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filipessoa lipherus

Gosto de jogar, gravar e escrever sobre minhas experiências nos videogames.


over 1 year ago 2018-01-10

The Walking Dead: The Game

 Simples, lindo e emocionante, The Walking Dead: The Game nos mostra que, em um mundo dominado pelos mortos, os vivos é que são o verdadeiro problema.

     Apesar de não acompanhar as histórias em quadrinhos, eu sempre fui um fã assíduo da série de televisão de The Walking Dead e toda aquela atmosfera de mundo pós-apocalíptico dominado por zumbis. Mas o que diabos faz ela se destacar de outras quatrocentas milhões de séries, filmes e jogos que também abordam os mortos-vivos? É que os zumbis não são e nunca foram o fator mais importante do programa, e sim o desenvolvimento dos personagens que tentam sobreviver naquele admirável mundo cruel; para mim isto foi e sempre será a essência de The Walking Dead e confesso que fiquei impressionado em como o jogo da Telltale Games capturou tudo o que eu mais queria ver em algo baseado neste universo.

     The Walking Dead: The Game (também conhecido como The Walking Dead: Season One) é um jogo dividido em cinco episódios e mais um extra lançado como expansão de conteúdo intitulado The Walking Dead: 400 Days. Lançado em abril de 2012, o jogo segue a jornada de Lee Everett, um ex-professor de História que estava sendo levado sob custódia por ter cometido um crime, quando a viatura em que estava sofre um acidente e ele acorda em um mundo já dominado pela praga zumbi. Desorientado, ele se abriga em uma casa e lá conhece uma garotinha tentando sobreviver, seu nome é Clementine. Lee, certo de que os pais dela (os antigos residentes da casa) não estavam mais entre os vivos, resolve tomar conta dela e assim o jogo inteiro se desenvolve.

Lee sobrevive a um acidente de carro e acorda em um mundo infestado de mortos-vivos.

     Achei curioso que os eventos iniciais do jogo são ligeiramente semelhantes com o que acontece no começo da série de televisão, digo, temos o protagonista, acidente, desmaio, acorda em mundo já dominado pelos zumbis e tentativa de sobrevivência partir dali. Mas vou manter o foco no jogo. Nós jogamos com Lee o tempo todo, e Clementine age como “pseudo-protagonista” já que agora são os dois contra… bem… o mundo inteiro e o que agora habita nele. A nossa parte como jogador é fazer todas as escolhas que o jogo impôr, sempre tentando não pisar na bola com ninguém ou fazer algo que vamos nos arrepender.

     Falando em escolhas, são elas que compõem a parte fundamental na jogabilidade do jogo. Elas surgem gradativamente entre os diálogos na forma de opções já definidas, ou seja, nós podemos conversar com outros personagens e definir o rumo do papo, porém existe um tempo para escolhermos as opções e não falar nada conta como “resposta válida”. Eu gostei bastante desse sistema pois o jogo não apenas consegue desenvolver bastante toda a sua história, como também nos permite criar uma personalidade própria para o Lee como, por exemplo, se ele vai ser uma pessoa mais voltada para os seus princípios ou se vai sempre deixar a sobrevivência em primeiro lugar. Em contrapartida, existem algumas escolhas ao longo da trama que me deixaram bastante frustado pois notei que elas serviram apenas para dar uma falsa sensação de caminho separado quando, na verdade, aquela ação ou momento específico não podia ser alterado independente do que você decidisse fazer. Não sei se a Telltale continuou repetindo esse vacilo de “escolhas ilusórias” nas temporadas/jogos seguintes, mas que isso é um ponto negativo para o jogo não tenham dúvidas de que é.

As opções de escolha de diálogo acontecem durante as conversas e possuem um tempo de resposta variado.

