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O que é JRPG?

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O que é um JRPG? Essa pode parecer uma pergunta muito trivial e a resposta para a mesma deve estar na ponta da língua de muita gente: JRPG seria a abreviatura de japanese role-playing game, ou seja: um jogo de RPG feito em terras nipônicas. Entretanto, o buraco é bem mais embaixo, e uma solução mais completa para essa questão exige um pouco mais do que apenas bom senso. Pensando nisso, nós, do Grindingcast, decidimos optar por este artigo, e através dele explicar de uma maneira mais prática e simples de como definir esse subgênero do RPG eletrônico. Mas antes disso, viajemos um pouco no tempo pra descobrir e entender como tudo começou…

Uma pequena introdução ao JRPG

Os RPGs eletrônicos surgiram na tentativa dos programadores passarem as aventuras de Dungeons & Dragons para um ambiente virtual, e seu início foi em meados da década de 70, com destaque para Wizardry e Ultima, ambos lançados para os PCs da época. Com o advento dos videogames caseiros, não tardou muito para que também pensassem em portar jogos do tipo para os mesmos, e em 1986 surgia no Japão Dragon Quest que, apesar de não ser o primeiro RPG eletrônico feito por japoneses (já que coisas como Hylide surgiram antes), foi o primeiro a fazer um sucesso absurdo e a trazer as primeiras características que serviriam como base para o desenvolvimento de todo o subgênero nos anos vindouros.

Capa da versão oriental de Dragon Quest (à esquerda) e da ocidental, chamada de Dragon Warrior (à direita), mostrando bem a diferente interpretação de uma aventura épica que cada lado do globo tinha

Apesar de unir conceitos anteriormente usados em Wizardry e Ultima, Dragon Quest faz mais do que apenas um repeteco de ideias, pois constrói uma aventura épica de capa e espada bem colorida, e com monstros bem característicos desenhados por Akira Toriyama (hoje mundialmente conhecido por sua criação Dragon Ball), onde o jogador precisa salvar o mundo de um poderoso e maligno vilão. O sucesso do jogo foi tamanho que vários outros RPGs surgiram nos 8bits, como Final Fantasy (1987), Mother (1989), Phantasy Star (1987), Crystalis (1990), Ys: The Vanished Omens (1987), dentre tantos outros, que foram cada vez mais solidificando as características do que estava se tornando um subgênero próprio.

Final Fantasy VI, um dos ápices criativos do gênero

Com o advento dos 16 bits, em especial com o Super Nintendo, o RPG eletrônico japonês encontrou sua era de ouro, onde o subgênero adquire todas as suas principais características. As franquias advindas da geração anterior puderam explorar ao máximo as possibilidades do novo console, e várias outras surgiram, com os desenvolvedores abusando de sua criatividade, além de despertar os olhares de interesse do público ocidental. Dragon Quest veio com Dragon Quest V (1992) e Dragon Quest VI (1995), porém Final Fantasy chegou chutando o pau da barraca, mostrando que o RPG eletrônico também podia ser usado pra contar narrativas dramáticas com temas mais sérios, seja com Final Fantasy IV (1991) e principalmente Final Fantasy VI (1994). Outros jogos que saíram na geração foram Chrono Trigger (1995), Secret of Mana (1993), Super Mario RPG (1996), Terranigma (1995), Phantasy Star IV (1993), Earthbound (1994), dentre tantos outros que nos encantam e impressionam até hoje.

Final Fantasy VII e suas summons que explodiram a cabeça de muita gente na época

Na geração seguinte, especialmente com o console da Sony, o PlayStation, os RPGs japoneses finalmente alcançaram o patamar de jogos mainstream. Com o lançamento de Final Fantasy VII (1997) e seu sucesso absurdo, várias outros jogos foram sendo lançados, e agora aproveitando-se da nova tecnologia que permitia usar polígonos, que então prometiam ser o futuro. Suikoden II (1998), Valkyrie Profile (1999), Breath of Fire III (1997), Final Fantasy VIII (1999), Tales of Eternia (2000) são alguns dos títulos que representam bem essa época, que fizeram muitos adentrarem no gênero, inclusive aqui no Brasil (ainda mais ajudado pela pirataria desenfreada do PS1, onde se podia comprar jogos do console a preço de banana em qualquer camelô).

