. Vejo o povo reclamando pra caramba de ser banido sem motivo do GTA V Online mas não tenho pena nenhuma, tão jogando um jogo que vende shark card. Se querem fazer algo processem a empresa por ter te banido sem motivo, aí sim eu fico do seu lado.

    7 replies
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    lanzitto · almost 2 years ago · 3 pontos

    Muito boa esse teu artigo. Infelizmente o lucrar a todo custo tá criando um buraco negro, não já bastavam as DLCs (muitas desnecessárias) e agora essa prática crescente. Quem sabe isso comece até ser um revés e diminua a rede de jogadores, agora podem estar dando resultado para empresas, mas não podemos esquecer que com o tempo tudo pode mudar, se acontecer vai ser um tanto complicado reverter o quadro.

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    artigos · almost 2 years ago · 3 pontos

    Parabéns! Seu artigo virou destaque!

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    andre_andricopoulos · almost 2 years ago · 3 pontos

    Eu passo longe do assunto ( ou seja, não apoio e nem compro nada além do jogo...)

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    kevinryman · almost 2 years ago · 1 ponto

    Eu amo tanto essa prática, que na geração passada só tive as dlcs de RE5, MK9 e DSII, porque comprei a gold, a komplete e a scholar, respectivamente... aheuhueha Sério mesmo, cara! Prefiro ficar com o jogo capado do que compactuar com essa safadeza. Falo mermo! shuashuash

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    kess · over 1 year ago · 1 ponto

    Conforme fui lendo, pensei que poderia chegar num segundo crash, e voi lá, está no texto esse mesmo pensamento. No final das contas, esse ,método, por quanto menos renda às produtoras, talvez ainda lucrem o suficiente para continuarem com tais práticas...

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    rcukierti · almost 2 years ago · 1 ponto

    Se as empresas acharam uma forma de ganhar mais dinheiro e não força ninguém a pagar mais então não há nada diretamente errado nisso.
    Como sempre há abusos e isso sim é errado. Por abuso considero conteúdo pago extra que dá vantagens no gameplay. Procuremos combater esses abusos pois tira a graça da competição, mas sobre o que está fora disto cada um escolhe o que faz com seu dinheiro.

    3 replies
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