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netobtu João Paulo Bonome Neto

Bio: shock


quase 3 anos atrás 2016-05-15

Dark Souls III

“Here is the soul of a man
Here, in this place, for the taking
Clothed in white, stand in the light
Here is the soul of a man”

Produtora: FromSoftware
Distribuidora: Bandai Namco
Gênero: RPG/Ação
Plataforma: PC, Playstation 4, Xbox One
Versão Analisada: PC

A febre “Souls” demorou para me pegar. Foi só ano passado que eu comecei a perceber a genialidade de Hidetaka Miyazaki. E nem foi em um Dark Souls ou, ainda, em Demon’s Souls. Foi em Bloodborne, o exclusivo de Playstation 4. Fiquei mergulhado naquele mundo por meses, só conseguindo pensar nisso quase que o dia inteiro.

Depois de tanto ter gostado de Bloodborne, eu decidi que já estava na hora de eu jogar a série Souls. Em fevereiro desse ano joguei o primeiro da série e, mais uma vez, me apaixonei. Logo na sequência, faltando cerca de um mês para lançar Dark Souls III, joguei o segundo da série, na versão Scholar of the First Sin, e fiquei com um gosto amargo na boca, pois não esperava desgostar tanto, achei o jogo bem fraco. Ainda preciso jogar Demon’s Souls (o que vou fazer ainda esse ano).

E então chegou Dark Souls III. Eu estava cheio de hype e ansiedade. Queria algo ao nível de Bloodborne e do primeiro jogo da série. Ao mesmo tempo, temia algo ao nível de Dark Souls II. E então, será que Dark Souls III é o fechamento com chave de ouro desta tão amada franquia?

O começo do fim

Não é muito difícil vermos jogadores incautos, inclusive jogadores que gostam muito de Dark Souls, dizerem que a série não tem história. Alguns usam isso até para desmerecer o jogo.

A realidade é que a série é um dos melhores exemplos do que a narrativa dos videogames é. Dark Souls não costuma pegar para contar sua história técnicas de outras mídias, como o cinema (que é o maior emprestador de técnica narrativa para os videogames).

Para compreender a história de Dark Souls III (vamos nos focar somente neste), ou melhor, a “lore” do jogo, devemos explorá-lo à exaustão. É como um trabalho de um arqueólogo: é nos achados que estão muitas das respostas. Encontrar toda a roupa de um personagem em um cadáver em determinado local significa que ele morreu ali, por exemplo, e isso tem implicações para sua história pessoal e para o mundo do jogo. Tudo está muito conectado, e essa sensação de descoberta é um dos combustíveis para seguir jogando cada vez mais.

Dark Souls III se passa em Lothric, muitos anos depois do primeiro jogo – apesar de não ser dito quanto, é implícito que é bastante tempo depois. Lothric é um reino em ruínas, pois o Fogo da Primeira Chama está se esgotando, e a escuridão do Abismo está prestes a dominar.

É nesse cenário que acordamos, em um cemitério, como um Inaceso (correlato do Undead do primeiro jogo). A profecia diz que um dia um Inaceso acordaria e juntaria, cada um em seu trono, os antigos Senhores das Cinzas, para ir até a Fornalha da Primeira Chama e reacendê-la. Ou, quem sabe, apagá-la? Ou algo ainda mais diferente?

Tudo é muito aberto em Dark Souls III. Grande parte da história está aí para ser interpretada, quase nada é dado diretamente para o jogador. E isso torna a comunidade do jogo ainda mais incrível, pois as discussões de teorias sobre os personagens, localizações, chefes e itens são sensacionais, com várias interpretações diferentes. Lembro-me de, anos atrás, me deliciar com isso em outro jogo: Shadow of the Colossus.

Apesar disso, existem algumas cenas fílmicas espalhadas pelo jogo, em momentos específicos. Mas isso é em poucas vezes, e grande parte não é para explicar nada, mas sim mostrar alguma ação específica de algum personagem. O que rege mesmo é esse enredo baseado na exploração. É por isso que muitos de nós perdemos na primeira jogada várias trilhas de quests de NPCs, pois tudo é muito críptico, escondido, misterioso… quanto mais você explorar em Dark Souls III, mais vai entender. Ou, ao menos, mais o seu cérebro vai fritar mais ainda.

Nós ascendemos do repouso, ele chama nosso nome

Dark Souls III é um jogo de ação com muitos elementos de RPG. No entanto, é possível, se você for extremamente habilidoso, deixar de lado um bom tanto do aspecto de RPG. Mas, se você estiver tendo muitas dificuldades, agarrar-se ao lado RPG pode te ajudar.

