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brunothebigboss Bruno dos Anjos Seixas

"Jogo é fonte de diversão, e não fonte de lição de moral" Será mesmo?

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Calma aí pessoa, não é bem assim

(OBS: Esse artigo terá apelo transmídia, ou seja, não será dedicado unicamente aos videogames)

Recentemente, ocorreu o Oscar 2018, e bem, o que todos previram aconteceu: o Oscar desse ano foi considerado um dos mais políticos da história, com discurso feminista e tudo. Além disso, teve vários recordes, como por exemplo, o primeiro filme estrelado por uma trans a vencer um Oscar (ah, e se não estou enganado, ele é chileno). Não vou dizer se essas indicações foram justas ou não, pois não sou especialista de Oscar, mas tudo isso que eu disse é verdade.

Pois bem, lá estava eu, navegando na IGN Brasil, quando me deparo com a notícia de que o Oscar desse ano teve a audiência mais baixa da história: "apenas" 26,5 milhões de pessoas. Fui ver os comentários, e, bem, todos me diriam pra eu não fazer isso porque, convenhamos, não tem moderador nenhum naquela droga. Mas eu vi e me chamou a atenção a quantidade da gente comentando a notícia quase como uma comemoração: "F*deu", "Oscar já era", e um que realmente me chamou a atenção:

Se você adivinhou que o troll de cima e o nintendista de baixo foram os estopins para esse artigo, bom... é bem por aí.

Portanto, vamos responder a pegunta do título... que não é realmente uma pergunta. Isso porquê se você, ao contrário da imensa maioria das pessoas, sabe interpretar texto, sabe que os dizeres "Será mesmo?" podem ser facilmente substituídos por um sonoro "NÃO!". Agora a questão é dizer porquê que isso tá errado...

Antes de começarmos, aviso que a definição dos nossos amigos aí em cima é extremamente vaga, portanto usarei a definição do Wikicinário (acredite, foi o único lugar que falava disso como um dicionário), que diz que lição de moral é "frase ou ensinamento que busca levar o outro a refletir sobre si mesmo ou aos outros a seu redor" (sim, eu complementei o significado). Vamos lá...

Obras magníficas seriam perdidas se quem fez pensassem assim

MGSV, considerado por vários  como sendo a história mais fraca da franquia, trata de aculturação, economia de guerra, perda de identidade, entre outros temas. Se esse é o mais fraco, imagina os outros...

Para alguns, é difícil de acreditar (ainda mais agora quando temos uma "ultrapolitização" e vários movimentos sociais entrando em cena), mas é verdade: obras com lições de moral sempre existiram, e pior, algumas são idolatradas por essas mesmas pessoas. Se você acha que estou mentindo, agora vou citar algumas obras com lições de moral INTENCIONAIS (ou seja, o autor quis passar aquela mensagem) que vários consideram serem boas como um todo:

-Os Miseráveis, de Victor Hugo (Livro)

-O Grande Ditador, de Charlie Chaplin (Filme)

-Neon Genesis Evangelion, de Hideaki Anno (Anime, feito pela GAINAX)

-Franquia Metal Gear, de Hideo Kojima (Videogame, publicado pela Konami)

-Éden: Um Mundo Infinito, de Hiroki Endou (Mangá, publicado em 9 volumes pela Editora JBC)

-Etc...

Fora as inúmeras obras que não são muito conhecidas, mas que arrebatam qualquer um que conhece e que, olha só, possuem lição de moral. Na verdade, para algumas obras, a mensagem é seu grande trunfo. Metal Gear Solid 2 que o diga!

E nós ainda uma outra categoria de obras. Categoria essa que nos leva ao segundo ponto:

Todas as obras possuem mensagem, independente de sua vontade

Death Note

Tá vendo aí em cima a obra famosona e tão boa, mas tão boa, que até quem odeia ou não costuma ver anime e/ou mangá gosta dela? Se sim, talvez você já tenha entrado em vários debates sobre a justiça dos personagens da obra, ou talvez tenha visto resenhas dela acompanhado de frases como "O que é a Justiça?".

Você lembra disso tudo? Pois saiba que nada disso foi intenção do autor. No Databook de Death Note, o criador Tsugumi Oba "confirma" que não foi sua intenção que a série fosse um debate sobre a justiça (tanto que ela foi publicada na Shonen Jump, que não tem público alvo pra isso) e que, se tinha uma lição a dar com a série, era de que o amável jogando a maçã aí na imagem era do mal e merecia ser punido. Mas... bem, não tinha muito o que fazer :)

Enfim, vocês viram o que aconteceu. Death Note foi criado e, sem aval (leia-se "intenção") do autor, a série cria toda uma discussão sobre um tema pertinente. Acho que esse exemplo já explica por mim...

(Inclusive, tem um vídeo bem bacana sobre isso. Tá aqui em baixo)

Esse tipo de comportamento enfraquece as mídias

Há quem considere Neon Genesis Evangelion como um dos animes mais importantes de todos os tempos (o que pode ser difícil de acreditar caso você só tenha visto a cena do "parabéns" descontextualizada) devido a todo o seu trabalho de desconstrução do gênero "mecha" (Robôs gigantes) através da exploração do psicológico dos personagens. Talvez isso não fosse se o criador não tivesse depressão na época, ou se dependesse desses caras...

Se você for ver a maioria das obras recomendadas por aí para leigos de diversas mídias, é provável que você tombe com obras que passam lição de moral para seus interlocutores e que talvez tenham ajudado no amadurecimento de sua forma de mídia. Alguns exemplos são:

-Gen: Pés Descalços, de Keiji Nakazawa (Mangá, publicado no Brasil pela Conrad Editora)

 -Tempos Modernos (Dispensa comentários)

-Metal Gear Solid (o de 1998, esse foi um marco)

-Etc...

