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marcoaking Marco King

Redator, crítico, streamer, webdeveloper e trabalho nas horas vagas. Site: puloduplo.com.br


over 1 year ago 2018-04-17

South Park: The Fractured but Whole

Assim como Sombras da Guerra, South Park: A Fenda que Abunda Força chegou na tentativa de superar um predecessor que surpreendeu positivamente os jogadores. Não apenas isso, o jogo tinha a tarefa de manter o tom irreverente e politicamente incorreto da série animada, trabalho esse facilitado por ter mais uma vez Trey Parker e Matt Stone envolvidos no projeto.

De fato, a obra começou a agradar antes mesmo de seu lançamento. Após a pegada de RPG medieval do jogo original, a Ubisoft e a Obsidian Entertainment acertaram na escolha da temática. Super-heróis sempre fizeram parte do imaginário dos jogadores do gênero e aproveitar a “guerra saudável” (às vezes, não tanto por parte dos fãs) das atuais produções cinematográficas de Marvel e DC.

A escolha traria inevitavelmente algumas alterações na mecânica, em especial pela forma como os novos poderes e itens deveriam ser mostrados ao público. Com isso, além de alguns efeitos de combate que se mantiveram, como Enojado e Fogo, outros surgiram para demonstrar as capacidade sobre-humanas dos heróis, como Congelado e Choque. [ERRATA: congelamento e choque já existiam no Stick of Truth, usando itens ou runas nas armas. Eu esqueci desse detalhe. Parabéns para mim.]

Fora essa novidade, o combate está pouco diferente. Existem algumas mecânicas a mais, a exemplo da Microagressão (que aparece após o surgimento do Diretor PC), e itens especiais que podem lhe dar um auxílio e tanto na hora do aperto, mas só podem ser utilizados uma vez por combate. No entanto, a jogabilidade permanece bem conhecida tanto por jogadores do Stick of Truth quanto por fãs de combates por turno.

Como não poderia deixar de ser, alguns desses combates são épicos de tão divertidos. A Bootay, por exemplo, traz algo diferente para o jogo por ser um oponente tão “poderoso” que deve ser evitado a todo custo e fugir dele rapidamente. Caso seus aliados acabem no alcance do seu “popozão”, é morte instantânea. Vale destacar também a batalha contra os padres pedófilos, tão engraçada quanto politicamente incorreta.

Infelizmente, A Fenda que Abunda Força perde muito poder ao deixar de lado o uso da metalinguagem presente no game original. Graças aos poderes dos personagens, as armas foram deixadas de lado e, desse modo, não temos espadas como a Vibrolâmina e o Míssil da Lentidão. Enquanto o jogador vê um vibrador e uma bolinha de neve, no imaginário das crianças, eles viram poderosas armas na luta contra o mal.

O mesmo acontece com os consumíveis. Enquanto em Stick of Truth tínhamos poções de cura que eram, na verdade, biscoitos e batatinhas, temos agora burritos e enchiladas, que são mesmo burritos e enchiladas. Embora seja algo aparentemente banal, o jogo perdeu um pouco a personalidade para mim.

Itens de fabricação se acumulam no inventário e são um bom modo de conseguir dinheiro

A questão das comidas mexicanas levanta outro ponto: o de como A Fenda que Abunda Força tem pouca força em suas piadas. Sem dúvidas, temos momentos bem engraçados, porém as brincadeiras que envolvem peidos são frequentemente usadas e tornam-se ignoráveis. Outras piadas acabam repetidas à exaustão, como o aparecimento do primo do Kyle em diversas lutas, e mais irritam do que divertem. E ainda existem aquelas em que um conhecimento prévio da série é absolutamente necessário para que sejam engraçadas, como o caso dos caranguejos da D-Mobile ou de Jared, o cara do Subway.

Tudo isso, somado ao ritmo lento do início, pode afastar alguns apaixonados pelas brincadeiras de duplo sentido e críticas engraçadas do primeiro game. De fato, há poucos momentos que fazem você cair da cadeira de tanto rir, porém a felicidade de ver a manutenção da alma de South Park e suas piadas politicamente incorretas é o suficiente para agradar. Os personagens, sejam eles antigos ou recentes, continuam a respirar e trazer o que a série traz de melhor, o que implica em cenas bizarras e boas gargalhadas.

Muito disso é auxiliado pelo trabalho de som, atuação e visual. Mais uma vez, as vozes originais, incluindo os dubladores brasileiros (embora eu tenha minhas dúvidas sobre o do Stan), e o trabalho gráfico são os mesmos da série, então a fidelidade é totalmente mantida. Dá a sensação de participar de um dos episódios.

Este mesmo sentimento auxilia na exploração dos cenários, também leais à animação. É divertido visitar as casas de South Park e encontrar inúmeras referências, como os colecionáveis yaoi do Tweek e Craig (episódio 6 da temporada 19) ou o Peixe Gay. Mesmo que não conheça muito, a exploração é incentivada pelos inúmeros itens que podem ser encontrados, sejam eles consumíveis, itens para fabricação ou novas peças de fantasia.

Existem ainda vários minigames espalhados por aí. Alguns são simples e divertidos como a roda da fortuna no banco, outros são frenéticos como a sequência de comandos das privadas – estes funcionam bem melhor no controle do que nos botões confusos do teclado -, mas há ainda diversos quebras-cabeça espalhados pelo mapa, que utilizam as habilidades de seus aliados para serem resolvidos. O último, por sua vez, é exageradamente utilizado na reta final do game, tornando uma mecânica interessante algo bem cansativo de fazer.

Porém, não foram apenas as coisas boas herdadas de seu predecessor. O novo título também possui muitos erros, especialmente depois da metade da campanha. Os combates sofrem de lentidão na transição de lutadores e, em algumas ocasiões, o jogo trava nessa passagem de um personagem para outro – as animações permanecem ativas, mas o turno seguinte nunca chega.

Piadas repetidas a todo momento…

Outro sério problema é a dessincronização das vozes – os personagens começam a falar sem mexer a boca e os diálogos acabam enquanto as animações ainda agem. Isso acaba com qualquer sentimento de imersão e tudo fica simplesmente esquisito por muito tempo. Além disso, o final termina de forma muito abrupta, uma decepção após tanto tempo investido – 20 horas, no meu caso.

Mesmo assim, South Park: A Fenda que Abunda Força é divertido e deve agradar especialmente aos fãs do desenho, com seu show de referências e fidelidade à série. Por outro lado, as piadas fracas e seu início lento podem afastar os menos pacientes, mas, uma vez dada a chance, o jogo recompensa com os conhecidos momentos politicamente incorretos da franquia. E o Mysterion ainda é o melhor herói de todos.

Análise escrita para o site Pulo Duplo.

8.0 8.0 10
Overall
8.0 Gameplay
8.5 Story
9.0 Music
8.5 Graphics
Milhares de referências para o fã da série
Gráficos e sons ajudam a mergulhar no mundo de South Park
Batalhas épicas e engraçadas
Excelente temática para a continuação de um RPG
Novas mecânicas de combate ajudam a complementar a anterior
Bugs e problemas de sincronização atrapalham o andamento do game
Um dos grandes atrativos do primeiro jogo, a metalinguagem está ausente nesse
Final abrupto e decepcionante
Piadas e minigames ficam repetitivos com o tempo

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