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manoelnsn Manoel Nogueira

Só um cara que curte rpgs...


about 2 months ago 2019-06-29

Bloodstained: Ritual of the Night

Castlevania é uma franquia de jogos de plataforma já consagrada desde os tempos dos 8 bits, e com o passar das gerações de consoles caseiros isso só foi se solidificando, como com Super Castlevania(no Super Nintendo) e Rondo no Blood(no PC Engine). Contudo, eis que a tecnologia chega em determinado ponto que é possível fazer jogos de videogame com polígonos, e surfando nessa onda Castlevania ganha um jogo em três dimensões pro então console da Nintendo, o Nintendo 64. 

Castlevania 64, tanto na época quanto hoje em dia esse jogo possui a pior fama possível, e com toda razão

Surfando numa onda contrária à da época, eis que sai para o Sony Playstation um jogo de plataforma usando sprites, onde o jogador controlava o filho do Conde Dracula, Alucard(personagem que já havia aparecido no terceiro jogo da franquia para o Nintendinho), em fases não lineares interligadas, o famigerado Castlevania Symphony of the Night.


Esse jogo, em contrapartida, adquiriu uma boa fama na época e hoje em dia é considerado um clássico por muitos, e com toda razão também

Symphony of the Night popularizou um estilo de exploração e gameplay que passou a ser conhecido como Metroidvania(por juntar elementos da franquia Metroid da Nintendo com Castlevania). Essa denominação ser ou não um gênero próprio, é defendida e debatida por muitos, mas é inquestionável este ser um tipo de jogo muito querido pelos jogadores até os dias de hoje, com várias franquias tentando pegar um pedaço desse bolo(como Megaman, com o primeiro Megaman Zero e os jogos ZX). O principal nome por detrás de SOTN é sem dúvidas Koji Igarashi, que trabalhou pra Konami até 2014, participando diretamente de jogos como Aria of Sorrow, Portrait of Ruin e Order of Ecclesia, todos muito populares até os dias de hoje, e que respeitam e desenvolvem os conceitos do primordial jogo de Playstation.

Portrait of Ruin, por exemplo: faz um sistema de duplas, onde o jogador controla dois personagens que interagem em conjunto pra explorar o cenário

Entretanto, devido à decisões questionáveis da Konami, Igarashi sai da empresa. E justamente pelos seus metroidvanias(com alguns os apelidando de Igavania) serem tão populares e queridos entre os fãs que os mesmos já vinham há anos pedindo para o mesmo produzir mais jogos do tipo. E então inspirado no financiamento coletivo que Keiji Inafune havia feito para um projeto no estilo de Megaman(Might Nº9, o qual hoje em dia já sabemos que fim levou), faz o mesmo, para arrecadar fundos e então produzir o jogo que todos estavam esperando: Bloodstained: Ritual of the Night.

O projeto do Kickstarter foi extremamente bem sucedido, com mais de 5 milhões de dólares de apoio dos fãs até o lançamento do game

O jogo teve vários atrasos, seu lançamento estava previsto pra 2017, mas vários problemas na produção(como as versões do WiiU e PsVita sendo canceladas e a de Switch sendo feita) além de melhorias nas demos lançadas para os apoiadores(que reclamaram que o jogo estava mal polido e pessimamente detalhado) postergaram sua estreia pra 2019, e após toda essa espera, o tão esperado sucessor de Symphony of the Night(e suas crias) finalmente havia sido lançado! Mas será que a espera valeu a pena e o jogo é realmente isso tudo que todos esperavam, ou é o mesmo fracasso que Might Nº9 que Inafune criou?

A review a seguir obviamente conterá spoilers, e por mais que a trama de um igavania da vida seja tão importante quanto o apêndice humano, esteja avisado caso seja um daqueles sensíveis a qualquer informação futura de uma história, por menor e mais irrelevante que o plot em si seja.

O jogo conta a história de Miriam, uma garota órfã criada pela Guilda dos Alquimistas e que foi sujeita a experiências envolvendo cristais com o poder de demônios inseridos em seu corpo, cristais estes chamados de Fragmentos. Obviamente que inserir pedaços de capirotos no corpo de uma pessoa não é algo lá muito saudável, então Miriam corria o risco de morrer até de ser cristalizada por completo, o que deixou a garota muito mal, tanto física quanto psicologicamente. E nesse cenário dantesto ela conhece outro órfão chamado Gebel, que consegue consolá-la e se tornam grandes amigos.


Porém, a guilda decide fazer um sacrifício de vários fragmentários para que os portões do inferno sejam abertos e eles pudessem conseguir o poder dos demônios para si. Miriam é poupada por ter entrado em sono profundo em cima da hora, mas Gebel acaba participando da cerimônia, sendo o único sobrevivente do ritual, onde várias pessoas acabam sendo mortas.

