2019-06-16 21:31:29 -0300 2019-06-16 21:31:29 -0300
adrieltrigger Adriel Bruno

Pokémon e o dilema de sua desgastada fórmula

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Está vindo aí mais um jogo dá série tradicional da franquia Pokémon, e com isso repete-se aquela conversa, ou aquele pensamento: "lá vem o mesmo jogo de sempre, com as mesmas mecânicas, a mesma progressão enfadonha, com apenas algumas pequenas alterações aqui e ali..."

Seria desonesto de minha parte dizer que, com certeza, Pokémon tem se mantido completamente estático em termos de mecânicas, jogabilidade e progressão, afinal testemunhei e apreciei muito pouco da série, considerando que já há oito gerações inteiras e só pude ter acesso a três ou quatro jogos diferentes, timidamente passando pelo cenário competitivo apenas em dois deles. Joguei os Pokémon Emerald e Diamond numa época em que a emulação estava mais em alta, e posteriormente me foi permitido ter um 3DS, no qual joguei Pokémon Y e Alpha Sapphire, finalmente conseguindo aproveitar o multiplayer, para o qual gastei centenas de horas em preparação, breedando umas 30 criaturas até conseguir mais ou menos os stats que eu gostaria.

Perto da quantidade de conteúdo que a franquia Pokémon conseguiu gerar, essa minha experiência não amontoa quase nada em comparação, por isso não tenho como dizer se concordo com a citação do primeiro parágrafo, que acredito que seja a opinião de muita gente toda vez que é anunciado um novo jogo, uma nova geração. É achismo, mas não há como negar que há certa recorrência desse tipo de opinião sobre Pokémon.

O fato é que existem certas mecânicas tradicionais nos jogos que parecem ter sido implementadas não só para que o jogador tenha um melhor aproveitamento do treinamento das criaturas que captura e comanda em batalha, mas também para separar os jogadores casuais dos hardcore. Sendo que a minha visão sobre essas mecânicas, seus propósitos, sua utilidade prática e seu balanceamento é bem mais crítica do que simplesmente dizer que elas são uma espécie de divisor de águas do público que curte Pokémon.

Sim, eu vejo essa questão de olhar para essas mecânicas de forma crítica como um grande dilema para a franquia, que já tem mais de 20 anos e não me parece ter evoluído muito nesse aspecto. Quero refletir aqui principalmente sobre os sistemas de IVs, EVs, breeding, sobre como enxergo a repercussão desses sistemas na jogabilidade e sobre possíveis sugestões ou( por que não?) soluções que ajudariam a tornar o jogo mais intuitivo, balanceado e acessível (e com acessível eu não quero dizer "mais fácil"). Vamos fazer essa problematização das mecânicas na ordem em que elas foram citadas. Começaremos, portanto, pelos IVs.

IVs, ou Individual Values, são tidos como o "DNA" dos pokémons. Cada stat do pokémon tem um IV que lhe dá um bônus fixo, e cada IV pode ir de 0 a 31, se não me engano. Na teoria, parece um ótimo sistema para fazer com que alguns pokémons tenham mais potencial do que outros e, no competitivo, aproveitar bem essa mecânica faz uma diferença absurda. A "genética" do pokémon é o fator mais determinante na hora de definir se ele é apto ou não a participar do cenário competitivo, deixando o treinamento em segundo plano. Não é de todo ruim, isso, mas limita muito as opções do treinador, ainda mais considerando a repercussão dessa e de outras mecânicas juntas na preparação de pokémons para competir. Entrarei em mais detalhes disso mais adiante.

EVs, ou Effort Values, são ganhos de stats que você pode conseguir em batalhas contra pokémons selvagens ou em minigames de treinamento que alguns dos jogos da franquia tem (me recordo apenas de Alpha Sapphire e Omega Ruby, no momento). Cada pokémon que você derrota nas rotas dá alguns pontos desses a um stat específico do seu pokémon, sendo que esse bônus tem um limite máximo total e um limite máximo por stat, mais ou menos da seguinte forma: os EVs totais de um pokémon tem um máximo de 512 pontos, que podem ser distribuídos pelos stats, e cada stat pode chegar a, no máximo, 252 pontos de EV, ou seja, não dá para maximizar tudo. É uma forma, creio eu, de fazer com que o treinador tenha que definir prioridades na hora de preparar um pokémon.

Breeding é o maior dos problemas que eu vejo no jogo, desde que comecei a racionalizar esse texto, e em breve explicarei o motivo, mas por enquanto vamos nos ater ao básico da mecânica. Trata-se de fazer os pokémons se reproduzirem e, com isso, gerarem pokémons cada vez mais aptos a se tornarem mais fortes. Pokémons gerados assim herdam de seus pais os IVs, a natureza (que pode afertar stats de forma favorável ou desfavorável), e até habilidades. É também o sistema mais volátil em termos de resultados aleatórios, o que pode ocasionar enormes perdas de tempo até que você obtenha o resultado desejado, e é aqui que as coisas começam a ficar complicadas nessa problematização e na busca por soluções.

