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renanmotta Renan M. Sampaio Motta

Nada melhor, no mundo do entretenimento, do que a experiência de um video game


1 ano atrás 2017-12-14

Hellblade: Senua's Sacrifice

Antes de ter jogado Hellblade, apostava em Cuphead como jogo Indie do ano, mas nesse exato momento, após terminar a jornada de Senua, vejo que Cuphead é um belo jogo e tem uma vibe única, mas que não chega aos pés do trabalho feito pela Ninja Theory.

Quando a Ninja Theory pensou em criar um jogo sobre uma personagem portadora de psicose, ela tinha pela frente uma tarefa difícil de colocar as ideias em jogo. E, felizmente, ela conseguiu. Todo o tratamento de level design, modelagem, animações, design de som, mecânicas, tudo gira em torno de Senua e sua condição. Tudo tem um porque narrativo. E nesse quesito, o jogo dá um show. Ele trabalha as ilusões da psicose com maestria, assim como também sabe utilizar muito bem o recurso do flashback, que geralmente se torna um grande problema de roteiro. A Ninja Theory optou em utilizar vídeos com gravações de pessoas reais; atores fazendo os personagens que rodeiam Senua. O resultado é mais do que satisfatório. Com certeza os responsáveis pela criação da narrativa e roteiro estavam muito bem sintonizados com a trama.

E falando em narrativa, obviamente que What Remains of Edith Finch merecia o prêmio, mas se Hellblade fosse o vencedor, o prêmio não estaria em péssimas mãos.

O FAMIGERADO DESIGN DE ÁUDIO.

Sim. É espetacular. Ao jogar Hellblade, nós podemos sentir como funciona a cabeça de uma pessoa que sofre de psicose. O trabalho com as vozes em som 3D é muito eficiente. O som ao mesmo tempo que encanta, quando vemos funcionando, ele nos atordoa e nos apavora. Nada de diferente do que Senua poderia sentir. O prêmio é mais do que merecido. Mas além do design, creio que uma indicação à trilha sonora também caberia à obra.

BELÍSSIMO ROTEIRO E CONSTRUÇÃO DE MUNDO

Voltando a falar da parte escrita, não só a narrativa é bem feita como todo o seu roteiro e tudo que gira em torno dele também é. A história é poderosa e nos colocarmos nessa realidade é de grande importância. O jogo gera empatia para aqueles que não são como Senua. Aqui temos uma história de tragédia, sobre personagens que não compreendem Senua e a colocam num estado de amaldiçoada. Tudo isso acaba gerando a jornada da personagem, que ruma em direção ao "inferno nórdico" para trazer de volta a alma de seu amado; o único que a compreendia.

E por que sacrifício? Senua terá que aprender sobre a sua condição durante a jornada. Ela enfrentará perigosos inimigos gerados pelos seus medos, pela sua psicose. Para que Senua entenda o que ela é e passe a conviver consigo mesma, ela terá que descer ao mais fundo pesadelo. É o sacrifício de deixar o seu eu do passado para trás e seguir em frente.

E é claro que toda a composição da personagem é graças à atuação da estreante Melina Juergens. O jogo só funcionaria se ela fosse capaz de segurar a trama; e ela consegue.

Ambientado em um cenário nórdico medieval, Senua nos leva em sua aventura. Toda a direção de arte é impecável em colocar elementos da mitologia nórdica em prol dos delírios da personagem. O porquê da criação de cada cenário e inimigo convergindo para a narrativa do jogo. E que cenários! A beleza gráfica é um desbunde. A Ninja Theory mostrou que ser independente não é desculpa. Assim como o seu trabalho de animação.

PARA NÃO SER PERFEITO

Mas o que fazemos no jogo? Solucionamos puzzles e entramos em batalhas. Os puzzles são inusitados e interessantes. Nós temos que buscar no cenário a representação de símbolos para podermos abrir portas. E o jogo não fica apenas nisso. Subitamente, ele nos surpreende com outras ideias, como trocar de realidade ou trabalhar com ilusões para resolver puzzles. Não faço ideia de como foi feito, mas modificar o cenário simplesmente andando de um lado para o outro de um objeto, é incrível de se ver. Gostaria que a Ninja Theory tivesse apostado mais em seus puzzles.

Os combates também são interessantes. Ao mesmo tempo em que ele parece ser mais truncado, nós temos uma personagem de movimentação ágil. Com o tempo, você compreende o funcionamento para encaixar belos combos. E o destaque maior fica por conta dos chefes. Não são muitos, mas impressionam em movimentação e conceito.

E é aí que entra o porém. O combate não funciona bem quando o cenário está recheado de inimigos. Pois na batalha, a câmera se aproxima, o cenário se fecha e lutamos numa arena circular. Normalmente esses cenários são pequenos, o que dificulta a movimentação. E quando estamos rodeados de inimigos, o problema engrandece. A câmera não é tão prática e às vezes podemos ficar presos entre a parede e o inimigo, com a câmera atrapalhando ainda mais. Pode ter certeza, é possível morrer em combate por causa desses problemas. 

No jogo que joguei, tive acesso a um bug extremamente desconfortável. Fiz uma pesquisa e encontrei muita gente com o mesmo problema. Como eu disse acima, é fácil morrer no jogo por causa do combate, às vezes, mal executado. Então imagina que toda vez que morrer o jogo ficará numa tela preta eterna, tendo que finalizar o jogo e iniciar novamente. Na parte final do jogo, eu estava tendo problemas no combate e morri umas 3 vezes e em todas elas eu tive que fechar o jogo e reiniciá-lo. Esse bug só apareceu para mim na última parte do jogo. Mas vi que para algumas pessoas ele existia desde o início.

RESUMO FINAL

Hellblade: Senua's Sacrifice é uma obra que impressiona na narrativa e em seu enredo. Constrói muito bem a realidade de seu mundo em torno de uma personagem portadora da psicose. Infelizmente o seu combate não é 100% funcional, apesar de ter um ótimo clima de tensão e ser mecanicamente interessante. Como gameplay, a Ninja Theory poderia ter apostado mais em seus puzzles, que tentam ser algo diferente do que costumamos ver. Hellblade merece todos os prêmios e indicações e poderia ter muito mais. Para mim, é o jogo indie do ano e poderia até ter concorrido como Jogo do Ano. Pode ter certeza, Senua será uma personagem inesquecível, assim como toda a sua jornada de sacrifício também será.

9.0 9.0 10
Nota Geral
8.0 Jogabilidade
10 História
9.5 Música
10 Gráficos
Narrativa envolvente
Roteiro muito bem escrito com uma bela trama interpessoal
Excelente construção de mundo dentro do conceito da psicose
Puzzles criativos
Atuação, principalmente de Melina
O combate muitas vezes se mostra não muito funcional, frustrando com a morte
Bug que traz tela preta tendo que finalizar o jogo e iniciá-lo novamente

1 de usuários gostaram desta crítica.


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