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Por que as personagens femininas de JRPG são... Assim?

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Um certo dia, estava conversando com um colega de serviço sobre animes, as famosas animações japonesas (que sempre me chamaram a atenção desde que Seiya e cia chegaram na base de muito sangue e violência na década de 90 na saudosa TV Manchete) e acabei indicando alguns títulos pra ele começar a ver (já que eu tinha a mania de gravar vários episódios em DVDs, os quais ainda devo ter guardados em algum lugar), e então, após mostrar algumas imagens (contendo inclusive algumas personagens femininas) para ele, o mesmo me disse o seguinte:

“Rapaz, é incrível que desenho japonês só tem mulher bonita, não tem nenhuma feia nesse negócio”

Após sua afirmação, a minha resposta automática foi “Claro que não, também tem personagens femininas feias e talz”, mas acabou que não me veio nenhuma em mente pra poder citar de exemplo. E os anos foram se passando, fui jogando mais e mais JRPGs (que são diretamente influenciados e interligados com as animações japonesas, afinal advêm da mesma cultura) e acabei notando que… Ele estava certo! As personagens femininas advindas da mente dos autores japoneses sempre tinham a dádiva da beleza (tanto com rostos bonitos quanto com corpos bem torneados), claro que tinham as exceções (especialmente se a personagem já tivesse mais idade, ou fosse alguém de personalidade detestável), mas em suma isso era uma constante, seja para protagonistas como Terra Branford (de Final Fantasy VI) quanto vilãs como a deusa Myria (de Breath of Fire)… Mas afinal, por que elas são assim?

Eva Heinemann, personagem do anime/mangá Monster (de Naoki Urasawa) é um exemplo de personagem feminina que não é lá muito agradável aos olhos, mas isso é devido a sua personalidade desagradável

O senso comum, somado à atual situação político/cultural da atualidade, pode fazer com que muitos pensem que isso se acontece devido a uma possível “ditadura mundial da beleza” ou alguma coisa parecida, porém essas conjecturas são muito superficiais (já que mesmo personagens de mangás Shoujo, normalmente destinados a mulheres, são dessa forma), já que a razão pela qual o Japão decide retratar a mulher em suas obras fictícias desse modo quase divino é consequência de sua construção cultural, e utilizar a nossa visão ocidental pra julgá-los sem um conhecimento prévio de como que a retratação da realidade deles funciona, é errôneo. Por isso, através deste artigo, irei mostrar, mesmo que superficialmente, um pouco de como a arte nipônica no geral chegou a esse ponto, e como isso se reflete em nossos queridos e estimados jogos de RPG eletrônico advindos dessa pequena e pitoresca ilha no Oceano Pacífico.

Gueixas: Conhecidas por muitos, entendidas por poucos

                                Gueixa, em sua tradicional cerimônia do chá

As gueixas são bem conhecidas mundo afora, usando seus quimonos decorados, seus penteados peculiares e sua maquiagem carregada, sendo quase um símbolo da cultura japonesa como um todo. Contudo, ocorre muita confusão sobre qual é realmente a sua função, com muitos até pensando que elas são cortesãs que fazem serviços sexuais aos seus clientes (em resumo: protstitutas), porém isso é uma mentira… Ou melhor dizendo, uma confusão devido ao fato das gueixas serem uma espécie de variante das verdadeiras profissionais do sexo famosas da história japonesa: as Oirans.

Oiran, em desfile japonês. A principal diferença delas pras Gueixas à primeira vista é a maneira como o Obi (faixa do quimono) é amarrada: nas oirans o laço fica pra frente, enquanto nas gueixas é pra trás

A tradição das oirans é secular no Japão, surgindo no período Edo, por volta de 1600, onde elas eram consideradas acompanhantes dos mais altos figurões da sociedade, os únicos que podiam pagar por seus serviços. Desde jovens, as aspirantes a oiran eram submetidas aos mais diversos treinamentos, desde maquiagem, dança, canto, poesia e conversação, além da óbvia função de seduzir e satisfazer seus clientes da melhor maneira possível. Com o tempo passaram a realizar seus trabalhos nos chamados yūkaku, os “quarteirões do prazer”, que vieram a se tornar muito famosos e muitos homens acabam visitando os locais não somente para o prazer sexual, como também para admirar o entretenimento e a arte que as oirans podiam proporcionar.

