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netobtu João Paulo Bonome Neto

Bio: shock


about 6 years ago 2013-05-07

BioShock Infinite

Depois de muito tempo zerei Bioshock Infinite. Todo mundo já tinha zerado, todo mundo bradando aos quatro ventos o quão perfeito e maravilhoso o jogo era, que era o melhor jogo da geração, o melhor do ano, que era equivalente à vinda de Jesus Cristo vestido de Exterminador do Futuro e comendo pipoca doce... enfim, vamos ao que eu achei mesmo do jogo.

O jogo conta os eventos passados em Columbia durante a visita nada agradável de Booker DeWitt, chamado de Falso Pastor, que está buscando uma garota para "pagar sua dívida" (qual é a dívida, não sabemos de início). O jogo se passa em antes da Primeira Guerra Mundial, ou seja, muuuuuuuuuuuuuuito antes de Bioshock e Bioshock 2, que se passam após a II GM.

Tudo em Columbia e na vida de Booker gira em torno da garota Elizabeth, que possui estranhos poderes paranormais de abrir fendas que mostram eventos em outro tempo e espaço. Mas esse não é um jogo essencialmente de viagem no tempo. Bioshock Infinite é um jogo de possibilidades e mexe bastante com física quântica. Não é necessário, no entanto, entender disso para compreender satisfatoriamente o enredo do jogo.

Mais uma vez, como em todo Bioshock, a narrativa é simplesmente sensacional. A mescla de gameplay com story telling é fantástica, e coisas acessórias ao enredo vão sendo descobertas de acordo com a coleta de Voxophones, que são, no fim das contas, iguais às gravações de voz de Bioshock.

Já que Infinite é de uma franquia aclamada, é impossível jogá-lo sem compará-lo com, pelo menos, o primeiro jogo da série, especialmente em questão de enredo. Ambos tratam de uma realidade alternativa: Rapture era uma cidade embaixo do mar, (a)fundada por um homem que não quis seguir nem o modelo capitalista e nem o socialista e então fundou-a. Columbia segue um caminho semelhante, porém com um cunho mais profético e religioso. E se Rapture estava em meio a uma guerra civil em nossas visitas, praticamente abandonada ao caos, Columbia é resplandecente e a vida flui.

É uma cidade feliz, porém essa felicidade é artificial. Recentemente li 1984 e estou no final de Admirável Mundo Novo, e ambos acabam por tratar de Estados totalitários, veneração de líderes (mais o 1984) praticamente de forma religiosa (Columbia é assim), e também no que toca à felicidade e liberdade. Ninguém é livre em Columbia, porém todos são felizes no seio do Profeta Comstock, o líder da cidade, que a ergueu da Sodoma abaixo, ou seja, os Estados Unidos do começo do século passado (se bem que toda essa Sodoma é uma referência à totalidade do planeta Terra). E não entra na minha cabeça felicidade sem liberdade... por isso ela me soa artificial. Tudo bem que há uma resistência, a Vox Populi, mas esta é muito clandestina e praticamente inofensiva perante o arsenal do Profeta.

O que acontece em Columbia é um reflexo dos Estados Unidos daquela época: o racismo está impregnado. Negros são considerados menos do que seres humanos, apesar de não serem escravos, irlandeses são postos em campos de trabalho forçados e vivem em favelas, tidos como bêbados e vagabundos. O jogo é extremamente forte nesse sentido, e bastante histórico. Bioshock Infinite é um prato cheio para um estudo histórico e social, posto que é reflexo de um sistema existente na época - assim como foi em Bioshock sob o domínio de Andrew Ryan (peço desculpas por não compreender tanto do enredo de Bioshock 2, que estava sob o domínio de Sofia Lamb... seria interessante saber, pois o caráter religioso dela poderia servir de comparação para com Comstock).

Bom, chega de falar de enredo e vamos falar de jogabilidade. Bioshock Infinite é um first person shooter com um quê de platformer (bem sutil, aliás). Columbia, sendo toda equipada com "trilhos suspensos", permite a Booker uma navegação através deles para encontrar melhores ângulos de tiros, atacar com ferocidade a partir de lá, bem como alcançar outros lugares.

O jogo é como um "dual-wield", ou seja, os dois gatilhos do controle servem de ataque. O da direita ataca com armas de fogo - e há um belo arsenal à disposição, com pistolas, metralhadoras, shotguns, bazucas, lança-granadas, etc - enquanto o da esquerda serve para utilizar os vigores - também há uma boa quantidade destes - que vão sendo encontrados ao longo do caminho, e que servem basicamente para o combate.

É importante destacar que tudo em Bioshock Infinite é "upável": armas e vigores requerem dinheiro; e vida, escudo e medidor de sal (que serve para desferir vigores) requerem uma boa exploração para encontrar frascos que sirvam para tanto.

Exploração é um ponto crucial no jogo, por sinal. Columbia está cheia de portas (e outras invisíveis - zere e entenderá hehe) e coisas escondidas. É importante tentar rodar o cenário todo em busca de Voxophones, moedas, frascos de sal, comida (para recuperar a vida), equipamentos (boa adição, por sinal!) e, acima de tudo, encontrar as chamadas gazuas. Elas servem para abrir portas trancadas, e possuir muitas delas é a chave para encontrar objetos valiosos e ficar sempre com uma bolsa gorda (e você vai querer isso, afinal fazer upgrade de vigores é MUITO CARO).

