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Nintendo de volta... mas de que jeito?

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Faz o maior tempão que rompi com meu compromisso de escrever e postar regularmente aqui, mas hoje a Nintendo mandou uma que me fez querer polemizar, ou pelo menos iniciar uma discussão, e me senti compelido a vir aqui publicar algumas groselhas sobre o "state of affairs" da nossa relação com a indústria de games e o que isso implica para o assunto desse texto.

Hoje a Nintendo tornou público que pretende voltar a operar no nosso território, ofertando seus produtos (Nintendo Switch, acessórios e jogos) em caráter oficial, depois de mais de 5 anos de quase que total ausência aqui no Brasil. Há quem especule que isso implique suporte total da empresa aos seus consumidores, que os serviços serão prestados de forma completa (loja online, suporte técnico, garantia) e até que os jogos da Nintendo poderão vir localizados. Tendo em vista que nós gamers nos beneficiamos de variedade e de serviços de qualidade, é bem agradável pensar na hipótese de tudo isso se concretizar, mas eu queria aqui pontuar algumas coisas que fazem com que eu não veja o menor sentido em a Nintendo voltar a operar no nosso país.

Não que eu seja hater, que eu queira que a Nintendo fique longe do nosso mercado, nem nada do tipo. Como disse no parágrafo anterior, variedade de opções é muito benéfica e desejável, e sou quase que obrigado a acrescentar que o trabalho da Nintendo em relação a seus produtos, geralmente, é de excelência. Se não fosse assim, ela não estaria tão ativa no mercado, de forma consistente, até hoje. O problema é que temos uma série de fatores que, pela lógica, deveriam inviabilizar o investimento da Nintendo, uma vez que ela saiu do Brasil em um momento em que nossa situação econômica e social estava até melhor do que a que temos agora.

Posso até estar pouco informado e cometer equívocos aqui, ainda assim vejo que o país não tem clima e nem ambiente propícios para receber investimentos estrangeiros de empresas tentando explorar qualquer mercado que seja, ainda mais quando isso envolve produtos que aqui no Brasil sempre foram e ainda são considerados um luxo. O governo atolado em dívidas, cheio de dificuldade para manejar suas verbas para as coisas mais básicas, a economia em frangalhos enquanto a população definha e cada vez mais gente fica sem perspectiva de conseguir ser produtiva e ter compensação financeira por isso, e a repercussão que isso causa na questão cambial, que leva o dólar a patamares cada vez mais frustrantes e inalcançáveis de valorização em cima do real. Isso tudo é falar dessas questões muito por cima, e cada ponto desses pode ser discutido de inúmeras perspectivas e originar incontáveis subpontos de discussão que levariam uma eternidade para permitir que se construíssem conclusões sobre tantos assuntos. Dito isso, podemos ver que nossos problemas tem proporções estratosféricas.

No meio disso tudo, vemos o nosso hobby ficar cada vez mais caro, de forma que, a cada dia, cada vez menos pessoas tem condições de aderir. Dependemos de uma classe política que praticamente não demonstra nenhuma intenção de reduzir os custos dos games, consoles e acessórios ao consumidor final, enquanto o dólar (hoje, segundo o que vi no Google) equivale a R$ 5,56 e o mercado (considero aqui tanto o oficial quanto o cinza), cada vez mais, precifica os produtos ofertados de forma inflada. Tudo ficando sempre mais caro, ao ponto em que o Nintendo Switch pode ser encontrado à venda por aproximadamente R$ 4000,00. Parece razoável? Para mim não é nem um pouco. Mas para a Nintendo talvez seja, e isso, na minha humilde opinião, parece simplesmente surreal e extremamente intrigante.

Para começar, a Nintendo, como a empresa gigantesca que é, sabe muito bem da situação econômica do nosso país e da nossa população, do nosso ambiente de negócios e do funcionamento do nosso mercado. É óbvio dizer que seus executivos/diretores sabem muito mais desses assuntos do que eu (o que aumenta as chances de eu estar apenas dizendo um monte de besteiras), mas quero me reservar o direito de questionar o que raios teria motivado essa empresa a voltar a investir aqui, justo agora.

Todos os problemas que citei anteriormente já são colossais, e nós ainda estamos sofrendo os efeitos da pandemia de covid, o que atrasa mais ainda a vida de todo mundo. Ainda assim, a Nintendo anuncia o retorno de sua atuação no mercado brasileiro. O que será que eles esperam obter? Será que as novas condições que eles conseguiram para voltar a atuar aqui são melhores do que as de 2015, quando eles resolveram sair? A Nintendo realmente enxerga alguma possibilidade de gerir um negócio lucrativo e sustentável? Se os que comandam a empresa acham que as condições são favoráveis e que dá para executar um trabalho bem sucedido, por mais que eu ache que o Brasil é um país cheio de defeitos na maioria dos aspectos, não serei eu quem vai reclamar ou se opor. Só quero expressar que não vejo o menor sentido, pois as respostas que consigo produzir para os meus questionamentos são todas negativas, e as possibilidades que consigo imaginar para tornar viável o que a Nintendo queira fazer aqui são todas facilmente classificáveis como milagres.

Dentre essas tais possibilidades, eu posso até imaginar que a Nintendo conseguiu algum tipo de alívio tributário. Nossos impostos sobre games chegam a aproximadamente 72%. Depois de todo o aumento de preço advindo do câmbio, do transporte e do lucro que cada agente da economia precisa ter para que os produtos cheguem nas prateleiras das lojas, o preço do produto para nós, consumidores, quase que dobra para que o governo passe a mão no nosso dinheiro simplesmente porque a gente quer entretenimento. Suponhamos então que a Nintendo tem conversado com o governo brasileiro e conseguiu negociar impostos menores, de forma substancial, para que assim os seus produtos ficassem acessíveis para mais pessoas e então a rentabilidade viabilizasse o investimento. Dá mesmo para acreditar que isso pode ter acontecido ou que vai acontecer?

