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manoelnsn Manoel Nogueira

Só um nerd que curte rpgs...


2 meses atrás 2018-09-27

Lufia II: Rise of the Sinistrals

O primeiro título de alguma franquia de RPG japonês sempre tende a ficar ultrapassado com o passar dos anos, visto que seus sucessores vão evoluindo seus conceitos com o tempo, o que pode ser comparado a um diamante bruto, que aos poucos vai sendo lapidado. Isso é exatamente o que acontece com coisas como Dragon Quest, Final Fantasy, Breath of Fire e afins.

Mas não é o caso do primeiro Lufia. Esse jogo não é um diamante bruto, é só algum pedregulho inútil encontrado no entulho de alguma construção. Sério, ele é terrível, sendo basicamente um clone mal feito de Dragon Quest feito pela Taito na esperança de pegar uma fatia do bolo dos RPGs da era 16 bits. Obviamente que com tanta concorrência pesada, e a incompletude do mesmo, o jogo não fez o sucesso que pensavam e um bom tempo se passou sem que ninguém se lembrasse que esse funesto game um dia existiu.

Porém eis que 1995 chega e com ele... O segundo jogo da franquia Lufia? Como uma franquia, que se iniciou com um jogo terrível poderia dar certo? O jogo tinha tudo pra dar errado...

E , para a alegria de todos e felicidade geral dos jogadores de RPGs japoneses... Não deu!

Com relação à storytelling, o jogo é uma prequel do primeiro Lufia e conta a história do quarteto que derrotou os Sinistrals(4 capetões que queriam destruir o mundo). liderados por Maxim e sua Dualblade. Com isso o contexto épico estava formado, o elenco também e o jogo já começa com um belo cenário pra uma boa história...

Entretanto nesse ponto o jogo peca em alguns pontos. Porque ao invés de já fazer os 4 personagens principais se encontrarem de uma vez e irem derrotar o quarteto demoníaco, o jogo te joga vários eventos de menor importância apenas pra adiar o máximo possível o embate final. Por exemplo, essa personagem, Tia: ela é gamada no Maxim, mas pra quem jogou o primeiro Lufia sabe que ele se casa com Selam(um dos 4 que derrotam os sinistrals), ou seja: ela só entra na história pra levar um pé no traseiro! Também tem outros personagens, como o guerreiro Dekar ou o cientista Lexis, mas todos saem ocasionalmente para a entrada daqueles heróis da lenda: o cavaleiro Guy e o elfo Artea.

Mas mesmo assim, a trama tem seus pontos interessantes. Como o casal Maxim e Selan se casando no meio da história e tendo um filho(cuja descendência desembocaria no protagonista de Lufia 1), e mesmo com uma família pra criar, ambos ainda lutam juntos. Outra coisa legal é ver como Erin, a sinistral que reencarna em Lufia no primeiro game, já tinha certa humanização aqui e até ajuda Maxim e cia durante boa parte do jogo.

O jogo tem até umas piadinhas, nada do nível da comédia de Final Fantasy VI por exemplo, mas dá um boa descontraída pra história

No final da batalha contra os 4 Sinistrals, Guy e Artea sobrevivem, mas Maxim e Selan morrem, tal como é mostrado no primeiro jogo. 

Então no fim das contas, mesmo que de forma bem simplificada, o enredo de Lufia 2 se sai até bem. Claro que poderia ter sido mais direto  e ter ligado de uma vez os 4 heróis lendários ao invés de perder tempo com outros, mas... É algo BEEEM melhor do que a briguinha de namorados de Lufia e do protagonista que acontece no primeiro jogo inteiro.

Porém é no gameplay onde Lufia 2 realmente brilha. Ele continua sendo um RPG de turnos como seu antecessor, mas as semelhanças param aí. As batalhas não são mais em primeira pessoa e após o input do personagem ser dado essa tela desaparece e os personagens surgem na tela de costas, fazendo suas ações.

Outra adição interessante que o jogo trouxe foi a adição da barra IP, ou(Ikari Points, pontos de raiva) que funcionam como um Limit Break de Final Fantasy VII, só que mais primitivo, onde a cada golpe que seu personagem leva a barra aumenta um pouco e com isso o personagem poderá usar ataques especiais, dependendo do tipo de equipamento que estiver usando.

Alguns ataques podem ser extremamente poderosos, outros servem de suporte mesmo, curando HP e afins

Em batalha o jogador pode controlar 4 personagens de uma única vez, e dois destes sempre ficarão na linha de frente(onde causarão mais dano físico) e os outros na retaguarda(onde levarão menos dano de ataques físicos do adversário). Durante o game 7 se tornam membros da party, seja temporária ou permanentemente.

Maxim é o protagonista, obrigatório durante todo o jogo. Tal como seu descendente no primeiro game, ele tem um alto ataque físico, mas também acesso a magias, sendo útil como suporte, dependendo da situação. 