Nesse cenário surgiram as gueixas, comumente se apresentando antes das oirans nesses locais, ganhando fama e adquirindo um enorme reconhecimento no país (contudo, sendo proibidas por lei de se relacionarem sexualmente com seus espectadores) e posteriormente ficando mais famosas que suas predecessoras. Nesses distritos também veio a se popularizar um estilo de dança bem característico, com movimentos bem sensuais, estilo que acabou ficando conhecido como kabuku (que significa ser selvagem e ultrajante), e as danças em si com o nome de... Kabuki.

Teatro Kabuki, hoje uma arte masculina, mas sua origem foi bem diferente

                               Izumo no Okuni, a predecessora do teatro kabuki

No começo de 1600 uma certa sacerdotisa (miko) em Kyoto fazia peculiares apresentações, onde se vestia como homem enquanto teatralizava algumas situações cotidianas daquele período, isso com trejeitos e danças bem específicas. Acompanhada de algumas outras belas mulheres, suas atuações ficaram bem populares, e vários outros grupos femininos passaram a se apresentar pelo país afora seguindo o mesmo estilo. Entretanto, por volta de 1629, o governo baniu a participação de mulheres nessa modalidade artística, já que aparentemente as apresentações e danças eram “sensuais demais”, e muitas artistas se usavam disso para se prostituírem, e como as danças já haviam se popularizado, homens passaram a se vestir de mulher e a seguir esse estilo, o que culminou no famoso teatro kabuki.

                       Homem, interpretando uma mulher no teatro kabuki

Apesar de existirem outras manifestações artísticas na cultura nipônica (assim como acontece com vários países, inclusive no Brasil e suas mais diversas festas regionais, por exemplo), o teatro kabuki é, até hoje, a arte mais popular dos 4 estilos teatrais japoneses (tendo inclusive sido elevada a Patrimônio Intangível da Humanidade pela UNESCO, em 2005). No palco, homens mais velhos interpretam papeis femininos (a priori isso era feito por homens mais jovens, porém casos de pederastia começaram a surgir, e a modalidade passou a dar preferência para pessoas adultas) nas mais diversas peças, que podem encenar o dia a dia japonês (sewa-mono), algum evento histórico (jidami-mono) e mesmo alguma peça de dança (shosagoto).

Ator interpretando Nausicaä, protagonista feminina da animação Nausicaä of the Valley of the Wind, de Hayao Myazaki

O ator que faz o papel feminino nas peças, chamado de onnagata, faz mais em palco do que simplesmente improvisar uma caricatura da figura feminina no geral. Através de anos de experiência dos mais diversos atores que o antecederam (e de um treinamento rigoroso), o mesmo não apenas usa roupas, perucas e maquiagens como também tem toda uma ritualística no palco, seja no modo me mexer nos cabelos, de falar ou mesmo de se portar, com o ator tendo mesmo que fazer um certo esforço físico para que seus ombros pareçam menores do que são, lhe dando um ar mais frágil e delicado para a interpretação que está fazendo.

Obviamente que aquilo no palco não são mulheres de verdade, porém toda essa exoticidade deu um ar único e atemporal pra arte do teatro kabuki, e isso influenciou em várias outras instâncias artísticas e culturais da sociedade japonesa como um todo, seja na própria definição de beleza nipônica (com homens considerados bonitos por lá tendo que ter feições um tanto andróginas, bem diferentes do padrão ocidental) ou em suas histórias, quadrinhos, animações e… Jogos eletrônicos, como os RPGs.

E como ficam os JRPGs nisso tudo?

                                                       Trilogia Seiken Densetsu

A maneira como boa parte das personagens femininas são retratadas nos JRPGs é influência direta de toda essa historicidade. Seja o porte característico das oirans e das gueixas ou mesmo os trejeitos dos onagatas no palco, isso tudo reflete nos autores, que sempre procuram retratar suas personagens nesses jogos de forma delicada, sensual, exótica e isso contrasta e muito com as personagens femininas que costumamos ver no ocidente. Um bom exemplo, voltando pra época da saudosa Rede Manchete, uma certa animação japonesa foi transmitida e, ao contrário de títulos anteriores (como o próprio Cavaleiros do Zodíaco), esta tinha como alvo o público feminino mas, por algum motivo, boa parte dos espectadores consistiam de garotos, que consciente ou inconscientemente se sentiam interessados pelas garotas de saia curta que ficavam nuas pra se maquiar e derrotar os inimigos.