Anos se passaram e Gebel passou a liderar um exército de demônios, aniquilou o resto da Guilda e invocou um castelo demoníaco para dirigir seu ódio à humanidade. Miriam então acorda de seu sono, fica sabendo o que seu amigo havia feito e parte pro castelo pra ver se bota juízo na cabeça do mesmo, juntamente com Johannes (um alquimista ex membro da funesta guilda) e assim o jogo tem início, de um modo mais Castlevania impossível, huahua

Ao se aproximar do castelo, Gebel aparece, acompanhado do demônio Gremory, e está bem diferente do que Miriam se lembrava, incentivando-a ainda mais a impedir que o mesmo alcance seus objetivos. Na sua jornada ela também tem a ajuda de Dominique, uma exorcista membro da Igreja, amiga de Johannes.

Ao adentrar no castelo, Miriam enfrenta uma infinidade de demônios, porém dois humanos também aparecem no seu caminho. O primeiro é Zangetsu, um samurai que odeia demônios e tudo relacionado a eles, o que também inclui fragmentários como Miriam.

Com o desenrolar da história, Zangetsu passa a respeitar Miriam e se torna um poderoso aliado

Outro que surge é Alfred, mestre de Johannes, e que está atrás de um poderoso livro de magias que está nas mãos de Gebel, e também acaba entrando em conflito com Miriam em sua jornada dentro do castelo.

Alfred é um dos sobreviventes da guilda dos alquimistas e se mostra muito interessado no livro que Gebel usou pra invocar o castelo, o Liber Loageth

No decorrer da aventura, Miriam pode topar com Gebel no alto do castelo, após uma escadaria bem peculiar(e familiar pros jogadores de SOTN e Rondo of Blood) e se ele for derrotado, um bad ending acontece, mas com ele alguma coisa parece não estar correta...

Gebel parece voltar ao normal antes de morrer, além do castelo não se desintegrar junto com ele

Contudo, se o jogador não confrontar Gebel antes da hora, Zangetsu descobre que ele está sendo controlado por Grimory, um demônio que o mesmo está perseguindo há anos e que apenas sua espada pode atingir. Então, empunhando a espada do samurai, Miriam vai a encontro de seu amigo, e ao acertar a lua com a espada, Gebel sai do controle do demônio, que foge.

Isso não é o suficiente pra salvar Gebel, que acaba morrendo. Miriam então parte na busca de Grimory e em sua jornada descobre que Dominique, a exorcista peituda da igreja, estava manipulando todos por algum motivo. 

Alfred também reaparece, mas é gravemente ferido e antes dele morrer Miriam descobre que ele era o responsável pelo seu sono anos atrás, o que impediu que a mesma fosse sacrificada, e ele estava atrás do Liber Loageth apenas para destruí-lo a fim de acabar com o castelo demoníaco.

Após um sacrifício de Zangetsu, Miriam consegue derrotar Gremory, mas quando tudo parecia terminado, Dominique aparece, pega o Liber Loageth da mesma e parte pra libertar Baal, o demônio mais poderoso do inferno e pretende absorver o poder do mesmo para si.

                                                                Revoltada ela, não?

Mas mesmo com o poder do poderoso Baal, Dominique é derrotada e o castelo demoníaco finalmente sucumbe. Johannes parece respirar aliviado que tudo acabou, mas Miriam diz que aquilo só irá terminar quando o último dos demônios for aniquilado. E fim!

Cena clássica dos heróis olhando no horizonte enquanto o castelo é desintegrado. Chupa, Konami!

Apesar de ser cheia de conveniências, a história de Bloodstained se sai bem pro padrão que os Castlevanias do Igarashi até então possuíam. Symphony of the Night e seus sucessores lançados pros portáteis da Nintendo nunca foram um primor de narrativa, e esta apenas servia pra situar o jogador no contexto do game, e aqui com a Miriam a coisa não foi diferente.

E os fãs não esperaram tanto tempo por um novo metroidvania/igavania apenas por uma historinha meia boca, correto? Eles queriam aquele gameplay característico, coisa que o jogo entregou muito bem!

O estilo de jogo é idêntico ao de SOTN e seus derivados, com fases não lineares interligadas, sem abismos OHKO e continues ilimitados. O mapa segue exatamente o mesmo esquema que mesmo Metroid tinha nos consoles da Nintendo décadas atrás, com muita coisa pra ser explorada e descoberta, como passagens secretas acessíveis apenas com habilidades específicas.