Tia é uma amiga de Maxim, e é caidinha por ele. Acaba seguindo o cavaleiro na esperança que ele corresponda seus sentimentos, mas tem o seu tapete puxado por Selan e sai de fininho da party. Em batalha ela é uma usuária de magia bem eficiente, e vai salvar sua pele em vários momentos no começo do game, até ela ser substituída por sua rival.

Selan é a a respeitada guerreira de um reino que Maxim e cia passam, e ela fisga o cavaleiro rapidinho(apenas compare o artwork dela e da Tia e veja o porquê da escolha de Maxim ser óbvia: uma garotinha meiga do interior não tem chance contra uma linda mulher guerreira). Em batalha Selan é a principal usuária de magia(assim que Tia sai do time) e faz um grande estrago com suas conjurações. 

Guy chega a aparecer no Lufia 1, sendo um velho caquético que sobreviveu ao primeiro ataque dos Sinistrals. Aqui em Lufia 2 ele está no vigor da sua juventude e tal como Aguro do jogo anterior, ele é o atacante físico do time, e sequer possui acesso à magias. Com o sistema de IPs, Guy pode causar altos estragos nos oponentes, e também é sempre o último a morrer em uma batalha difícil, devido a seu alto HP.

Dekar é uma versão mais poderosa de Guy e entra na equipe pouco tempo antes de Tia sair. E sai pouco tempo após Selan e Maxim terem um filho, aparentemente morrendo no desabar de uma torre, mas aparecendo no final do game fazendo o que sabe fazer de melhor: detonar tudo. Se Guy não fosse obrigatório Dekar com certeza seria o substituto perfeito pra ele, mas infelizmente o jogo não te dá essa regalia.

Lexis é um cientista que constrói o navio/submarino/airship do jogo e fica na party um tempo ínfimo. Ele é um mago relativamente poderoso, mas devido ao seu pouco tempo de permanência na equipe, o jogador não terá tempo de aproveitar seu potencial, infelizmente.

E por fim, Artea, um elfo que entra na equipe relativamente tarde, e se torna obrigatório o resto do jogo(já que ele é um dos heróis da lenda, junto com Maxim, Selan e Guy). No primeiro Lufia ele ainda estava vivo e suas habilidades com arco eram lendárias, e apesar de seu sprite segurar uma espada e um escudo, ele realmente possui um arco que acerta todos os inimigos de uma vez. Contudo seu real potencial são suas magias, que além de ser bem poderoso com elas também tem acesso as duas únicas magias do elemento luz do jogo, sendo letal pra muitos inimigos, e a maioria dos bosses.

Infelizmente Lufia 2 tem essa mania terrível de retirar membros eficientes da party no meio do jogo e não te dar nada que compense isso, fazendo todo seu empenho com algum deles ir pro ralo. Claro que, para quem já jogou Lufia 1 já sabia de antemão que Tia, Lexis e Dekar não ficariam muito tempo na equipe, mas mesmo assim é algo um tanto improdutivo, e já que eles iriam sair da equipe pra não mais voltar, nem deveriam ter entrado a priori.

Além dos 4 personagens jogáveis também é possível ter uma ajuda extra nas batalhas: os capsule monsters(tipo Pokémon mesmo), que não podem ser controlados diretamente, mas podem destruir inimigos ou mesmo te curar. Você não pode curá-los com magias ou itens, mas se morrerem em batalha, voltam na próxima com HP cheio.

Existem 7 tipos diferentes de capsule monsters, cada um com skills e stats diferentes, e eles são encontrados no meio das dungeons do game. Eles também podem crescer se você alimentá-los com itens(mais uma vez a semelhança com Pokémon, mas como Lufia 2 é mais antigo, quem sabe a Gamefreaks não se baseou neles para criar o jogo pra Game Boy?), dando uma boa variedade de arsenal pro jogador. Seria bem mais interessante se todos eles fossem disponíveis desde o começo e você já pudesse escolher o da sua preferência, mas como estão espalhados em diferentes dungeons(e momentos) do gameplay é mais produtivo pegar qualquer um, treiná-lo até o nível Master, e ignorar todos os outros.

No overworld as batalhas são randômicas, mas com o desenrolar do jogo você adquire meios de transporte: um navio, um submarino e uma aeronave, deixando as viagens bem mais tranquilas.

                            Algumas áreas só são acessíveis via submarino, aliás

As dungeons no primeiro Lufia eram um verdadeiro inferno, repletas de batalhas random constantes, alguns puzzles irritantes, designs bem genéricos, além de um backtracking relativamente grande... Os puzzles e o design ruim continuaram, mas todo o resto foi bem melhorado: dificilmente precisará voltar em uma dungeon anteriormente passada e as batalhas deixaram de ser randômicas.