Mais uma vez, o jogo é impiedoso: morra e perca todas as suas almas (experiência para subir de nível e também dinheiro do jogo). As almas são obtidas derrotando inimigos e vendendo itens. Muito valiosas no início do jogo, onde muitas de suas ações ficam limitadas. Eu, que joguei em sequência os três Dark Souls, não tive tantas dificuldades no início do jogo, mas quem resolveu começar agora, com certeza teve momentos enormes de frustração. Assim como quem começou por Bloodborne, ou Dark Souls II, ou Dark Souls, ou Demon’s Souls… os jogos dessa série (e, sim, para efeito de praticidade, vamos colocar Bloodborne no meio) não são nada amigáveis com novos jogadores, e superar os desafios pode chegar ao nível da frustração. Mas isso é só no começo mesmo, nas primeiras áreas, depois o jogo te conquista de vez e a sensação de descoberta supera essas frustrações.

Dark Souls III possui o combate mais rápido da série, o que é uma herança de Bloodborne. Os inimigos possuem muito mais ataques diferentes e exigem uma afinação de tempo muito mais precisa. O combate simplesmente funciona bem, mas não há aquele peso maior, que havia em Dark Souls. Os inimigos são mais rápidos, mas nosso personagem também. Na minha primeira jogada, finalizei usando espadas retas e katanas, o que me concedia boa agilidade contra os inimigos. Na segunda jogada que iniciei, me desafiei a ir com uma espada grande, que é muito mais lerda, mas também mais forte. Demorou um pouquinho, mas também foi possível pegar a afinação de tempo. Isso é muito importante, pois todas as armas têm que ser viáveis para os desafios, e é isso que torna o jogo equilibrado. Mesmo uma espada fraca pode ser efetiva contra o mais forte dos chefes, cabe ao jogador saber quando atacar.

Devido a essa velocidade maior do jogo, os rolamentos estão ainda mais necessários. Ou ao menos eu que os uso em demasia. Apesar de utilizar bastante meu escudo, rolar sempre parece uma opção melhor: consome menos energia e me dá uma maior abertura para um ataque. Mas esquivar exige muito mais precisão do que levantar o escudo. E Dark Souls III é um jogo disso: analisar os riscos. Com tantos ataques diferentes dos inimigos, ver o que é melhor a se fazer: levantar o escudo ou rolar? Ou arriscar um parry (técnica de defesa que envolve defletir o ataque inimigo com o escudo, para uma grande abertura de ataque)? Há muitas possibilidades.

Há diversas categorias iniciais de personagens, as chamadas classes. Guerreiro, mago, piromante, clérigo… para todos os gostos. Se você gosta de magias, ir de mago é uma boa escolha, há uma boa gama de magias para serem usadas. O estilo do jogo muda bastante entre personagens baseados em magia e ataques à distância para aqueles que preferem um enfrentamento corpo-a-corpo.

No entanto, há alguns problemas de balanceamento, especialmente o atributo Equilíbrio. Este é um atributo muito importante para quem gosta de usar armaduras pesadonas. Você troca a sua capacidade de rolar rapidamente por ter mais equilíbrio, o que resulta no seu personagem não perder sua forma quando atacado, podendo continuar andando, correndo ou atacando (não devemos confundir com Hyper Armour, um atributo de algumas armaduras que fazem o jogador não cancelar seu ataque caso for atacado durante a animação). Há anéis que aumentam o equilíbrio, inclusive, mas nenhum deles faz alguma diferença. O atributo está desativado no jogo. E a From já deve saber disso, mas até agora não tomaram nenhuma posição… o que é uma pena, e torna as armaduras mais pesadas apenas inúteis. E, se não há o atributo no jogo, por que então iríamos ficar investindo em Vitalidade ao subir de nível, que é o que nos permite equipar mais armaduras e armas pesadas? Aliás, este atributo deveria ser como no primeiro, aumentável juntamente com a energia para rolar e realizar ataques.

Sem terra de abundância, devastação, desespero

O que mais gosto na série Souls são os chefes. Enfrentar um chefe na série é como a cereja do bolo depois de uma área infestada de inimigos e cheia de armadilhas. É como se o jogo dissesse: parabéns, agora enfrente este inimigo terrível e sinta-se maravilhoso.

E é justamente o que ocorre. Dark Souls III tem os chefes mais rápidos, mais fortes e mais difíceis da série Dark Souls. Agora os chefes se transformam no meio da batalha, obtendo novos golpes, mais força, ajuda externa ou até mesmo uma mutação mais física. Isso já havia começado em alguns chefes de Dark Souls II, e foi completamente implementado em Bloodborne, e a tendência seguiu em Dark Souls III. É como se houvessem dois chefes em um a cada enfrentamento. Apesar de não ser uma mudança drástica, os novos ataques que surgem, a velocidade ainda mais aumentada, exigem uma análise maior por parte do jogador. A concentração deve ser enorme.