Os elementos RPG também estão muito presentes aqui. Miriam ganha experiência ao derrotar inimigos, ganhando níveis no processo e aumentando seus stats. Equipamentos diferentes podem ser equipados nela, aumentando seus atributos, algo padrão em SOTN e suas crias.

Miriam pode ter sua aparência totalmente customizada também, seja com equipamentos ou penteados e cores de pele diferentes

Também existem sidequests, tal como tinham em Portrait of Ruin e Order of Ecclesia, e nelas você precisa cumprir objetivos(seja matar demônios ou conseguir itens específicos) e pode conseguir bons itens no processo

O dinheiro também está presente e ele pode ser usado pra se comprar itens da Dominique(e de sua pequena assistente, quando a loira voluptuosa decide te trair e pirar na batatinha).

Além de gastar seu rico dinheirinho também é possível usar drops de monstros pra fazer poções, comidas e equipamentos com Johannes. 

De todas suas possíveis criações, as melhores são sem dúvidas as armas. Miriam pode usar espadas de uma e duas mãos, chicotes, pistolas(estas que necessitam de munições), lanças e clavas, cada uma com suas vantagens e desvantagens, se adaptando para o que o jogador achar melhor, da mesma forma que acontecia em SOTN e Portrait of Ruin por exemplo.

Os chicotes sem dúvidas dão um feeling ainda maior de castlevania pro jogo, apesar da Miriam estar mais pra Whip de King of Fighters do que um Belmont de Castlevania ao utilizá-los

Lâmpadas e velas também podem ser quebradas, pra se conseguir dinheiro ou rosas pra recuperar MP(que se recupera sozinho lentamente, bem lentamente). E se isso não é o suficiente pra destruir tudo no jogo, Igarashi e sua equipe também inseriram as magias de jogos de luta de Alucard no game!

Chamadas de Técnicas, as magias são encontradas em livros espalhados pelo game e precisam de armas específicas para funcionar. Não são necessárias pra zerar o jogo, mas são bem divertidas e interessantes de serem feitas

Além das armas e técnicas, como Fragmentária, Miriam também pode absorver habilidades de demônios, de forma parecida que Soma fazia em Aria/Dawn of Sorrow e Shanoa em Order of Ecclesia.

             O modo como Miriam absorve os fragmentos é brutal e lindo ao mesmo tempo

Existem tipos diferentes de fragmentos: Os Acionadores(que acionam algum tipo de feitiço pra ajudar Miriam, seja um escudo de quadros ou uma rajada de fogo), os de Efeito(que dão algum efeito especial pra Miriam, a custo de MP, como andar mais rápido), os Direcionais(são parecidos com os Acionadores, mas esses Miriam pode mirar e utilizá-los em direções específicas), os de Feitiço(que são ativados automaticamente e não gastam MP, dando algum stat boost pra personagem, normalmente) e os Familiares(que invocam criaturas pra te ajudar, a la SOTN). Todos eles podem ser melhorados, seja através da opção Aprimorar fragmento da loja de Johannes ou adquirindo mais do mesmo fragmento(que pode ser acumulado no total de 9 vezes), deixando seus efeitos mais duradouros e poderosos. Também é possível vender fragmentos, assim conseguindo uma graninha extra.

Além destes também existem os fragmentos de Habilidade, que são necessários pra se avançar na história, como o salto duplo e o inverter, que deixa o cenário de cabeça pra baixo para que áreas extremamente altas possam ser acessadas, uma baita referência à segunda metade de Symphony of the Night.

O interessante dessa habilidade é que os inimigos e familiares continuam de ponta cabeça, até o cachecol de Miriam fica apontado pra cima, ou melhor pra baixo, hauhaua

Com tantas possibilidades de customização e armamentos diferentes, tal como existia em Order of Ecclesia e em Dawn of Sorrow, o jogo permite que você organize sets diferentes de equipamentos/fragmentos em um menu de atalhos e os use conforme a ocasião pedir, mas ao contrário de seus antecessores, você pode usar não apenas dois, mas 8 slots para tal! 

O jogo se passa basicamente dentro do castelo(com exceção de algumas áreas, como o trem e o navio do começo do jogo), mas não é por isso que os cenários são repetitivos ou mal feitos. Eles são muito bem detalhados e iluminados, as críticas que os apoiadores fizeram realmente foram levadas à sério aqui.

Um bom exemplo do primor dos detalhes do jogo é o da fase de gelo(a última do jogo), onde aparecem monstros congelados no fundo

A variedade de inimigos é muito boa para um jogo 3D, onde normalmente reaproveitam os models como loucos. Os bosses também são muito bem feitos e peculiares, contribuindo e muito pra ambientação do game.