Os inimigos agora são visíveis e eles se movem em uma direção específica dependendo do input que você fizer no direcional. É possível começar a batalha com prioridade caso encoste neles sem que te vejam o o contrário também pode acontecer

Batalhas random em si não são um demérito de nenhum RPG(ainda mais nos 16 bits onde abdicar delas normalmente implicava em um sistema de combate mais simplificado), contudo em um jogo onde existem puzzles pra se fazer elas se tornam um suplício, e como Lufia 2 possui uma grande quantidade destes, a abdicação dos encontros aleatórios foi uma bela escolha.

Ah sim, os puzzles... Lufia 2 tem muitos, MUITOS deles. Em todas as dungeons do game(exceto na última) eles são o verdadeiro desafio e não as batalhas contra os monstros ou os bosses que normalmente existem no final das mesmas. Eles não são necessariamente coisas extremamente complexas e todos podem ser resolvidos com uma lógica bem simples, mas a existência de inimigos enquanto o mesmo está sendo concluído pode ser bem uma experiência bem irritante para alguns. 

Porém esse não é um problema em si. E sim o fato que muitos dos puzzles do game não fazem o menor sentido no lugar em que se encontram. Por exemplo, em uma torre onde um dos sinistrals está no alto esperando pra te matar você precisa... Mover blocos coloridos ou acender luzinhas aleatórias...

Alguns são bem sugestivos, como mover pontes pra passar áreas alagadas ou jogar blocos de gelo na lava. Também tem um ponto interessante em muitos deles, que é a utilização de gadgets, como ganchos e bombas, no melhor estilo Zelda.

Aliás, Lufia 2 é extremamente inspirado em Zelda, seja por gadgets ou pelo fato que o Maxim sempre levanta algum item novo por cima da cabeça enquanto toca um som sugestivo. 

Isso não é de maneira nenhuma um ponto negativo. Em Lufia 1 o jogo se baseou apenas em Dragon Quest e se tornou uma cópia mal feita, enquanto aqui no 2 mantiveram elementos do primeiro game, mas adicionaram elementos de Zelda e muita coisa extra, resultando em algo muito bom.

Em Lufia 2 também existe o Egg Dragon(que já existia no primeiro game). Ele pode realizar 4 desejos diferentes e ao conseguir todos eles(após um desejo concedido os ovos se espalham pelas dungeons do mundo em baús) o jogador tem a opção de enfrentá-lo. E obviamente ele não é um adversário fácil.

Falando em dificuldade, Lufia 2 não é necessariamente um jogo difícil. É bem fácil conseguir subir de nível aqui, e as magias são conseguidas em lojas e não por level up, portanto o jogador não terá lá muitas dificuldades. Os maiores desafios do jogo são o Egg Dragon e a Ancient cave, uma dungeon de 99 andares onde você perde todos seus itens, levels e só ganha algumas potions pra sobreviver.

Graficamente falando, Lufia 2 é muito bonito. Bem mais que seu sucessor. Infelizmente boa parte das dungeons são bem genéricas e repetem várias vezes o mesmo cenário, especialmente das torres.

Com relação ao jogo anterior, os menus estão mais organizados e não possuem mais aquela cara de "jogo de NES". Contudo, alguns problemas ainda persistiram, como o jogo não ter um world map, os itens continuarem sem descrição e as magias continuarem com nomes nada intuitivos(tipo Strong pra curar HP, Fake pra aumentar speed e por aí vai). 

E falando em descrições, a versão americana do game é cheia de erros de tradução grotescos, textos bugados e até glitches gráficos. Felizmente o game tem vários pontos positivos que compensem isso, e as versões Europeias possuem uma tradução melhor.

Concluindo...

Lufia 2 tinha tudo pra ser um jogo terrível, tendo em vista o seu antecessor, que foi medíocre em todos os sentidos. Felizmente fizeram um ótimo trabalho e  conseguiram fazer uma sequência excelente, que mesmo tendo seus problemas, tem sim o seu brilho e pode, por que não, ter um lugar de destaque entre os melhores jRPGs da era de ouro do gênero, os 16 bits.

8.5 8.5 10
Nota Geral
8.0 Jogabilidade
7.5 História
7.0 Música
9.0 Gráficos
Melhorias em praticamente tudo do primeiro game
Adições bem interessantes pro sistema de batalha, como Capsule monsters e Ips
Batalhas não randômicas, para não atrapalhar o raciocínio para os puzzles
Gráficos muito bonitos
Três personagens descartáveis
Design da maioria das dungeons um tanto genérico
Grande quantidade de puzzles nada coerentes com a dungeon que aparecem
Alguns problemas teimaram em continuar, como itens sem descrição

21 de usuários gostaram desta crítica.


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