2019-12-29 23:26:14 -0200 2019-12-29 23:26:14 -0200

Como o universo dos jogos pode inspirar a literatura?

Single 3765772 featured image

Como uma grande fã de qualquer veículo que permita a criação de mundos diferentes, sempre fico feliz quando dois deles se interagem na composição de uma história ou quando um é usado para complementar a história de outro. Fico especialmente admirada quando isso acontece entre o universo dos jogos e a literatura: dois campos vistos por muitos como distintos e intercambiáveis, devido às dinâmicas tão opostas que os compõem. A forma estática dos livros, especialmente aqueles que não têm o alicerce das ilustrações ao longo de suas páginas, é um dos motivos para tantos jovens se afastarem deles, preferindo assistir ao filme correspondente, uma série ou jogar um videogame. Não que esses outros veículos maléficos para a cultura de um indivíduo, porém, visto que eles não podem dar os mesmos frutos que uma leitura - falo de fornecimento de vocabulário, alimentação do nosso lado lúdico e consequente treino da criatividade, entre outras coisas -, é um ponto digno de trazer preocupação. Eu, ao menos, como escritora, fico agoniada só em pensar que livros tão maravilhosos deixam de ser lidos simplesmente porque suas histórias são contadas em um formato não atraente a algumas pessoas.

Foi aí que criei para mim mesma o objetivo de criar uma história que, mesmo contada apenas em palavras, pudesse trazer o sentimento de estar num universo semelhante a um bom RPG ou a um anime shounen. Nasce então meu segundo livro: Com o Fim da Tempestade.

Qual foi a influência dos games na composição da história?

Em primeiro lugar, ela atuou na caracterização dos personagens. Quando comecei a pensar nas roupas que eles usariam, li um artigo no portal Academia sobre os padrões de cores presentes nos jogos eletrônicos - falava da composição do Mario, Luigi, Bowser, entre outros -, e tomei os gráficos e referências como base para decidir a cor de cada peça de cada um deles. A cor vermelha foi a mais usada nesse processo, e assim alguns personagens a usam em destaque e outros a têm apenas em acessórios ou em pequenos detalhes da roupa. Ao longo da história, muitos deles alteram suas customizações, seja por troca de roupa ou porque algumas partes dela são destruídas na guerra, e cada uma dessas transições fala um pouco sobre a transformação do personagem.

Quanto ao desenvolvimento dos personagens, também tive inspiração em alguns dos meus preferidos dos games. A relação entre os dois personagens centrais do livro, Mathias e Isaac, é inspirada, em parte, na relação entre Luke e Ash do RPG Tales of The Abyss; o caçula do grupo, Noel, tem a personalidade inspirada em Sora de Kingdom Hearts e seu desenvolvimento tem traços da minha interpretação do Link de Ocarina of Time;  a líder Alexis foi desenhada enquanto me lembrava de Mistsuru de Persona 3; entre outros.

A dinâmica dos RPGs também influenciou. Em vários momentos, principalmente na segunda parte do livro, o grupo se divide em pequenas equipes que vão se alternando em batalhas diferentes, sempre acompanhando a visão do protagonista, o que faz alusão às trocas na party que acontecem frequentemente nesses jogos. Alguns personagens fazem combate à distância, outros no mano a mano, e outros trabalham como suporte.

E por fim, houve presença de músicas de jogos na construção da trilha sonora que ambienta a história. A começar pela que foi mais emblemática: a abertura de Dragon Ball Z Burst Limit, Kiseki no Honoo yo Moegare. O instrumental da abertura de Dragon Ball Z Budokai 3 fez presença também, assim como a Obstacles que toca em Life is Strange, Passion, Face My Fears e Don't Think Twice de Kingdom Hearts, Progress de Tales of Xillia, Bird Chips I Sing de Tales of Legendia, o tema de Zelda Wind Waker, a abertura de Persona 3 FES, e por aí vai.

Além de tudo isso, muitos elementos de animes foram usados também, em principal os de Fairy Tail e Naruto.

Objetivo

Muita coisa da história pode ser considerada clichê para quem já está ambientado nessas duas culturas, mas o lance é exatamente esse: fazer o leitor se identificar e lembrar daquilo que conhece e gosta vindo de outras mídias. Para aqueles que não têm tanto contato com jogos e animes, o objetivo então é fazer com que ele tenha um experiência um pouquinho diferente ao ler um livro. É óbvio que não sou a primeira a fazer isso, portanto também deixo aqui a indicação do livro de um cara que fez isso muito bem: Matéria - Espada de Madeira.

Por que escrevi isso?

Queria concorrer ao concurso literário da Amazon com a história que sempre quis escrever, que me fizesse quebrar todos os paradigmas que tinha com o mundo da literatura - que eu mesma dividia do mundo dos animes e dos games quando queria criar uma nova história - e que levasse jovens leitores a fazerem o mesmo. Com o Fim da Tempestade é uma história que mistura tudo o que sempre admirei e de que sempre fui fã nesses três universos, tornando-se, assim, a história mais sincera que já escrevi.