Esse cretino por exemplo, quando tem o HP diminuído, suga todo seu dinheiro e o converte em vida pra si, hauhua

A dificuldade... Bem, no início vocês só tem o modo normal pra escolher(após zerar o jogo os outros se tornam disponíveis), e tal como os seus irmãos mais velhos, a dificuldade está diretamente relacionada aos recursos que você possui, tal como seu nível e tudo mais. Porém alguns bosses aqui possuem uma boa taxa de dano até, o que faz com que o jogador gaste muitos e muitos itens de cura ou mesmo morrer facilmente, se for descuidado.

Fase chamada de "Pesadelo 8bit", onde você monstros que são claras alusões aos Castlevanias de NES, e esse boss é bem mais difícil que o Baal que seria o demônio pica das galáxias, bem 8bit mesmo, ahuahauha

No decorrer do jogo existem várias salas secretas, que precisam de chaves específicas para serem abertas e atrás delas estão alguns dos inimigos mais interessantes do jogo. Destaque vai pro inimigo chamado Espectro da sala "Cavalo de Guerra", que se trata de um zumbi que usa chicote, solta machados e cruzes em você. Isso mesmo: uma versão zumbi de um Belmont, é sensacional!

Pra quem ainda duvida da referência, a missão para derrotá-lo se chama "Vingue a morte de Richter", hauahua

Outro inimigo bem complicado é O.D, um vampiro bibliotecário (o qual empresta livros pra você, que podem aumentar seus stats), que é disponível pra batalhar no pós game, e seus movimentos são uma clara alusão ao vampirão Dracula de Castlevania. Gremory, que você enfrenta na mainstory, antes de encarar Baal, é a Death do game, com direito a foices e afins.

O jogo é um festival de referências aos fãs de Castlevania do começo ao fim, chupa, Konami ²!

A navegação do jogo é bem intuitiva e Dominique volta e meia te dá altas dicas de como passar determinado empecilho no seu caminho. Mas em alguns momentos o jogo para de passar a mão na cabeça do jogador e faz você se virar, como quando é necessário adquirir um fragmento específico de um inimigo pra conseguir passar pela água, ou conseguir uma armadura pra não ser machucado pelos espinhos, esta que está escondida de ponta cabeça numa plataforma em uma das fases no meio do mapa.

                      Só com essa armadura é possível avançar na história, aliás

Por mais que muitos pensem que isso é um ponto negativo do game, não deve ser visto dessa forma. Estimular o jogador a explorar e descobrir uma saída daquilo que está lhe impedindo ao invés de dar a solução de graça pro mesmo não é algo muito comum nos jogos de hoje, com tutoriais a cada input que a pessoa dá no controle. Se foi proposital ou não, não vem ao caso, mas é algo que não sai do escopo dos metroidvanias/igavanias que o antecederam.

Ao sentar no piano em um das fases, com o familiar Carabosse(uma fada) ela começará a cantar enquanto Miriam toca o instrumento, outra referência à SOTN

A trilha sonora do jogo é de uma excelência incrível, com o jogo sendo verdadeiramente outra Sinfonia da Noite. Os gráficos não são o de melhor existe no mundo, os personagens não são lá muito expressivos, mas o detalhamento dos cenários, a variedade de inimigos, o design de Miriam e dos bosses com certeza compensam isso e muito.

Concluindo...

Após o fracasso de Might nº 9 muitos ficaram receosos quanto ao destino de Bloodstained, ainda mais que Koji Igarashi se baseou em Inafune pra lançar seu projeto no Kickstarter. Mas felizmente Igarashi é competente no que faz e seu jogo saiu no momento certo e na hora certa, e entregou tudo aquilo que os fãs esperaram durante anos: o supra sumo de todos os metroidvanias/igavanias feitos por ele, com as melhores ideias de cada um inseridas dentro de um único e incrível jogo.

Nem mesmo as poses de Jojo Bizarre Adventure de Portrait of Ruin ficaram de fora aqui, hauhua

O carinho que Igarashi e toda sua equipe tiveram na produção, a esperança de todos os apoiadores do projeto, os fãs que apontaram os defeitos que precisavam ser corrigidos antes do lançamento, todos esses fatores se uniram para este jogo ser o que é: um sucesso retumbante do kickstarter, o sucessor digno de Castlevania, uma obra incrível que jogadores veteranos se satisfarão e que iniciantes poderão se apaixonar se derem uma chance. 

Isso é Bloodstained Ritual of the Night: é um exemplo a ser seguido e uma obra a ser apreciada.

E chupa, Konami ³!

10 10 10
Overall
10 Gameplay
7.5 Story
10 Music
9.0 Graphics
Utilização dos melhores elementos de SOTN e suas crias
Trilha sonora de um primor incrível
Grande variedade de referências à Castlevania
Vários modos de dificuldade

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