Ar Tonelico III, um exemplo de franquia que se perdeu com o advento massivo da tecnologia

Nas gerações seguintes, mais melhorias tecnológicas foram surgindo, contudo os JRPGs acabaram perdendo público. Outros gêneros de jogos eletrônicos passaram a contar narrativas mais densas, além de terem gameplays mais dinâmicos e intuitivos, o que fez com que coisas como Hack And Slash surgissem e agradassem um número enorme de jogadores. Infelizmente várias franquias de RPG japoneses não souberam utilizar a tecnologia a seu favor, e abriram mão da própria criatividade em prol de um possível lucro maior. Exemplos bons e ruins dessas gerações foram Persona 4 (2008), Atelier Iris (2004), Final Fantasy XIII (2009), Breath of Fire: Dragon Quarter (2002), Dragon Quest XI (2017), Tales of Zestiria (2015), Bravely Default (2012), entre tantos outros, que continuam sendo lançados (isso além de jogos independentes, como os indies), porém que não possuem a mesma lucratividade e appeal com o público como outrora.

Xenoblade Chronicles, um bom exemplo de narrativa que os JRPGs ainda conseguem fazer

Os JRPGs atualmente são apenas uma sombra do que foram, seja criativa ou lucrativamente. Empresas apostam em remakes de seus títulos antigos, outras lançam jogos todo ano para um número pequeno de jogadores, contudo cada vez mais o gênero vai se tornando nichado, tal como era nos tempos dos 8 bits. Contudo, antes de conjecturar o que levou a queda dos hoje chamados JRPGs (termo que se popularizou na geração do PS3/Xbox 360), precisamos entender o que leva um jogo a pertencer a esse subgênero. Como dito no começo desse artigo, JRPG não se resume a um selo de onde o jogo foi fabricado e sim a um conjunto de elementos que o diferem dos RPGs eletrônicos ocidentais, e após esse breve resumo de como os role playing games nipônicos se desenvolveram durante a história, vejamos o que leva um JRPG a ser um JRPG.

Elementos definidores de um JRPG

1 - Role play

Role play é o aspecto mais importante de um RPG. Sem ele, as aventuras de Dungeons & Dragons só seriam um amontoado de pessoas jogando dados a esmo e falando coisas sem sentido, e quando o assunto é RPG eletrônico a coisa não é diferente, afinal role play é o faz de conta, a teatralidade, a interpretação que o jogador faz de seu personagem.

“Mas role play não seria algo relativo? Ou a mesma coisa que imersão?”

Não. Um bom exemplo seria uma peça de teatro, onde os atores estão a todo momento interpretando o papel de algum personagem em uma narrativa. Ali, o profissional faz o roleplay através de sua habilidade, simulando os trejeitos e dizendo as falas do indivíduo o qual ele está representando, enquanto numa mesa de RPG essa interpretação se dá através da história que está sendo contada pelo Dungeon Master, onde as escolhas que o mesmo te dá pra fazer te guiam pela aventura. Quando decidiram transpassar essa experiência pro RPG eletrônico, os ocidentais decidiram optar pela customização do personagem e pelas múltiplas escolhas que o jogador pode fazer (originando o que viria a ser conhecido como WRPG nos dias de hoje), enquanto os japoneses acharam melhor focar na parte narrativa, fazendo de seus jogos experiências mais lineares, focadas em um enredo principal com um objetivo bem definido.

Lunar 2, um ótimo exemplo do role play característico dos JRPGs

Por isso, o role play dos JRPGs se dá pela empatia que o jogador tem com os personagens jogáveis (que nos JRPGs costumam ser mais de um, o que aumenta ainda mais essa estima). Quanto mais carismático, característico e inusitado o personagem for, melhor para que a teatralidade aconteça e para que o jogador realmente se sinta interpretando aquele papel e realmente se importe com o que acontece com aquele indivíduo, ficando alegre em momentos de vitória e triste caso algo aconteça com ele, como uma possível morte. Esse é o principal motivo pelo qual muitos JRPGs de SNES, mesmo possuindo narrativas bem simples, conseguiam cativar os jogadores, a ponto de muitos serem lembrados até hoje, como o Secret of Mana e Chrono Trigger.