Uma coisa que eu não gostei no jogo foi o lance de não haver morte. Quando a vida é drenada, Booker é ressuscitado próximo ao local da batalha, perde um tanto de dinheiro (e é um boooom tanto), tem sua vida recuperada (ou parcialmente, dependendo do equipamento utilizado) e os inimigos já mortos permanecem mortos e os vivos recuperam parte da vida... bom, por que eu não gostei disso: meio que vira um vício de tentativa e erro sem muito incentivo para a criação de uma boa estratégia. Mesmo quando o dinheiro acaba, Booker continua sendo ressuscitado. Tudo bem que isso muda no modo 1999, mas este só abre após a primeira zerada. Joguei no modo difícil e é realmente difícil, para não dizer desbalanceado... parece que criaram situações tão à beira do impossível que foi por isso que o modo de morrer foi feito dessa forma. Enfim, é algo que me irritou um pouco. Bem, depois da metade do jogo peguei mais as manhas e comecei a morrer bem menos, mas mesmo assim esse negócio continuou me irritando... sei lá :P

Uma coisa legal é que Elizabeth não precisa de defesa: ela sabe cuidar de si (apesar de que jamais vai atacar um inimigo), e além do mais procura itens pelo cenário durante a batalha. Quando suas balas estão acabando, ela logo encontrará um pouco por aí para jogar a Booker e recarregá-lo. Mas isso não acontece sempre, o que é bom, e exige do jogador um pouco de gerenciamento de recursos, além de se fazer necessário procurar balas por aí, mesmo no calor da batalha, bem como sais e vida.

Outra boa utilidade de Elizabeth é que ela abre fendas temporais que contêm boas coisas: um autômato que vai atirar nos inimigos, kits de primeiros-socorros, balas, outras armas, chão molhado para criar um campo eletrificado quando acertado com o vigor certo... enfim, muito mais há espalhado, auxiliando numa boa variedade - e também controle por parte do jogador - do level design.

Gostei da variedade dos inimigos, que vêm com várias armas diferentes, autômatos que atiram assim que o vêem, outros com armaduras e poderes diferentes, além dos dois inimigos mais resistentes do jogo: o Patriota e o Handyman. O primeiro é um autômato armado com uma metralhadora de alavanca que vai drenar sua vida e escudo rapidamente, e que possui ponto fraco nas costas - dificílimo de ser acertado, o melhor a fazer é conseguir uma distração ou utilizar vigores poderosos, como o Assalto. Já o segundo é o Big Daddy do jogo, extremamente rápido, bruto e violento; ficar perto dele é loucura, e é muito resistente, tendo o ponto fraco na frente, no coração, bem difícil de ser derrubado com armas leves ou sem a utilização de vigores, exigindo uma boa movimentação pelo cenário e também pelos trilhos suspensos.

Quanto ao trabalho sonoro do jogo, é extremamente bem feito, como é de praxe nessa geração. A dublagem é ótima, e os efeitos seguem o mesmo nível. As músicas são boas e tensas, porém achei que poderiam ter mudado um pouco mais as músicas em situações de combates, que sempre é (ou pelo menos foi o que eu reparei) aquele tom de violino bem tenso... talvez se as músicas de combate variassem um pouco mais fosse mais satisfatório.

Visualmente, Bioshock Infinite é lindo. Isso no PC deve estar coisa de louco. Joguei no PS3, aguentei os serrotes enormes e as texturas explodindo em muitas partes. Mas não dá pra negar: Bioshock Infinite parece uma pintura. A arte desse jogo é maravilhosa, além da Elizabeth ser muito expressiva e ser impossível não se afeiçoar a ela, especialmente por causa disso. Gostei muito da arte, e textura estourando e serrote algum tirarão mérito disso. Mais uma vez Bioshock nos entregou uma experiência steampunk linda nesse caso (eu sei que Rapture é dieselpunk), Columbia é maravilhosa.

A diferença primordial visualmente dela para Rapture é em relação a claridade. Columbia é quase sempre viva e cheia de luz, enquanto Rapture era escura, sombria. No entanto, há partes da cidade do céu que, devido à bizarrice e estranheza, acabam nos remetendo à cidade submersa.

Enfim, Bioshock Infinite é uma excelente adição à série. É um jogo maravilhoso, em tudo. Apesar de eu ter me irritado com aquelas coisas de ressuscitar, o jogo é tão perfeitamente aliado ao enredo de forma fluída que não consigo deixar isso me fazer não gostar do jogo. Pelo contrário, gostei demais mesmo. É uma boa adição à série, não é um spin of qualquer nem nada do tipo, Columbia está perfeitamente inserida no mesmo universo de Rapture.

E se vocês querem saber se é o meu Bioshock preferido, devo dizer que em questão de enredo... não. Meu preferido é o primeiro nesse sentido. Andrew Ryan é o suprassumo de uma mente deturpada à frente de uma distopia. Porém, Infinite vai mais além nesse campo, trazendo discussões sobre o que é realidade, física quântica e etc. Em questão de jogabilidade, Infinite leva a série a um patamar mais acima, com vigores muito interessantes e a introdução de equipamentos para deixar DeWitt mais robusto, portanto devo dar muito crédito ao jogo por isso, sem contar que o level design é mais bem pensado e estruturado, com mais possibilidades, devido às habilidades da Elizabeth.

Visitem Columbia vestindo o manto do Falso Pastor. Vocês não vão se arrepender.

9.0 9.0 10
Overall
8.5 Gameplay
9.5 Story
9.0 Music
10 Graphics

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