2020-08-23 14:09:16 -0300 2020-08-23 14:09:16 -0300

Sony e Microsoft - Mais duas incógnitas

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Há poucos dias eu vim aqui comentar um pouco sobre o retorno da Nintendo ao Brasil e fui bem contundente ao dizer que o cenário parece extremamente desfavorável. A conclusão foi de que ou a Nintendo sabe de algo que não sabemos e tem muito bem traçado o seu plano de negócios para gerar lucro mesmo em meio ao caos, ou a empresa cometeu um enorme equívoco e pode mais uma vez sair correndo daqui, deixando os fãs órfãos de novo e demonstrando mais uma vez que o Brasil é um lugar inóspito para a indústria de entretenimento eletrônico.

Pouco tempo depois, não pude deixar de me perguntar: e a Sony? E a Microsoft? Será que elas estariam em uma situação melhor? Será que o que ponderei acerca do caso da Nintendo também vale para as suas concorrentes? Nosso mercado de games tem como melhorar ou estamos testemunhando "a calmaria antes da tempestade"? Neste artigo, que é o meu primeiro feito com um pouco de pesquisa e planejamento, lamento trazer de novo uma perspectiva um tanto pessimista, mas vejo riscos de a nossa situação piorar, talvez até de modo catastrófico.

A nova geração de consoles está vindo aí, faltando pouquíssimos meses, e a gente sabe que preços exorbitantes não são nenhuma novidade. Ficamos pasmos e procuramos rir para não chorar a cada novo anúncio de preço (benditos sejam os memes e seus criadores), mas o fato é que, a essa altura, nada mais nos surpreende de verdade. O brasileiro já está acostumado a ver que certas coisas só são acessíveis se a ele for rico ou fizer um belo de um sacrifício. Dito isso, o que se pode esperar dos próximos lançamentos do "time azul" e do "time verde"?

A situação da Sony

A Sony, com seu PlayStation 5, deverá ter os produtos mais caros do nosso mercado, pelo menos em média. Já faz aproximadamente um ano que a fabricação do PlayStation 4 deixou de ser feita aqui no Brasil, apesar da iniciativa do governo de reduzir um pouco o IPI. Na verdade, essa medida nem serviu para melhorar a nossa situação, já que a produção de consoles era (e ainda é, no caso da Microsoft) feita na Zona Franca de Manaus, o que acarretava a isenção de vários tributos, incluindo o IPI.

Além de todos os custos de importação e logística, o que deve fazer os produtos da Sony serem, em geral, mais salgados é o fato de que tanto a versão com leitor de disco quanto a versão digital do PlayStation 5 terão exatamente o mesmo hardware. Não vai haver desnível de performance entre os dois aparelhos e a diferença de custo de produção provavelmente será mínima. Os preços ao consumidor final, consequentemente, deverão seguir a mesma lógica.

O caso da Microsoft

O "time verde" me parece apresentar possibilidades, digamos, divergentes. Se por um lado a empresa pode acabar trazendo o aparelho mais caro da geração, por outro pode acabar oferecendo uma opção mais em conta e que pode atrair bastante gente que quer ter uma experiência contemporânea com seus jogos sem ter que vender um órgão. Isso depende de a Microsoft tornar oficial a existência do Xbox Series S, que muitos dizem ser o segredo mais mal guardado da história da indústria, e eu tenho que concordar.

O Xbox Series X irá muito provavelmente ser o mais caro de todos os aparelhos por ser comprovadamente o detentor do hardware mais potente, perdendo para o PlayStation 5 apenas em velocidade de leitura/escrita de dados do SSD. Isso se concretizando, ainda que o console seja fabricado no Brasil, seu preço deverá ser exorbitante.