Até aqui vimos que cada pokémon tem uma espécie de DNA que determina quão forte ele pode ser (sistema de IVs), pode ser treinado e reforçado até certo ponto (sistema de EVs) e a reprodução (breeding) entre pokémons pode gerar outros pokémons potencialmente mais fortes. Os problemas na relação entre esses sistemas e na sua repercussão no jogo de uma forma geral são vários, começando com a exorbitante aleatoriedade dos resultados que podem ser obtidos. Eu gastei muitas e muitas horas nos Pokémon de 3DS com isso, e poderia ter gastado muito mais para obter os mesmos resultados se não fosse por um amigo ter me passado um pokémon hackeado que de certa forma facilitava obter pokémons melhores no breeding.

Sendo o breeding a questão central, na verdade, quero apontar como ele dificulta desnecessariamente a vida do treinador e como as outras mecânicas reforçam esse aumento de dificuldade de forma completamente artificial e anti-intuitiva. Como eu já disse, os resultados do breeding são excessivamente aleatórios, muitas vezes te dando pokémons que tem várias características não aproveitáveis, ainda mais considerando que, no cenário competitivo, se você não chegar com os stats certos maximizados, seu pokémon será praticamente inútil. O sistema de IVs é quase que um fermento em cima desse problema, porque faz com que uns pokémons sejam viáveis para competir, enquanto outros jamais serão viáveis por conta do "DNA" mais fraco. Isso começou a mudar em Pokémon Sun e Moon por meio do "Hyper Training", mas foi um progresso muito tímido, uma vez que o Hyper Training é uma mecânica acessível apenas no late game, com várias condições a serem atingidas antes de poder ser aproveitada. Os EVs, eu devo reconhecer, são uma mecânica que até tenta amenizar os problemas listados até aqui, mas a forma de implementação não faz sentido e só atrapalha até que você descubra como aproveitar a mecânica da maneira 100% correta. Sem buscar conteúdo externo ao jogo, não tem como saber como treinar adequadamente os seus pokémons, e os EVs conferem um ganho artificial de stats, sobre o qual seu controle é muito indireto. Você tem que saber exatamente contra quais pokémons selvagens lutar e procurar situações em que os ganhos dos pontos de EV sejam os menos lentos possíveis. Eis aqui mais um problema gigantesco do treinamento para o competitivo: o grind é exaustivo ao extremo!

Todos esses fatores em conjunto me fazem acreditar que Pokémon, enquanto jogo competitivo, é simplesmente pouco acessível, desnecessariamente e artificialmente difícil. Demanda uma quantidade de tempo que poderia ser muito melhor aproveitada e requer que o jogador considere inúmeros fatores que poderiam ser simplificados sem qualquer prejuízo à experiência como um todo. Por exemplo, IVs poderiam muito bem ser substituídos por uma outra forma de medir e explorar o potencial dos pokémons. Poderia funcionar através de um sistema de leveling escalável em que pokémons com mais potencial atingiriam o nível máximo mais rápido que os outros. Isso solucionaria dois problemas: o fato de nem todo pokémon ser viável para competir e a aleatoriedade do potencial de cada pokémon. Eventualmente, qualquer um dos seus pokémons poderia se tornar viável.

Os EVs, por sua vez, poderiam ter sua implementação modificada de forma que o método de treinamento fosse mais intuitivo e para que fosse mais perceptível ao jogador quais stats ele está treinando. Treinar EVs poderia ser um serviço dos ginásios, por exemplo, fazendo com que as visitas a eles não sejam só em prol das insígnias. Até poderíamos dizer que é uma oportunidade desperdiçada pela Game Freak em tantos anos, que poderia melhorar bastante a densidade da jogabilidade, deixando a experiêcia menos linear, reaproveitando conteúdos e espaços que o mundo virtual proporciona.

Por último, o breeding poderia se limitar a definir a natureza do pokémon, ou simplesmente ser abolido. Já se passou tempo demais em que essa mecânica atrasou a vida dos jogadores que tiveram que chocar centenas, milhares, talvez até milhões de ovos, em busca do pokémon com os IVs, natureza, habilidade e até determinados golpes exatamente como eles precisavam. Tudo isso regido por uma aleatoriedade imensurável. Estamos prestes a testemunhar mais um lançamento de uma nova geração de pokémons, e eu creio que já passou da hora de os desenvolvedores da Game Freak colocarem a mão na consciência e procurarem forjar uma experiência mais intuitiva, que esclareça melhor os jogadores sobre o que está acontecendo e torne o acesso ao competitivo menos árduo, porque não precisa ser absurdamente difícil como é atualmente.

Por enquanto é isso. O texto ficou mais longo do que eu imaginava, mas espero que ao menos tenha ficado claro e compreensível. Até uma próxima oportunidade.

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