     Outros aspectos da jogabilidade incluem aquelas típicas características de point and click: podemos clicar e analisar algo enquanto escutamos os comentários de Lee sobre aquilo, iniciar uma ação por clique, armazenar itens e objetos em um inventário. E também existem os famosos Quick Time Events (QTEs) onde é necessário realizar uma determinada sequência de ações rapidamente. No jogo os QTEs são exigidos em situações que envolvem luta ou em casos especiais como mover um objeto pesado e etc. Mas existe um diferencial que deixa os QTEs semelhantes ao sistema de escolhas: nós não somos obrigados a realizar ou completá-los, ou seja, nós também podemos definir o rumo da ação em tela fazendo com que “hesitar perante um QTE” seja uma jogada esperta ou mortal. Outro jogo da Telltale Games que me lembro que faz isso muito bem é o The Wolf Among Us, aliás ele possui QTEs até mais elaborados.

     Então, parece ser algo fácil de se jogar não é mesmo? De fato sim, mas onde está a dificuldade do jogo? Ela está em fazer tudo isso que eu citei diante de situações de vida ou morte, dilemas e controvérsias. As escolhas chaves do jogo nunca são fáceis, elas colocam nossa ética moral à prova e quase sempre seremos cobrados e julgados por aquilo que decidimos. The Walking Dead: The Game não é fácil, ele é algo complicado, ligeiramente complexo e que nos faz repensar em todas as escolhas que fazemos e porquê. Lee e Clementine eventualmente encontram outras pessoas (sobreviventes em situações semelhantes à nossa) durante o jogo e nós temos que lidar com tudo isso pois o mundo como eles conheciam acabou, e os vivos provaram ser bem piores do que os próprios mortos.

Ao longo do jogo, Clementine e Lee passam por muitos apertos, mas a confiança entre ambos cresce bastante e é algo lindo de ver <3

     Toda pessoa que encontramos e conhecemos no percurso do jogo passa por um longo desenvolvimento conforme nosso grau de relacionamento com ela vai crescendo. Criamos fortes vínculos com gente de bem, desprezo para com gente má e desconfiança em pessoas suspeitas. O simples fato de sermos capazes de sentir tudo isso no jogo já o torna impressionante pois ele consegue fazer nos importarmos com todos os personagens. Os obstáculos que enfrentamos e as escolhas que fazemos, ao mesmo tempo em que tentamos manter os personagens que nos importamos firmes ao longo da jornada, constrói uma bomba explosiva emocional para tudo de bom e ruim que acontecer com eles. Eu creio que o simples ato de nos importarmos com os personagens  seja algo crucial em qualquer jogo focado em sua história, e The Walking Dead: The Game acaba servindo de exemplo.

     Após os término de cada episódio, uma tela é exibida mostrando as estatísticas das escolhas-chave feitas pela maioria dos jogadores, dessa forma nós podemos comparar a “popularidade” de uma determinada decisão. Saber a porcentagem de pessoas que seguiram (ou não) o mesmo caminho que eu segui passou uma sensação de comodidade e segurança, e o motivo é que as escolhas mais votadas são em teoria as “mais corretas” pelo senso comum. Contudo quando descobri que tomei decisões impopulares em alguns episódios, eu, e acredito que muitas pessoas, também ficam tentando nos justificar mentalmente pela escolha feita. Não sei... ainda que isso tenha acontecido pouquíssimas vezes comigo, foi o suficiente para me deixar angustiado por algum tempo.

O grau de relacionamento com os personagens depende diretamente das decisões que tomamos no decorrer do jogo.

     Os gráficos cartunescos remetem um pouco ao visual empregado nas histórias em quadrinhos de The Walking Dead, com a diferença que o jogo é menos tracejado e não é em preto e branco. O resultado final deixou o jogo com um estilo característico amplamente utilizado em jogos posteriores da Telltale Games (como o já citado The Wolf Among Us, Tales from the Borderlands, Batman e etc). Contudo, o visual dos zumbis não conseguem transparecer um pingo de medo e a expressão facial dos personagens fica meio estranha em alguns momentos, mas felizmente esses fatores não chegam a ser um grande problema pois os zumbis não são o principal foco do jogo e a expressão dos personagens conseguem transmitir as reações desejadas para as determinadas situações. Talvez o problema mais chatinho do jogo seja algumas texturas “saltitantes” entre as cenas e uma rara vez onde um personagem sumiu completamente da tela, presenciei isto na versão para computadores e não sei se este problema persiste nas versões para outros consoles. 