Sailor Moon combatendo o mal de saia curta e sem nenhum pudor era bem diferente de outras heroínas que tínhamos na época na televisão, como She-rah ou as garotas dos desenhos de Hanna-Barbera, tanto que nos EUA muita coisa da animação foi censurada

E como os JRPGs seguem o mesmo rumo artístico dos animes, esse tipo de retratação artística também era bem perceptível neles. Essa dicotomia oriente/ocidente pode ser facilmente perceptível nas capas do primeiro Breath of Fire, de SNES, já que na capa japonesa temos Nina (a garota angelical de roupas curtas) em grande destaque, enquanto na americana ela fica bem tímida lá no fundo e o destaque fica pro Ryu parecendo Conan o Bárbaro na frente do artwork.

Acho que nem é preciso dizer qual é a capa americana e qual é a japonesa, né…

Em tempos de politização excessiva, de ideologias à flor da pele e de um público cada vez mais propenso a se sentir ofendido com qualquer coisa, as obras japonesas podem parecer apenas uma maneira de se vender material para masturbação masculina, contudo para quem já é acostumado a consumir não apenas JRPGs, como jogos no geral, animações e quadrinhos nipônicos sabe bem que isso está longe de ser uma verdade. O que temos é uma arte única e característica moldada durante a história e com um certo cunho sexual (já que tanto o kabuki quanto as gueixas e as oirans possuem origem sexual, direta ou indiretamente), que não é apenas expressado nas personagens femininas sensuais, de pouca roupa e de feições bonitas como nos homens, quase sempre sendo retratados mais jovens e afeminados.

O real problema que temos atualmente não é essa característica em si (que se expressa em personagens como Shiki de Samurai Shodown), já que é ela algo inerente à cultura japonesa (e convenhamos, essa exoticidade deles é o que faz ela parecer tão incrível aos nossos olhos) e sim ao EXCESSO disso, ao fato que estão colocando mulheres de pouca roupa e sexualmente sugestivas pra tudo quanto é lugar, especialmente devido à popularização das waifus e à ascenção do moe, que faz com que toda e qualquer personagem feminina pareça estética e pessoalmente forçadamente agradável, seja pra instigar um senso paternal no espectador (já que a personagem parece tão frágil) ou simplesmente desperte um apelo fetichista.

Eruca de Radiant Historia, um exemplo terrível de descaracterização causada pelo moe

Aquelas personagens belas, exóticas, que chamavam nossa atenção e instigavam nossa curiosidade, devido às demandas de mercado (já que as empresas descobriram que criar waifus fofinhas e bonitinhas de personalidade questionável é fácil e barato) estão se tornando cada vez mais algo raro de se ver e suas ausências passam a impressão de que todos os JRPGs são exatamente assim e que os WRPGs são o único bastião possível para boas personagens femininas. Porém, ainda temos Terra e Celes (ambas de Final Fantasy VI), Fee (de Atelier Iris 2), Maya e Ulala (de Persona 2), Lemina (de Lunar 2), Mystina (de Valkyrie Profile), Edna (de Tales of Zestiria), Deis (Breath of Fire), Farah (Tales of Eternia), Jakuri (Ar Tonelico 2), Ries (The Legend of Heroes – Trails in the Sky 3rd), Anise (Tales of the Abyss), entre várias outras, que sendo protagonistas de suas respectivas histórias ou não, ainda mostram que as personagens femininas de JPRGs têm muito mais a oferecer do que apenas um… Rostinho bonito.