E sabe o que é ainda melhor? Morrer quatro, cinco, dez, vinte, quarenta vezes para o mesmo chefe. Ficar com raiva, estressado até o seu maior limite. Sabe por quê? Quanto mais você for derrotado, melhor será sua vitória. E não estranhe se, após isso acontecer, suas mãos estarem tremendo. É normal. E é ótimo! É esse misto de estresse extremo e realização plena que faz com que a batalha seja ainda mais gratificante. E melhor ainda se, ao cair o chefe, você estiver com pouca vida e nenhum Frasco de Estus.

Grande parte dos chefes são memoráveis e figuram entre as melhores batalhas de toda a série, mas temos alguns que são focados em gimmicks ou até mesmo parecem um quebra-cabeças. Essas batalhas são pontos fracos, e não vou citar aqui quais são porque estou tentando ao máximo não dar nenhum spoiler, mas quem jogou sabe de quais estou falando… chefe com ponto brilhando e sendo o ponto fraco? Chefe que morre com um hit só? Chefe que é praticamente imortal se atacado com armas normais, mas que é derrotado rapidamente por uma arma em específico? Isso não é algo bom para o jogo, mas, bem todo Souls tem chefes ruins… nem tudo podem ser flores em um jogo desse porte e com tanta ambição.

Esperando em fila para o fim dos tempos

Dark Souls III possui uma arte maravilhosa. É o que torna seu visual bonito, na realidade. As texturas e os gráficos em si são apenas medianos para a geração atual. No entanto, a série nunca foi reconhecida por ser excelente nestes aspectos técnicos, mas felizmente a arte compensa tudo. Bloodborne pode ter tido uma ambientação um pouco mais apelativa para a arte, mas Dark Souls III também consegue fazer muito bonito com a engine.

Mas a animação das movimentações são incríveis, todos os inimigos com excelente animação, em especial os chefes. Os hitboxes aperfeiçoados deixam tudo ainda mais fidedigno nessas animações. Não ser acertado por um triz é um alívio, à beira da morte. Tudo isso dá uma grande autenticidade ao visual do jogo, dando uma enorme imersão.

O lado da trilha sonora é digno de uma grande salva de palmas. Composta com o mesmo estilo de Bloodborne, grande parte das trilhas possuem corais épicos e sinfonias violentas. Cada chefe possui sua trilha própria, o que a torna ainda melhor do que Bloodborne (que repete algumas trilhas). Não me lembro de enfrentar um chefe onde eu dizia “nossa, essa trilha é ruim”. Todas são memoráveis, maravilhosas, casando com o tipo de batalha e com a lore por trás do chefe.

https://youtu.be/f0LdIZ8TWYo

Para mim, a eternidade nada mais é
Do que um breve momento

Épico e desafiador, Dark Souls III é a entrada que todos os fãs da série mereciam nessa nova geração. O melhor level design dos jogos está aqui, e os combates com maior intensidade também. Infelizmente não possui a genialidade do design de mundo circular do primeiro Dark Souls, o que nos permitia fazer várias partes do jogo na ordem que quiséssemos, dando uma sensação de descoberta ainda mais plena.

Apesar de Dark Souls III ser mais linear, os caminhos se bifurcam várias vezes, dando uma boa variedade, e já se destacando perante a maioria dos jogos da geração.

Ainda que existam alguns problemas, como o Equilíbrio, Dark Souls III é extremamente balanceado e vai te proporcionar um ótimo desafio. Os veteranos da série vão encará-lo com mais naturalidade, mas os novatos vão sofrer bastante. Mas nem a naturalidade e nem o sofrimento tirarão do jogador aquela sensação de vitória, aquele sorriso no rosto de encontrar algo escondido ou aquele brilho na mente de compreender algo que esteja acontecendo no jogo.

Dark Souls III é uma enorme homenagem a todos os fãs da série, desde Demon’s Souls. Se isso não ficar muito claro durante o jogo, nos últimos momentos tudo fará sentido. Eu nunca fiquei tão arrepiado, da cabeça aos pés, em um jogo de videogame do que nos momentos finais da última batalha obrigatória do jogo.

Ascenda, Inaceso. Busque os Senhores das Cinzas. Reacenda a chama uma vez mais.

P.S.: os subtítulos e os versos no início do post foram retirados da música If Eternity Should Fail, do album The Book of Souls, de 2015, da banda Iron Maiden.

Originalmente em: https://jogadorpensante.com/2016/05/15/review-dark-souls-iii/

9.5 9.5 10
Nota Geral
9.0 Jogabilidade
10 História
10 Música
8.5 Gráficos
O melhor: sensação de paz e plenitude ao superar os desafios;
O pior: inutilidade das armaduras mais pesadas.

19 de usuários gostaram desta crítica.


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