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netobtu João Paulo Bonome Neto

Bio: shock


over 3 years ago 2016-06-27

Salt and Sanctuary

“Good morning, oh, dreadful day
I prayed the moon had lit the sea instead of me
For the sails of night
“Please tell me everything’s alright”
(Sonata Arctica – White Pearl, Black Oceans)

Produtora: Ska Studios
Distribuidora: Ska Studios
Gênero: Platformer/Ação/RPG
Plataforma: PC, Playstation 4, PS Vita (futuramente)
Versão Analisada: PC

É inegável que Dark Souls é uma série influente. Vira e mexe nos deparamos com algum jogo que, por ser difícil, alguém fale “lembra Dark Souls”. Apesar de todos sabermos que a série não se resume à sua dificuldade (e ser basicamente conhecido só por isso faz mais mal do que bem à série), esse acaba sendo o maior comparativo dele com outras obras.

Na década de 90, com o advento do 3D, tínhamos vários jogos migrando do 2D para o 3D: Castlevania, Super Mario, Zelda, Sonic… enfim, muitos jogos. Salt & Sanctuary vem com a proposta de fazer o contrário com Dark Souls: pegar aquele jogo 3D e transportá-lo ao 2D. É impossível ver trailers do jogo e não pensar que aquilo é Dark Souls em 2D.

Mas, ser Dark Souls em 2D não significa boa coisa assim, de cara. É certamente um atrativo, mas… será que o jogo consegue alcançar as expectativas de um fã de Dark Souls?

Náufrago

A narrativa de Salt & Sanctuary é toda críptica, misteriosa e, ultimamente, minimalista. Eu sinceramente não entendi muita coisa enquanto jogava, mas porque o enredo realmente não me pegou. Eu parava para conversar com personagens, lia alguma coisa, mas, no fim, falhou em me entreter nesse ponto. Encarei literalmente como um jogo sem história, por mais que eu deteste fazer isso.

Mas, bem, o que eu, do que consegui entender, é simples: você é um guerreiro (podendo escolher sua classe no início do jogo, na criação de personagem) que, após ter seu navio de transporte naufragado, vai parar em uma ilha. E então você precisa fugir da ilha, de alguma maneira encontrar um jeito de sair dela. Fim.

Ok, não é o fim. Eu tentei a todo custo tentar me interessar pela história, e algumas coisas eu até achava interessantes, ao ponto de ir atrás de mais informações na Wiki oficial do jogo… mas não me aprofundava tanto. A lore do jogo não parecia muito amarrada. Por exemplo, encontrava alguns seres que eram Kraekans, mas eu não entendia o que eles eram, o que é Kraekan? Eu devo ter perdido algum diálogo, não lido alguma descrição de item… uma pena.

Metroidvania 2D Souls

Ok, a estrutura de Dark Souls já é Metroidvania em um geral, mas é bom destacar no título: Salt & Sanctuary acaba sendo muito mais Metroidvania. Dividido em áreas, o jogo possui um mapa muito grande, com várias partes trancadas por chaves ou requerendo alguma habilidade de platforming.

A diferença primordial, e boa, entre o jogo e um Dark Souls puramente 2D é o elemento platformer do jogo. Lembrando mais Metroid e Castlevania, várias partes do mapa estarão trancadas devido à necessidade de Marcas (Brands). Essas partes requerem backtracking do jogador para acessá-las. Normalmente, o jogo é até bem linear de área para área, com algumas bifurcações, e essas áreas que exigem backtracking normalmente só darão bônus ou abrirão algum atalho para áreas anteriores, o que é bom, devido às mecânicas dos santuários.

Os santuários são as fogueiras do jogo. Salas seguras, sem inimigos, onde podemos recuperar itens de recuperação de vida e aumentar o nível do personagem. No início do jogo, nos é perguntado qual a nossa crença, pois ela que determinará os santuários. A grande maioria aceita qualquer crença, mas alguns já estão predefinidos como sendo de outra crença, trazendo algumas limitações.

Caso o santuário esteja disponível para a crença escolhida, nele podemos convocar clérigos, viajantes, mercadores, entre outros. Para isso, no entanto, devemos encontrar itens específicos pelas fases, que nos possibilitará tal convocação. Limitados, devem ser usados com cautela. Tiveram vezes em que eu queria fazer o upgrade de armas e não conseguia encontrar uma estátua de mercador para fazê-lo, o que acabou em certo momento me fazendo convocar um viajante que me teletransportasse para outro santuário. Eu gostei desse toque, deixa o uso dos santuários mais estratégico.

A exploração serve para encontrar vários itens no jogo, desde novos equipamentos, armas de diversos tipos e outros itens normais. No entanto, há problemas para o uso deles: a árvore de habilidades. A cada nível alcançado, ganhamos um ponto para ser gasto nesta árvore, só que é aquela coisa: em uma árvore de habilidade, uma vez tomado um caminho, dificilmente iremos divergir tanto.