2 - Narrativa

JRPGs tendem a possuir narrativas lineares (existem raras exceções, como a segunda parte de Final Fantasy VI), focadas em vários personagens jogáveis (também existem exceções, como Vagrant Story mas em suma JRPGs tendem a ter partys, formadas por vários personagens bem distintos), que tendem a ter idades entre 10 e 20 anos. Esse período entre a adolescência e o princípio da idade adulta é visto como a melhor fase da vida para grande parte da sociedade japonesa (já que quando ficam adultos, não possuem liberdade pra fazerem o que querem, sendo pressionados pela sociedade a arrumarem um emprego ou passarem em um vestibular), e isso se reflete em suas histórias, que são quase sempre protagonizadas por jovens cheios de energia, perseguindo um objetivo bem definido (normalmente salvando o mundo de algum grande mal). Seu cast é sempre formado por personagens pré definidos, mesmo quando o protagonista é self insert é visível que ele está longe de ser uma casca vazia no qual o jogador irá se inserir (como acontece em boa parte dos WRPGs), e normalmente já possui background, história, trejeitos próprios ou mesmo uma mãe que o acorda de manhã para que finalmente possa começar sua jornada.

Persona 2: Eternal Punishment é um raro caso de JRPG cujo cast é formado quase que totalmente por adultos

Esse foi um dos diferenciais que fizeram os JRPGs ganharem destaque nos 16 e 32 bits, já que devido a sua linearidade e seu foco em vários personagens ao mesmo tempo, eles conseguiam entregar uma experiência narrativa bem cativante, mesmo que a maioria sequer imaginasse que não era que eles fossem narrativas super densas (afinal, ter uma trama protagonizada por crianças/adolescentes acaba limitando a liberdade narrativa que o autor pode ter) e sim que o role play do jogador nelas lhes dava uma imersão que nenhum outro gênero conhecido podia lhe proporcionar, de forma similar com a que os RPGs de mesa conseguiam entregar.

3 - Gameplay

Assim como num RPG de mesa as fichas e dados são importantes, nas contrapartes eletrônicas a coisa não é diferente, afinal são as mecânicas, o sistema de progressão de nível e afins que definem a execução de suas ações, e fazem a sua aventura terminar em uma vitória esmagadora ao invés de uma derrota vergonhosa. JRPGs possuem gameplays bem diferentes, indo do Turn Based (onde o JRPG realmente brilha, tendo a maioria de seus melhores jogos nesse sistema de batalha) ao Action (sistema que a maioria esmagadora dos JRPGs atuais adotaram), contudo eles possuem alguns aspectos em comum, como magias espalhafatosas, danos absurdos, overworld com navios e airships, mas sem dúvidas o principal deles é a progressão.

                  Gameplay de Lufia II, um dos melhores JRPGs dos 16 bits  

A progressão dos JRPGs costuma ser feita através de batalhas, sejam em dungeons repletas de monstros ou enfrentando bosses aterradores que podem quebrar a sua cara em instantes (enquanto sidequests e eventos secundários não costumam ter um grande destaque). A maneira como o jogador adquire skills e equipamentos também segue a mesma linearidade do enredo e coisas como magias super poderosas só são adquiridas quase no final do jogo, aumentando ainda mais o role play e a sensação que o jogador realmente está vivenciando uma aventura, onde os perigos ficam mais desafiadores e as recompensas mais satisfatórias com o desenrolar da sua jornada.