Temos, no entanto, a questão do Series S, que terá menos poder de processamento de gráficos, menos memória RAM e provavelmente virá sem leitor de mídia física, barateando significativamente o projeto e trazendo um alívio à carteira de quem comprá-lo. Pode vir a ser uma opção muito atrativa, principalmente nesse momento de crise, que parece que não vai terminar tão cedo. Há também o Xbox Game Pass, que já está funcionando e disponibilizando um catálogo expressivo de jogos como se fosse uma Netflix dos games. 14 reais mensais para usar a plataforma no PC e 30 reais no Xbox é insanamente barato para os nossos padrões atuais. Com isso, talvez a Microsoft tenha mais possibilidades para se manter presente no Brasil, onde a gente cada vez mais depende de melhores relações custo x benefício.

O cenário político

Partindo agora para o que mais influencia o acesso da população aos games, vamos olhar para o andamento da política econômica brasileira. Há várias formas de os nossos "representantes" eleitos (com aspas por raramente nos representarem de fato) tanto ajudarem quanto atrapalharem na hora de intervir na economia, sendo que a tendência das nossas expectativas é quase sempre negativa. Até quando surge uma iniciativa que serviria para que os consumidores tivessem maior poder de compra, as melhorias acabam sendo muito tímidas e fazendo muito pouca diferença, como foi o caso da redução do IPI (já citado aqui) no ano passado, com a alíquota sendo reduzida quase que de forma irrisória.

O governo federal afirma que as reformas tributária e administrativa estão em andamento, enquanto deputados e senadores não parecem chegar a um consenso sobre como conduzir as tais reformas. Nós, cidadãos comuns, já estamos na expectativa de que a reforma tributária signifique aumento dos impostos e que a reforma administrativa seja insignificante ou então seja simplesmente jogada para debaixo do tapete. Enquanto isso, o Brasil se atrasa mais e mais com relação ao resto do mundo, mantendo um esquema em que a classe política suga os recursos da população até não poder mais, sem produzir nada que gere progresso ao mesmo tempo que impede que as pessoas aprimorem suas vidas por seus próprios esforços.

Com isso, uma das melhores hipóteses é que nossa situação continue a mesma, com o alto risco de mais aumento de preços sempre pairando sobre as nossas cabeças. Se a reforma tributária for feita porcamente, não só vai encarecer aquilo que não é necessidade primária (como os games), vai tornar mais caros também os bens de primeira ordem, enquanto uma reforma administrativa inconsistente, ou a não reforma, vai contribuir indiretamente para o empobrecimento da população e do país, fazendo com que o estado se agigante ainda mais e consuma uma fatia ainda maior da nossa renda.

Tempos sombrios à frente

De um lado, temos novos produtos chegando (não tão novos assim por parte da Nintendo, que só deve dizer alguma coisa sobre o sucessor do Switch a partir de 2021), mais pontentes e também mais caros do que nunca. Do outro lado, temos uma sociedade à beira da falência, com dificuldades de se recuperar das crises sanitária e econômica, com um governo em que o poder executivo se divide entre esforços para tentar garantir a reeleição do presidente e para fazer o que realmente é necessário para melhorar a situação econômica do país, enquanto o congresso nacional só tende a obstruir o andamento dos processos que reduziriam o tamanho do estado e garantiriam que uma maior parte da renda do brasileiro permanecesse com ele.

Para o nosso mercado de games, a consequência mais provável disso tudo parece ser aumento da carga tributária ou, no mínimo, manutenção dos atuais patamares de custos, o que de qualquer forma vai significar preços maiores por conta das novas tecnologias já custarem mais caro em sua origem e pela desvalorização contínua da nossa moeda, fazendo com que cada vez menos gente tenha condições de adquirir esses produtos. Enquanto não se sabe ainda o que a Nintendo planeja, os produtos da Sony parecem ser os que mais vão ficar inacessíveis, dada essa configuração dos fatores envolvidos, enquanto a Microsoft dá a impressão de que tem uma chance de ouro de estabelecer uma hegemonia por aqui, mas o melhor é sermos cautelosos porque sabemos que o Brasil não é para amadores e pode ser que haja não só uma nova fuga do "time vermelho", mas uma debandada completa de grandes empresas de consoles nos próximos anos.

