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thecriticgames Matheus Pontes

O Bruce Wayne do Alvanista. "BY THE PEOPLE FOR THE PEOPLE"


8 months ago 2019-04-14

Transistor

Jogos indies estão se destacando e tomando os holofotes de tempos pra cá, a Supergiant Games conseguiu notável apreciação dos jogadores nesse mercado em 2011 com Bastion que recebeu diversos prêmios inclusive, indo em algumas ideias do mesmo em 2014 a empresa novamente partiu para o ataque com um novo titulo próprio que usa alguns poucos elementos de Bastion, e outros originais, Transistor.

O jogo já tem um charme incrível pelo seu inicio e apresentação, ao dar start nada de explicações ou de tutoriais maiores, o jogo já se inicia numa enigmática cutscene de quadros artísticos semi-animados, similar ao que se via em Bastion mas com um estilo diferente, nela uma jovem ruiva aparece em aparente luto próximo a o corpo de um homem que tem uma espada cravada em seu peito, a espada inicia um dialogo unilateral com ela dizendo que os dois não vão se safar com segurança disso, a jovem Red uma popular cantora em ascensão na cidade de Cloudbank onde o jogo se passa teve sua voz roubada por um misterioso grupo influente de Cloudbank conhecido como Camerata, o mesmo por sua vez é dono da espada Transistor, uma sofisticada ferramenta capaz de matar pessoas e gravar a consciência das mesmas dentro dela, destino este da voz de Red e da consciência da atual voz da lamina tecnológica. 

A bélissima arte do game nas cutscenes do mesmo.

Assumimos o controle de Red em uma perspectiva isométrica assim como em Bastion na qual vagamos com ela e com a espada pelas ruas de Cloudbank de tempos em tempos tendo de encarar o Processo, seres robóticos a serviço da Camerata e principais inimigos do game, os combates ocorrem em tempo real, aqui Red encara os seres robóticos em tempo real utilizando skills equipadas num dos 4 botões de ação do console, alem do combate em tempo real o jogador pode usar o "Turn()" um mecanismo no qual você decide as ações a serem realizadas como onde se mover e quem atacar para que Red execute as ações rapidamente num piscar de olhos sem ser contra-atacada, apenas ficando sem acesso ao Turn() por alguns segundos. Skills são conquistadas subindo de nível e em pontos chaves da aventura e podem ser usadas de até três formas diferentes, você pode usa-las diretamente através de um dos botões de ação, pode equipa-las com um buff para uma skill principal o que gera uma mistura de ambas não apenas nos efeitos mas tambem visualmente, ou pode equipa-las como uma passiva a medida claro que o slot para tais circunstancias forem liberados. A mecanica de mistura é uma das mais interessantes do jogo as skills ou funções como são denominadas no jogo são 16 ao todo e suas diferentes misturas são feitas para casar com diferentes estilos de gameplay, misture o Help() por exemplo que invoca um Processo aliado na forma de um lobo com o Mask() que te deixa invisível temporariamente e você terá um lobo capaz de causar mais dano ao atacar inimigos pelas costas, equipe o Mask() primeiro e o Help() como um buff ao invés disso e você ficara invisível deixando uma cópia sua para trás para distrair os inimigos enquanto foge, as skills não aceitam apenas 1 buff mas dois, um ataque na forma de um raio de curta a distancia pode passar a percorrer uma longa distancia e ser teleguiado com a função certa buffando a principal, ou se trocar o ultimo efeito ela pode percorrer uma longa distancia se fragmentando em diversos raios para diferentes lados, ou ainda se mais uma troca de funções ser feita ela pode ser uma onda curta, teleguiada e que atinge vários alvos, o sistema preza pela experimentação sem penalizar o jogador que prefere ficar preso a uma skill, ele encoraja a mudança para o jogador descobrir cada vez novas combinações, e elas são facilmente mais de 200 diferentes.

O número de combinações proporcionada pelas diferente funções do jogo é absurdo, só considerando as 16 funções isoladas e as combinações da mesma com um buff o numero chega a 272 combinações de ataque diferentes, se considerarmos então a inclusão de um segundo buff o número chega a um valor escatológico.