Outra possível justificativa de a Nintendo ver o retorno ao mercado brasileiro como uma boa decisão, como vi um amigo meu dizer, assim como algumas pessoas nas redes sociais, é que a empresa tomou conhecimento de que tem gente disposta a pagar R$ 4000,00 pelo Switch, já que tem gente comercializando o console nesse patamar de preço. R$ 4000,00 seriam aproximadamente US$ 727,00, enquanto o preço praticado lá fora para o Switch foi US$ 300,00 no seu lançamento. Considerando que o custo de produção e transporte fique bem abaixo disso, mesmo com os impostos, o preço brasileiro do console poderia proporcionar lucros absurdos à Nintendo. No entanto, será que dá para imaginar as vendas tendo volume suficiente para que o negócio seja viável? Nossa população parece estar em uma situação financeira e social que permita que as pessoas façam compras de produtos não essenciais nesse valor?

Eu poderia até fazer mais esforço e pensar em mais uma ou duas possíveis razões para a viabilidade de a Nintendo voltar ao Brasil, mas acho que o gasto de energia seria enorme. Sinceramente, eu duvido que a empresa tenha conseguido negociar melhores condições fiscais e de ambiente de negócios, e duvido mais ainda que ela tenha voltado na intenção de atrair os compradores de Switch que hoje se dispõem a pagar quantias absurdas de dinheiro pelo console tecnicamente mais fraco de sua geração, uma vez que acho muito provável que eles sejam tão poucos que o custo de a Nintendo operar aqui não seria coberto só pelo consumo deles. Mas enfim, posso estar completamente enganado e os que dirigem a Nintendo podem estar munidos de informações muito auspiciosas sobre o nosso mercado. Até torço para que seja o caso, mas não consigo de forma alguma ver como a Nintendo poderia prosperar aqui no Brasil. Se já não deu certo no período que se encerrou em 2015, imagina agora.

Lançada a opinião, que se dê início à discussão, se é que alguém vai se dispor a opinar junto comigo.

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    firzen592798 · about 1 month ago · 2 pontos

    Acho que a Nintendo está pensando a mais longo prazo, os valores estão muito inflados pela situação atual, e a Nintendo com certeza já está se planejando para começar a reunir o público de volta. É difícil porque depois do SNES o povo simplesmente abandonou a Nintendo, uns indo para seu God of War, outros montando seu PC Gamer de 1500 conto comprando jogo a 15 conto. O console Nintendo ficava em segundo plano, e conseguir esses fãs de volta vai ser o grande desafio de agora em diante

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    supernova · about 1 month ago · 2 pontos

    Eu tinha 12 jogos originais da nintendo e console , compraria de boa jogos originais se tivesse suporte, acho um absurdo usar console numa empresa que nem loja br tem ,ou servidor, caso melhore um pouco volto, eu acho mesmo que nossos problemas somos um mercado muito maior que muito paises minúsculos onde ela esta oficialmente. E claro consumimos muito mais também.

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    kess · about 1 month ago · 2 pontos

    A Nintendo esteve por muito tempo no Brasil, e talvez a falha tenha sido na retirada do nosso mercado, e não nessa volta. Mas isso é apenas o campo da suposição.
    Afinal, se o console é vendido por U$300, e os preços aqui estão chegando nos +U$700 (alguém paga isso?) Qualquer valor que a Nintendo coloque entre os 300 e 700 vai "desbancar a concorrência" e ainda lucrar mais que em outros lugares do mundo.

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    torugo89 · about 1 month ago · 2 pontos

    Eu acho que a Nintendo talvez - frisando o talvez - tenha algum conhecimento do mercado brasileiro que não sabemos. Mas eu estou como você: não estou muito esperançoso que aconteça pois quem fez essa comunicação foi a Nintendo da América. Não houve nenhum RT das outras filiais espalhadas pelo mundo. Só uma breve lembrança: os consoles vendidos aqui nos anos 90 (pela extinta Playtronic) vinham direto da Europa - e em condições minimamente viáveis pois o euro não existia ainda como moeda forte - por nossa localização regional ser diferente da americana (nós PAL-M/N eles NTSC). Sinceramente também não tenho muita certeza se isso vai adiante. Mas, se for, será bom pra nós (em algum grau).

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    artigos · about 1 month ago · 1 ponto

    Parabéns! Seu artigo virou destaque!

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    adrieltrigger · about 1 month ago · 1 ponto

    Não tenho dúvida de que a Nintendo se planejou para começar essa movimentação. Empresas existem com o propósito de obter lucro por meio dos produtos e serviços que oferecem e não é diferente na indústria de games. Se a Nintendo não enxergasse possibilidade de lucrar aqui, não estaríamos discutindo a notícia do seu retorno ao Brasil. Só espero realmente que eu esteja errado e que o planejamento da empresa e a implementação das suas estratégias sejam bem implementados. Se for o caso, e se a Nintendo não tiver vindo puramente para aproveitar a alta de preços de video games e afins enquanto tem gente disposta a torrar esse dinheiro todo, talvez até seja positivo para todos, tanto para a Nintendo quanto para os seus fãs, e até para a comunidade gamer brasileira como um todo.

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