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    davidchagas123 · 6 months ago · 4 pontos

    Acho que é pq os maiores consumidores são homens

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    ntampinha · 5 months ago · 3 pontos

    Pelo que reparei, as personagens de animes e JRPGs retratam o padrão de beleza irreal deles, essa coisa das meninas serem sempre magras é porque eles prezam a magreza, isso pra eles é que é bonito. Essa coisa da mocinha tímida, fofinha, que vive fazendo "nyah! >.<" e que precisa ser sempre protegida por um boy também faz parte do padrão bizarro que a mídia deles criou por lá, e é seguido principalmente pela população juvenil (e quem não se encaixa no padrão sofre bullyings pesados).
    A sexualização das personagens é um assunto a parte, então nem vou mencionar.
    Porém, assim como o Brasil só fazia programação com atrizes "padrão de beleza midiático", o Japão faz nos animes/jogos, gerando dezenas de personagens que parecem todas "iguais". A diferença é que o Br tem se esforçado pra trazer variedade de pessoas para as novelas e filmes, para desfazer esse padrão de beleza tosco que criaram com o tempo, mas acho que o Japão não amadureceu o bastante para se desprender dos seus conceitos de beleza perfeita...

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    hyuga · 6 months ago · 2 pontos

    no cavaleiros do zodiaco o afrodite, que é tido como o cavaleiro mais bonito, tem a aparência androgina ou até feminina demais e sempre me perguntei por que o padrão de beleza japonês é "praticamente" todo feminino

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    seufi · 6 months ago · 2 pontos

    Muito bom o artigo... permite compreender um pouco do porquê há este excesso (a meu ver) de sexualização das personagens...Pode ser algo cultural japonês, mas acaba que a gente vem consumindo isto há décadas, desde que "as esferas do dragão são tão macias" ou antes... Acaba que boa parte de nossas referências vem daí, e o fato é que hoje, se algo assim saísse do padrão, ficaríamos, acredito, estupefatos, surpresos - incomodados até. Também é fato que a coisa se intensificou bem de uns tempos pra cá, com a internet, já que o acesso, antes restrito a desenhos animados via TV aberto começou a explodir e agora está em todo lugar...

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    kalini · 6 months ago · 2 pontos

    Tem que erotizar mesmo, incluindo os homens, mas na medida certa, sem muito exagero pra não ficar forçado. O que é belo deve ser mostrado. E que os incomodados ofedidinhos que se retirem, ao invés de censurarem ^^

    O problema é quando sexualizam garotas com rosto e fisico que lembram uma criança, já que isso leva pro lado pedobear da força, haha!

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    juray · 6 months ago · 2 pontos

    Você acha que o mercado continua com essa pegada "waifu"?

    Na minha opinião as coisas estão mudando, pelo menos nos games Ocidentais!

    Tomb Raider (2013, Rise e Shadow), a Lara é quase uma freira. No Shadow então: Ou ela usa calça longa normal, ou uma bermuda quase até o joelho!

    Mortal Kombat! Comparando os MK9 (praticamente o ressurgimento da franquia) até o atual MK... Os corpos das personagens praticamente não são expostos.

    Gears 5... logo na capa do jogo a cara de uma mulher toda boladona e ainda protagonista!

    As mulheres estão consumindo mais jogos... então o mercado quer abocanhar essas clientes!

    No final tudo resumi em grana... o "politicamente correto" é só uma consequência... acredito eu! rsrs!

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    tassio · 6 months ago · 2 pontos

    Lembrei de duas personagens automaticamente: A mestra do Yusuke do Yu Yu Hakusho e a vó da Shampoo do Ranma 1/2

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    artigos · 5 months ago · 2 pontos

    Parabéns! Seu artigo virou destaque!

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    ntampinha · 5 months ago · 2 pontos

    Gostei bastante do artigo! Parabéns :)

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    kess · 5 months ago · 2 pontos

    Eu não vou reclamar. Tem muita coisa bonita, mas também tem muita coisa exagerada.

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    glofirndel · 5 months ago · 2 pontos

    Beleza vende, erotização vende, o quando planifica modelos de beleza vende melhor bastar repetir ao infinito. Eu acho que tem espaço para erotização, mas é bom que cada vez mais temos variações nas representações culturais.

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    hiroasura · 6 months ago · 3 pontos

    Infelizmente, podemos ver um aumento gritante no número destas personagens q seguem o arquétipo de "waifuzinha gostosa pra punheta masculina", e vou dizer que me sinto bem incomodado com isso, visto que acompanho o mercado de animes e mangás.
    Creio que isso se deva por parte da comunidade japonesa, na qual é bem machista e que parecer ter prazer em fetichizar e erotizar personagens de suas obras.
    Enfim, só queria falar um pouco sobre isso que me incomoda há algum tempo, continuem com o bom trabalho de sempre no Podcast, valeu.

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