A trama vai se desdobrando para o jogador a medida que se joga e por mais formas do que a mera narrativa linear, a lamina tem um papel similar ao de Rucks em Bastion, mas muito melhor por não ser um simples narrador, mas um personagem participando de toda a ação ao seu lado, através dos diálogos do mesmo vamos conhecendo um pouco do mundo e da cidade de Cloudbank, uma cidade tecnologicamente avançada que sempre muda sua aparência através de enquetes feitas em terminais especiais os terminais OVC, mudanças como o clima, a cor do céu, todas artificialmente ditadas pela vontade do povo e modificadas pelo Processo, formas de vida robóticas aparentemente a serviço da Camerata e que são a principal ameaça durante o jogo. Parte da história e dos detalhes do interessantíssimo mundo que o cerca são revelados em segundo plano também, nos terminais mencionados com enquetes e mudanças para a população Red pode falar o que pensa para o Transistor ao digitar o seu dialogo em forma de comentário sobre tais questões nos terminais (uma forma inteligente e pratica da protagonista muda conversar com seu amigo robótico) ao mesmo tempo que pode votar em que acompanhamos através dos mesmos noticias com diferentes situações da cidade, as funções, as skills do Transistor são todas criadas a partir da consciencia absorvida na lamina (como é o caso da voz da própria espada e de tantas outras vitimas humanas da mesma) ou de consciências copiadas para ela (como é o caso de Red, ainda viva mas sem a sua voz)  e através delas podemos checar toda uma trajetória e histórico de diferentes figuras chaves de Cloudbank incluindo nossos personagens e o motivo deles serem importantes na cidade, as skills não revelam todas as informações sobre a pessoa logo de cara, para isso é necessário usar a função em cada uma das três posições ao menos uma vez cada, como skill de combate, como buff e como passiva (uma forma de recompensa extra pela experimentação) ao usar em uma destas uma informação nova sobre a pessoa é revelada tecendo mais informações e construindo o background da cidade e de seus moradores.

Os objetos brancos localizados em meio aos cenários são nada mais nada menos que árvores, flores e outros objetos completamente apagados pelo Processo e sem uma nova forma definida pelos mesmos.

Alem da missão principal em dadas partes do jogo Red pode acessar uma localização especial similar ao titular Bastion de Bastion, não para equipar itens nem nada, mas uma espécie de lugar de repouso onde o personagem pode interagir com Luna, um processo amigável na forma de lobo similar aos invocáveis pela função Help(), pode escutar diferentes músicas do jogo e pode realizar diferentes treinamentos que testam a velocidade, a eficiência, a resiliência do jogador, os mesmos não apenas dão XP extra mas tambem mostram ao jogador diferentes combinações na pratica, os mesmos tambem dão conquistas e liberam novas musicas ao serem concluídos, alem disso a cada visita a rede pode ser usada para descansar e ouvir um novo reflexo do Transistor a respeito das ultimas descobertas, a diferença para o Bastion do jogo homônimo é que o ultimo era acessado ao voltar das missões como um lobby, este aqui é acessado somente quando uma porta secreta se abre a você. Os processos inimigos podem te detonar durante caso você não seja ligeiro, a dificuldade do jogo é mediana, mas consideravelmente mais alta do que em Bastion, ao ter sua vida zerada o Transistor ativara o Turn() emergencial te dando a chance de correr para algum canto com a vida quase zerada, e quando a mesma for realmente zerada você perdera uma das funções de ataque, no caso a mais usada (marcada por um feixe de luz dourado acima e envolta do icone da mesma), esta sera recuperada gradualmente a medida que acessa os pontos de salvamento do jogo onde se pode trocar de funções, a vida de Red sera preenchida a cada função perdida o que da essencialmente 5 barras de vida para a personagem, mas que não deixa o jogador ser descuidado por castiga-lo com a retirada de suas skills por alguns combates. O Processo também tem sua cota de background e isso é revelado por meio de um sistema de debuffs IDÊNTICO ao sistema de deuses de Bastion, ao liberar o sistema de limitadores o jogador pode equipar diferentes limitadores, cada um tendo um diferente processo como base, o mesmo ira ou te deixar mais fraco ou deixar os inimigos mais fortes, mas te recompensara com mais XP, e ao ser utilizado ao menos uma unica vez cada limitador o mesmo revela varias informações daquele dado inimigos.