     O jogo também possui bastante telas de carregamento entre as cenas, mas nada que realmente comprometa o seu desenvolvimento. A câmera possui perspectiva em terceira pessoa o que facilita a visualização dos cenários do jogo e nos permite encontrar objetos e itens necessários para cumprir um objetivo sem dificuldades. Pensando bem, as câmeras e a divisão da história em episódios deixa o jogo com uma forte aparência de “série de televisão interativa”. E é das boas.

A câmera em terceira pessoa auxilia na exploração dos diversos cenários encontrados no jogo.

     Já com relação a trilha sonora, The Walking Dead: The Game não deixa nenhum pouco a desejar em qualquer quesito técnico envolvendo efeitos sonoros. Os zumbis fazem aqueles grunhidos típicos (para qualquer ser humano que tenha jogado algo relacionado a zumbis como Resident Evil ou Left 4 Dead) e a dublagem dos personagens são ótimas, com destaque para as vozes originais de Lee, dublado por Dave Fennoy, e Clementine, dublada pela Melissa Hutchison. As músicas do jogo seguem em perfeita sintonia com o que está acontecendo em cena, ou seja, em momentos de ação a música fica agitada, em momentos de calmaria escutamos uma melodia leve e por aí vai. Também fiquei encantado com a música tocada nos créditos finais do último episódio, na verdade ela chega a ser tão memorável quanto o momento que a antecede.

A trama é desenvolvida de forma lenta e, por conta disso, o resultado final acaba sendo bastante gratificante.

     Após o término do jogo, não existe muita coisa para ser feita além de conferir a expansão de conteúdo que traz o episódio extra. Isso é um problema? De forma alguma, até por que ninguém ia gostar que todo drama interativo possuísse um modo battle royale... eu acho. Mas a vida útil do jogo é um fator que sempre recomendo que tenham em mente para decidir se o tempo de entretenimento vale pelo preço imposto que desejem pagar em algumas lojas desse mundão. 

Ah! Sobre o episódio bônus 400 Days, minha sugestão é que não gastem um centavo a mais por ele, pois apesar de se autodeclarar como uma ponte de ligação para a segunda temporada, no fim das contas não é nada mais do que um “exercício broxante de hype” para a mesma. Essa expansão de conteúdo apresenta a história de quatro personagens estranhos entre si que vão se conectando até o ato final. Premissa legal, né? Também achei. Aí quando o negócio parece que fica interessante... puff! Rolam os créditos finais. 

O quadro de avisos do episódio bônus age como um menu principal, dessa forma é possível escolher qualquer uma das quatro histórias para jogar independente da ordem.  

Esse episódio é muito, mas muito raso mesmo; chega até a ser covardia compará-lo com qualquer um dos cinco episódios que compõe o jogo base. Confesso que não entendi por que trataram uma história e ideia tão promissora dessa forma mas... fazer o que, guardar esses centavos para investir na segunda temporada (ou em qualquer outro jogo) certamente é algo mais benéfico a se fazer.

     Enfim, The Walking Dead: The Game prova magistralmente valer cada investimento empregado, seja com uma ótima narrativa, personagens excelentes, boa jogabilidade ou escolhas carregadas com consequências pesadas; todas essas qualidades ofuscam os poucos defeitos do jogo e fazem dele uma experiência obrigatória para todos os fãs de histórias, de jogos point and click inovadores e (é claro!) do universo de The Walking Dead, contanto que o jogador não espere algo focado inteiramente em ação, já tá valendo. As escolhas que fazemos neste jogo são relevantes nas próximas temporadas e mal consigo descrever o quão empolgante é saber que tudo o que acontece no jogo é “passado adiante” para uma nova narrativa que espero eu que seja tão incrível quanto esta demonstrou ser.

9.0 9.0 10
Overall
9.0 Gameplay
9.0 Story
8.5 Music
8.0 Graphics
Tanto os personagens principais quanto os secundários são desenvolvidos.
Escolhas com pesos e consequências na narrativa.
História envolvente.
Algumas escolhas “forçam” a linearidade da história.
Uns probleminhas na textura e polidez do jogo.
Episódio bônus bastante raso.

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