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    denis_lisboadosreis · 3 months ago · 3 pontos

    Ingenuidade achar que a reforma administrativa maluca ia resolver alguma coisa (pra não dizer 'piorar'). E não é apenas o político vagabundo que suga recursos públicos, ele é apenas um intermediário.

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    diego_lacuna · 3 months ago · 3 pontos

    Por essas e outras que falo que o PS4 que comprei ano passado foi meu ultimo console, pois além do governo tem uns lojistas que se aproveitam legal, claro eles precisam lucrar também, mas tem uns casos que são bizarros, exemplo, se eu for vender um game meu pra uma loja, um de PS4, eles vão querer pagar de R$ 10 a R$ 20 em crédito (nem é em dinheiro), e os caras revendem esse jogo por R$ 90 tipo, mais que o triplo que pagou, quando algum doido me pergunta se estou empolgado para ter um PS5 eu ja penso "esse cara deve achar que estou cagando dinheiro e que tenho alguma cobertura na Barra da Tijuca", pois com essa, vejo que consoles vão ficar cada vez mais elitistas, nos próximos anos a pirataria vai voltar com muita força pelo visto (soube que a um tempo atrás país de primeiro mundo tinha aumentando a pirataria sobre filmes e séries, imagine como vai ficar aqui).

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    kess · 3 months ago · 2 pontos

    Enquanto o Brasil passar por uma recessão econômica, com dólar subindo, e com impostos altos, os videogames serão caros, e as empresas vão fugir daqui.

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    adrieltrigger · 3 months ago · 1 ponto

    É, galera, as coisas vão ficar mais difíceis, a única dúvida é em que ritmo. Acompanhando um pouco o que canais nintendistas no youtube vem divulgando, concluí que a Nintendo não pretende fazer muita coisa para se reinserir aqui no Brasil. Os caras mencionaram que a empresa já tinha algumas propagandas de seus jogos em português na internet e agora começaram a veiculá-las nas redes de TV fechada. Acho que dá para dizer claramente que o público alvo é composto de quem tem um poder aquisitivo maior e que a Nintendo não está nem um pouco preocupada com volume de vendas, optando por ser bastante cautelosa.
    Hardware para PCs vem ficando muito mais caro desde antes do coronavírus aparecer, por conta do desarranjo econômico do país. Não sei especificar o motivo, mas parece que a volatilidade nos preços das coisas do PC é ainda maior do que a dos consoles e seus acessórios, e a comunidade entusiasta de PC building vem sofrendo com isso. Temo por ambos os grupos no futuro próximo, consolistas e PC gamers, e enxergo, a partir do ano que vem, o Xbox Series S e os PCs de entrada (com aquele hardware que é só o mínimo necessário para rodar MOBA, por exemplo) como as opções "mais fáceis" de adquirir.

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    artigos · 3 months ago · 1 ponto

    Parabéns! Seu artigo virou destaque!

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    xymus · 3 months ago · 1 ponto

    Eu ja desisti dos consoles a anos... até hoje so tive PS1,PS2 e eu comprei meu PS2 em 2009 no fim da vida ja, esse pais nao ajuda em nada em lugar nenhum e so piora a cada dia que passa, aqui vai se torna uma grande força pros PCgamers e vai ter muita empresa se aproveitando e botar o preço dos componentes para um bom PCgamer la em cima, ja ta acontecendo nesses tempos de pandemia, acho que a nintendo percebeu que esses novos consoles vão ser muito caros aqui e com uma pesquisa cultural dos anos 90 daqui devem ter concluido que nos brasileiros iriamos migrar pro Switch sendo um dos poucos consoles que vao ficar acessiveis a um certo publico

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