Ser uma cantora sem voz não impede Red de cantar, ao segurar o L1 a protagonista começa a murmurar abraçado a Transistor (aparentemente usando o cabo da mesma como microfone), e a mesma murmura diferente de acordo com a musica de fundo, mas sempre no ritmo da musica tocada, isso pode ser visto especialmente nas salas de treino.

Os graficos do jogo são donos de um estilo visual e artístico incrivelmente bonitos, muito mais do que os de Bastion, tanto em carácter design como em cenários e afins, mesmo com toda a frieza que deve se ter em cenários futurísticos tecnológicos, e que casam bem demais com a proposta e temática do jogo. Some isso a excelente trilha sonora do jogo composta novamente por Darren Korb o qual define o estilo desta como "Pós-rock eletrônico do mundo antigo", a mesma usa de instrumentos como guitarras e sintetizadores para casar com a temática futurística mas também de violino e acordeons para casar com o aspecto romântico e mais sensível da história, a musica é demasiadamente importante em Transistor devido a personagem ser uma cantora sem voz, o voice acting também é dono de ótimas vozes, Ashley Lynn Barrett que da voz a Red canta também diferentes canções da mesma ouvidas em diferentes partes do jogo e desbloqueadas, temas como "The Spine", "In Circles", "We All Become", "Signals", e o excelentíssimo "Paper Boats" ditam o clima romântico trágico da história, o Transistor dublado por Logan Cunningham também rouba a cena, com seu tom de voz forte e protetor com Red, o mesmo se mostra uma figura preocupada com o bem estar da heroína e com o pessimista futuro de ambos em sua busca por respostas, ele é cheio de personalidade sem ser caricato ou irritante em ponto algum do game o que é um merito visto que este elemento por vezes rende figuras bem antipáticas no mundo dos games (Hey Listen! Leon Help!!), a lamina e seu dono enigmático ajudam a remontar a tragédia que é a história de Transistor, e para os donos de PS4 a imersão proposta pela apresentação do jogo pode ser aumentada ainda mais com a capacidade de se alocar nas opções a voz do Transistor para o alto falante do PS4 lhe dando a mesma sensação de Red, de carregar o objeto que fala com você (jogar sem este recurso é uma oportunidade perdida para toda a vida de experimentar o jogo em todo o seu potencial).

Apesar da história e da relação de ambos ser mais uma tragédia a alguns poucos momentos leves proporcionados entre eles com auxilio do próprio Transistor, em dado momento do jogo por exemplo a espada fica sobre um efeito "febril", se tentar murmurar alguma musica com o L1 nestas situações, quase sempre a espada ira cantarolar junto de Red em cenas bem legais.

Com todas as suas qualidades Transistor tem também os seus poréns, a trama do jogo demasiadamente fragmentada, assim como a sua própria apresentação sem tutoriais pode deixar o jogador boiando com o que ocorre no jogo e até com recursos de gameplay, eu por exemplo demorei bastante tempo para sacar e compreender elementos tanto de história como de gameplay e isso não é um caso isolado infelizmente, a reclamação deste aspecto é múltipla, a fragmentação de plot acaba deixando muita gente sem entender a história o que faz algumas pessoas simplesmente começarem a ignorar a mesma e seguir em frente em modo automático o que é um tremendo problema visto o quão interessante é a mesma. Transistor tem uma ótima história contada por uma narrativa interessante mas longe de perfeita nesse ponto, não é todo mundo que vai se adequar a forma que a trama é contada, não apenas isso com respeito ao gameplay o percurso do jogo é demasiadamente linear, isso foi colocado para não se desviar da história e narrativa principal, mas ainda sim é um erro colocar o jogador sobre trilhos quando se tem um mundo interessante a ser explorado fora destes. Ainda com seus problemas Transistor se prova um jogo indie incrível, uma obrigação para fãs de RPGs de ação e dono de uma história envolvente.

9.3 9.3 10
Overall
8.5 Gameplay
9.0 Story
10 Music
10 Graphics
Charme, trilha sonora, visual estilizado,apresentação, imersão, sistema de combate e história envolvendo um mundo e personagens devidamente interessantes.
Trama por vezes demasiadamente vaga e percurso linear do jogo.

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