Não gosto tanto disso, nos deixa travados e, pior: para usar armaduras diferentes, devemos fazer o upgrade de armadura, que fica ramificado em um ponto da árvore de habilidades. O resultado foi que eu priorizei minha agilidade e força, para utilizar espadas, do que na possibilidade de usar novas armaduras. É um jogo de ação com muita customização, e toda hora eu estava lá usando as mesmas roupas, trocando por outras básicas mais quando encontrava algum chefe com habilidades diferentes (como fogo ou raio), porque julgava inútil gastar vários níveis para poder usar “Armadura leve nível II”.

Sal e Ouro

O combate de Salt & Sanctuary também emula o de Dark Souls: arma branca, escudo, magias, milagres… fui de cavaleiro e não me arrependi: o jogo entrega um bom combate, com boa variedade de inimigos. Por ser 2D, se juntarem muitos inimigos em cima, a morte é mais certeira do que no primo em 3D do jogo, então o ideal é enfrentar um de cada vez, ou ter uma arma com grande alcance para acertar vários ao mesmo tempo.

Fica um inferno se vierem inimigos voando, outros mandando magias e, ainda, outros vindo a pé com espadas, lanças ou qualquer outra coisa. No combate mano a mano, a coisa fica melhor. O parry é muito bem implementado e preciso, e é possível fazê-lo até mesmo sem escudo, segurando a arma com as duas mãos (coisa que eu fiz a maior parte do jogo, sou muito mais fã de rolar para o outro lado do inimigo do que me defender com escudo).

A variedade de armas é até grande, mas mais uma vez cai no problema da árvore de habilidades, o que torna muito restrito o que podemos utilizar na primeira jogada. Então, passei grande parte do jogo utilizando uma Espada Grande, mas sentindo que poderia usar coisas bem melhores.

Os chefes do jogo são muitos, e ficaram bem legais. Normalmente há um por área, às vezes dois. Vários são opcionais, enquanto outros são obrigatórios caso você tome determinado caminho. Alguns dão muito trabalho para ser derrotados, e me frustraram bastante, mas a dificuldade do jogo não é forçada, e todos os desafios podem ser superados com paciência e adaptação às situações.

O jogo é muito punitivo: além de perder toda a experiência obtida (na forma de SAIS), a cada morte perdemos 10% de nosso ouro, que é a moeda do jogo. Só que acaba-se não utilizando muito ouro, porque, mais uma vez, a árvore de habilidade é restritiva, e os itens à venda não são tantos, e nem muito atrativos. Mas dá uma raiva de ver o contador de ouro diminuindo a cada morte! Mesmo sabendo que era um tanto irrelevante, eu não queria perder essa quantia de jeito nenhum! E é fácil obter bastante ouro, cada inimigo morto dá uma boa quantia, especialmente os chefes.

Lágrimas Salgadas

Tecnicamente, Salt & Sanctuary vai muito bem, obrigado. As físicas funcionam bem para um platformer, os golpes têm impacto excelente para um jogo de ação, e as animações de tudo são muito boas.

No entanto, o jogo carece em diversidade de texturas e arte. Muitas áreas são parecidas demais umas com as outras, tudo parece a mesma masmorra, e a iluminação da maioria das áreas é sempre meio escura, deixando o cenário empobrecido nesse ponto.

Outro ponto fraco é a trilha sonora: tirando o último chefe, todos os chefes têm apenas dois temas diferentes, e de vez em quando acontece alguma música incidental durante as fases, e ela é sempre a mesma. Apesar de as trilhas dos chefes serem bacanas, só ter duas mostra que o jogo careceu de mais investimento – mas é um indie, então está desculpado.

Mas a música final… minha nossa! É excelente demais, além de dar aquela sensação total de chefe final, até porque não podia ser diferente, né? Era a única música diferente de chefe que tocou no jogo inteiro, tirando as duas que intercalavam-se com os chefes anteriores.

Mais doce do que amargo…

Para um primeiro jogo de uma possível franquia de uma empresa pequena e com recursos limitados, Salt & Sanctuary faz bonito e entrega uma aventura bem desafiadora e com aquele gosto de superação de desafio que Dark Souls tanto nos entrega.

Fica óbvio a influência, e isso é bom. Mas, apesar de tudo, o componente platformer deixa o jogo com sua própria cara, porque você não vai morrer só por causa de um inimigo, vai morrer também por não pular na hora certa, por calcular mal uma distância…

Infelizmente o jogo tem escolhas que não agradam tanto, como a opção de árvore de habilidades ao invés de um aumento de nível normal, o que engessa bastante um jogador que quer tentar novas táticas no meio do jogo, trocar de armas para novos estilos ou simplesmente vestir novas armaduras. Outro ponto fraco é a arte repetitiva e a trilha sonora empobrecida e pouco variada, deixando claro o pouco orçamento do jogo.

No geral, é um dos melhores jogos independentes do ano, e acredito que vá agradar a fãs de Dark Souls, Castlevania e Metroid 2D e de platformers em geral. Tem aquela gostinho de Super Nintendo, apesar de ser absolutamente moderno.

Post originalmente em:

https://jogadorpensante.com/2016/06/27/review-salt-sanctuary/

8.0 8.0 10
Overall
8.5 Gameplay
6.5 Story
7.5 Music
7.5 Graphics
O melhor: mapas complexos cheios de bons combates;
O pior: árvore de habilidades limitante.

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