O ponto que quero chegar é que as obras citadas, independente de serem MUITO conhecidas ou não, contribuíram positivamente para suas mídias, não apenas por suas técnicas narrativas, estéticas, entre outros, mas porquê... bem, tinha mensagem! E isso fez as pessoas enxergarem as mídias hospedeiras com outros olhos.

E se não tivessem existido? Ou até se tivessem, mas de outra forma? Aí teria sido bem mais difícil...

E por último...

Ninguém merece ter apenas um tipo de jogo

[Deveria ter uma imagem aqui, mas não encontrei nada que pudesse ilustrar corretamente minha linha de pensamento. Desculpe :(]

Oras, se todos os jogos fossem apenas uma coisa, vocês não concordam que ia cansar uma hora? Da mesma forma que não é necessário que todos os jogos/livros/mangás/filmes/whatever sejam um MGS2 da vida (até porquê as chances de falharem são grandes), se todos os jogos fossem apenas uma fonte de diversão, não tardaria para que alguém decidisse dar um passo a frente (Seria um jogo indie, talvez?).

Considerações finais

No fim das contas, é bom medir bem suas palavras. Entendo que em sociedades altamente polarizadas, talvez as pessoas comuns queiram se distanciar da raiva e queiram jogar alguma coisa mais comum (tanto que esse foi um dos fatores de sucesso de Star Wars e Exterminador do Futuro, por incrível que pareça), mas desejar o fim desse tipo de obra é uma falácia e um retrocesso sem precedentes pois, além de todos os motivos apresentados aqui, ainda corre o risco de alienar ainda mais as pessoas. 

Sendo assim, espero que tenham gostado desse artigo. Como sempre, se tem algo a sugerir, me diga, pois assim podemos aprofundar esse debate (criado por dois trolls com identidades falsas...). 

Até mais!

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    sophos · over 1 year ago · 4 pontos

    um monte de burros, os caras leem x-men, assistem star wars , ouvem renato russo e jogam bioshock e não entendem porra nenhuma.

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    sophos · over 1 year ago · 3 pontos

    outro ponto é: qual o problema desse treco chegar a e3? e daí? censura é imposta, se alguem vetar um jogo por qualquer que seja o motivo então está censurando. mas aqui falamos de mecanismo legitimos de pressão. o mesmo tipo de mecanismo por exemplo que é usado pra fazer a capcom melhorar o rosto de chun li em marvel vs capcom ou balancear melhor o street fighter.
    pressão é um mecanismo legitimo e é saúdavel. o que nãoo é legitimo é um governo vetar um jogo por que ele é subversivo, machista ou qualquer outra merda.

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    sophos · over 1 year ago · 2 pontos

    coisas banais são legais, mario é uma mera alegoria ao conto do cavaleiro e da princesa. mas obras politizadas são igualmente interessantes, desde os miseraveis citado por ti ao recente this war is mine.

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    mateusfv · over 1 year ago · 2 pontos

    Ótimo texto, muito bom msm é difícil de um texto longo me prender a atenção, mas é um assunto realmente interessante e importante, Exemplo: caso isso acontecesse na E3 como foi citado ali, eu vejo a E3 é esperando ouvir as novidades pros próximos anos sobre JOGOS, não sobre o sexo dos personagens, etnia, a violência, etc.
    Afinal estruturalmente a grande maioria dos seres humanos são todos iguais com algumas exceções, não importa que gênero são, qual a cor de suas peles, todos são humanos iguais a mim e a você, a grande maioria tem um cérebro um coração, 2 pulmões, etc.
    Se eu quisesse ouvir uma palestra de 2 horas de o porque de tal opinião eu ia atrás disso, o problema é que isso tá saindo de controle e estão tentando enfiar em tudo, como se isso fosse fazer a "diferença", o problema não é querer dar opinião é querer forçar ela que nem a maioria da galera faz.
    E sobre MGS2 eu acho que de tema e história ele é o mais atual e interessante de todos os jogos da franquia, mas o grande problema é que a grande parte dos personagens são um bando de whatever, ninguém ali é marcante pelo motivo certo, tipo o FatMan ele é lembrado por causa desse nome bizarro dele, não pq ele era um terrorista e bla bla bla.

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    luizteodosio · over 1 year ago · 2 pontos

    Eu honestamente acho importante a discussão de temáticas raciais e feministas em todas as mídias, embora eu não seja negro ou mulher para dizer que sou militante de qualquer uma delas. A questão é que como o texto apontou: discussões sociais e políticas SEMPRE foram feitas em todas as formas de artes, simplesmente porque é algo natural a se fazer, faz parte da mensagem (se a pessoa não concorda com ela, aí são outros quinhentos). E como games são uma forma de arte, você encontra diversas mensagens, diversas ideologias, em vários tipos de jogos. Ainda assim, questões serão levantadas mesmo que não sejam a intenção do autor ou dos produtores (como o texto também indica).

    E a audiência do Oscar caiu tb por "n" outros fatores. A premiação vem acumulando desvalorização já faz anos. Hoje, com a internet, temos diversos críticos que fazem o seu TOP10, o que fez o "selo de qualidade" dos filmes se espalhar pela rede. O mesmo vale para The Game Awards.

    1 reply
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    brunothebigboss · over 1 year ago · 1 ponto

    Ah, e feliz dia das mulhere-digo, do feminismo!

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    danilodlaker · over 1 year ago · 1 ponto

    quem lacra não lucra²

    15 replies
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