4 - Ambientação

No começo dos anos 90 uma onda pitoresca invadia os lares das famílias através da hoje extinta Rede Manchete: o desenho Cavaleiros do Zodíaco. Misturando mitologia grega, astrologia e muita violência, a animação foi um sucesso absurdo e junto com ele vieram vários outros poços de exoticidade com os quais não estávamos acostumados na época: Yuyu Hakusho, Sailor Moon, Dragon Ball, Pokémon, entre vários outros, que prendiam a atenção de milhares de crianças e adolescentes, com muitos pais se perguntando o que tinha de tão incrível naquelas animações violentas com personagens magricelas de olhos grandes…

As três feiticeiras de Lunar: Silver Star Story, esse tipo de aparência peculiar só se encontra em JRPGs e afins

Exagerados, exóticos, existem vários adjetivos que podem ser usados pra definir as animações japonesas, e os JRPGs bebem diretamente dessa influência. A narrativa pode acontecer numa época medieval, que as chances de se encontrar um inimigo mecha gigante com lasers serão bem altas, ou mesmo ambientações cyberpunk com os personagens lutando com staffs mágicos e espadas gigantes enquanto soltam cogumelos atômicos com suas magias. Resumidamente: JRPGs são imprevisíveis, um pequeno e caricato monstro pode soltar rajadas de fogo na sua cara, uma casa pode te atirar mísseis, um monge pode dar suplex em um trem, uma ninja pode fazer sinal da cruz, entre várias outras possibilidades, que só jogando JRPGs mesmo pra descobrir.

5 - Trilha sonora

One Winged Angel, exemplo conhecido do que os JRPGs podem oferecer, musicalmente falando

Trilha sonora é algo que todo gênero de jogo eletrônico possui, então o que o JRPG possui de diferente nesse sentido? Como o enfoque desse tipo de jogo é no role play, na interpretação de papéis, a narrativa, a ambientação e a trilha sonora precisam estar de acordo com o que está acontecendo na tela. Por isso os RPGs nipônicos tendem a ter um cuidado todo especial com esse aspecto, possuindo várias músicas diferentes pra cada situação, seja uma batalha, uma cidade, um boss ou mesmo um personagem jogável.

Seja o tema de um local onde o jogador pode descansar…

Ou de uma personagem que controla seu mecha dançando com seus leques…

Ou o tema aterrador de um final boss, o desafio derradeiro que o jogador esperou por tanto tempo! A música mexe com nossos sentimentos, portanto um tema que encaixe com a situação que está ocorrendo naquele momento será certeiro pra ajudar no role play do jogador.

O que podemos concluir?

Tendo conhecimento dessas principais características que diferem um JRPG de outro gênero/subgênero de jogo eletrônico, fica simples sacar à primeira vista jogos ocidentais feitos nesse molde. South Park: The Stick of Truth, Child of Light, Cross Code, Cosmic Star Heroine, Lost Odissey, Secret of Evermore, entre vários outros. Também existem jogos como The Witcher 3, cuja narrativa segue o padrão japonês (linear, com protagonista carismático mirando um objetivo bem definido), mas continua sendo um RPG ocidental, já que não possui os outros elementos definidores do subgênero.

Por fim, isso é JRPG: um subgênero do RPG eletrônico, cuja principal característica se dá por sua narrativa linear, seus personagens exóticos, trilha sonora bem diversificada e ambientação peculiar que se unem pra formar o role play, o faz de conta que o jogador irá vivenciar. É fato que atualmente o JRPG não anda bem das pernas, e que sua interpretação de papeis não chega ao nível de sua contraparte de mesa, contudo isso não significa que são escassas as opções para alguém que queira se aventurar no gênero, vivenciando uma experiência única que dificilmente outro tipo de jogo eletrônico irá permitir.

Dragon Quest

Platform: NES
115 Players
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    artigos · about 1 month ago · 3 pontos

    Parabéns! Seu artigo virou destaque!

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    seufi · about 1 month ago · 3 pontos

    Fanservice?

    5 replies
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    kess · about 1 month ago · 3 pontos

    Os JRPGs precisam se reinventar para voltarem a ser o que já foram!

    3 replies
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    wiegraf_folles_ · about 1 month ago · 2 pontos

    FF12

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    carloscesar1989 · 28 days ago · 2 pontos

    Excelente artigo, explica muito bem o que difere o jrpg do rpg ocidental

    1 reply
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    guicarneirol · 24 days ago · 2 pontos

    Galera do GrindingCast vocês se garantem muito, tanto nos textos quanto nos podcasts! Galera aproveita e posta também lá na pyre.gg, que também é uma rede social para gamers, acredito que o pessoal vai gostar muito dos posts e podcasts ;D

    1 reply
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