41
  • Micro picture
    artigos · about 2 months ago · 2 pontos

    Parabéns! Seu artigo virou destaque!

  • Micro picture
    davidchagas123 · about 2 months ago · 2 pontos

    Fiquei instigado a ler o livro

  • Micro picture
    dan8d · about 2 months ago · 2 pontos

    Oi, tudo bem? :)
    Bem, gostaria da sua autorização para colocar sua publicação em uma revista digital que estou desenvolvendo aqui para o alvanista, ela é totalmente gratuita, estou fazendo para criar um portfólio e por um amor pessoal meu por revistas gamers kkkk.
    Vou deixar o link da minha publicação com a segunda edição para você olhar e avaliar se me autoriza a usar sua publica
    http://alvanista.com/dan8d/posts/3767105-revista-alvanista-002

    1 reply
  • Micro picture
    erikrosa · about 1 month ago · 2 pontos

    Muito bom o teu artigo! Nunca tinha visto antes um texto que fala sobre a intersecção entre o mundo literário e o dos games, parabéns.

  • Micro picture
    rafa_dono · about 1 month ago · 1 ponto

    A trilogia (em breve uma tetralogia) Dragões de Éter, bem como o volume único Fios de Prata - Reconstruindo Sandman, todos de autoria do brasileiro Raphael Draccon, são cheios de referências não só a games mas a toda a cultura pop.
    No universo de Dragões de Éter a rainha de Arzallum não é ninguém menos que Terra Branford de Final Fantasy VI, e as descrições e histórias de seus filhos lembram muito as de Edgar René e Sabin Roni Figaro do mesmo jogo. Para citar as referências mais claras, nesse universo criado mesclando contos clássicos da literatura infantil como João e Maria, Chapeuzinho Vermelho ou Robin Hood com personagens de videogames, séries de TV e afins.
    Em Fios de Prata, quando uma guerra eclode no mundo dos sonhos, todo tipo de personagens fantásticos assumem postos no combate, e a minha referência preferida é a dos Santos de Bronze da deusa Atena, amigos meus de mais de 20 anos. Eu não li Jogador Nº 1 ainda, mas levando em conta o filme, bem daquele jeitinho.

    Eu amo games, principalmente JRPGs, mas não tanto quanto poderia (ou deveria, considerando um PS4 pegando poeira cheio de jogos incríveis e intocados na minha estante). Minha paixão sempre foi maior pelos mangás. Eles inclusive me afastaram por anos dos livros: lia muito quando criança, mas não conhecia muitos livros que falassem a minha língua e os "indicados" (OBRIGADOS) pela escola chegavam a me assustar - e não do jeito bom que um bom horror consegue. Então vieram os mangás e me afoguei na sua enxurrada.
    "Recentemente" (coisa de uns seis anos) me reencontrei com os livros, e entre outras maravilhas que me propiciaram desde então foi a retomada da esperança: não demorou muito para cair na real que seria inviável eu desenhar meus próprios mangás, mas... Nada me impede de escrever meus próprios livros e até de ilustrá-los! (nada além da minha falta de criatividade, quero dizer)
    Mecânicas de jogo e de narrativa, assim como o teor épico dos JRPGs são coisas que pretendo incorporar nos meus textos (supondo que um dia eu consiga escrever algo), mas o meu foco mesmo é passar a ação desenfreada e exagerada que os mangás conseguem transmitir, mesmo com imagens estáticas, para o texto. Tenho lido bastante em busca de referências nas quais me espelhar, e embora já tenha encontrado alguns livros muito bons, a melhor experiência que tive foi com a série Watches, do russo Sergei Lukyanenko, que infelizmente não veio para o Brasil ainda (li as traduções para o inglês feitas pelo Andrew Bromfield).
    Eu tenho algumas ideias próprias que não saem do lugar, mas também gostaria de transformar o Projeto Beyond, que toquei por uns anos com uns "amigos", em um épico. Mais abaixo deixo um link para o site provavelmente abandonado (eles me mencionam lá, mas eu nem estava mais envolvido quando esse site foi criado, então não tem fotos nem nada mais relevante meu lá). Também tenho ideias, que teriam que se limitar ao "fanfic" (palavra que me dá calafrios, mas texto não licenciado baseado em conteúdo alheio não passa disso, né?), de novelizar os livros do personagem Sutter Cane do filme À Beira/No Limite da Loucura. Ou alguns games, como a trilogia Shadow Hearts.
    Infelizmente só fico derrapando em cima da página em branco. XD

    Site do Beyond. Acredite quando digo, esse poderia ser um épico de 52+ volumes de mangá (nossa intenção inicial) ou mais de 1 milhão de palavras em quatro calhamaços tipo A Guerra dos Tronos. Um épico como nunca se viu. Mas que provavelmente, infelizmente, vai morrer na obscuridade:
    http://novobeyondproject.mystrikingly.com/

Keep reading → Collapse ←
Loading...